Review: “Resident Evil 7: Biohazard” para PlayStation 4

Às vezes precisamos ir ao fundo do poço para emergir vitoriosos. De “Batman & Robin” o Homem-Morcego foi para “Batman Begins”. De “Um Novo Dia para Morrer” o agente 007 foi para “Cassino Royale”. De “Tomb Raider: The Angel of Darkness” a Lara Croft ressurgiu em “Tomb Raider: Legend”. Seguindo essa linha, a icônica franquia Resident Evil estava desesperada por um reboot. Após aquele inominável fiasco que foi “Resident Evil 6” (que, diga-se de passagem, só piorou com o tempo, o seu PlayStation 4 pode provar isso) a Capcom viu que a série precisava começar do zero. Eis que surge “Resident Evil 7: Biohazard” – que pega o nome original japonês como subtítulo sabe-se lá por quê! – trazendo o survival horror de volta ao lar.

Quando analisei o spin-offResident Evil: Revelations 2” (que eu até gostei, diga-se de passagem) comentei que a franquia não precisava voltar para mansões para ser assustadora. Ironicamente, foi esse o caminho que a Capcom acabou escolhendo. A série fez fama no terror graças à icônica mansão Spencer, cenário memorável do primeiro jogo de 1996 e belamente revisitada no remake de 2002 – também disponível remasterizado para PlayStation 4. Portanto parece que a tradicional desenvolvedora japonesa viu que o ideal era voltar às origens em sua plena essência. “Resident Evil 7” coloca o jogador para controlar Ethan, que está procurando sua namorada desaparecida e encontra uma casa perdida no meio da Louisiana, nos EUA. Lá ele é sequestrado por uma família de loucos e precisa tentar sobreviver. Errr, ao horror. Queria o quê, né? A mansão tem inúmeros segredos que não estão diretamente conectados ao T-vírus ou uroboros dos episódios anteriores. Mas tem algo de ruim brotando dali, evidentemente…

Isso significa que saem de cena os tiroteios desenfreados sem sentido e volta a meticulosa exploração ambiental de um cenário fechado. “Resident Evil 7” evoca muito o espírito original do primeiro jogo da série e sem dúvida irá agradar aos fãs das antigas. Tem até algumas referências espertas a tradicionais enigmas da mansão Spencer! Mas, apesar do clima, o jogo merece muitos elogios por arriscar algo novo. Pois o enésimo capítulo da saga zumbi poderia simplesmente evocar o primeiro jogo ao revisitá-lo, de uma certa maneira, com aquela jogabilidade em tanque, câmera fixa e zumbis lentos. Não, a Capcom encontrou uma forma mágica de ser igualmente tradicionalista e atual. Para isso mudou a perspectiva de câmera para a primeira pessoa, seguindo o sucesso recentes de fenômenos indies como “Amnesia: The Dark Descent” e “Outlast”. O resultado é o Resident Evil mais divertido desde “Resident Evil 4”.

A razão do sucesso é bem simples. “Resident Evil 7” é um jogo focado – o completo oposto de “Resident Evil 6”. A história é simples, o cenário bem montado e a estrutura linear não fica perdida tentando inventar moda. A exploração do cenário é bem prática, objetos são facilmente detectáveis (não significa que não tenha alguns bem escondidos) e a movimentação é fluida. Os enigmas tem aquelas loucuras típicas da série, claro, como formar a sombra de uma estátua de aranha para abrir uma porta secreta (oi?), mas não são nada que irão exigir que você decifre algum mistério que só fazia sucesso na cabeça de quem o inventou. As notas espalhadas pelo cenário ajudam a descobrir o caminho a seguir ao mesmo tempo que exploram certos lados narrativos mais obscuros. E existem algumas “sidequests” envolvendo fitas VHS perdidas que fazem você descobrir como resolver alguns problemas mais para frente.

Apesar do foco ser na exploração para criar suspense, “Resident Evil 7” não abandona os tiroteios famosos da série. Apenas agora eles são bem mais esporádicos. Não existem zumbis aqui, mas os monstros comuns remetem a algumas criaturas dos episódios recentes (se há ligação direta, isso não fica claro). O combate é lento como nos primeiros jogos, mas a perspectiva em primeira pessoa trás estratégias similares ao estilo de “Resident Evil 4”. Ou seja, funciona muito bem nesse novo perfil da série. Você não irá enfrentar cinco inimigos ao mesmo tempo, mas cada um deles acaba sendo um desafio bem maior. E os chefões (cada um dos membros da família Baker) tem seu jeito próprio para serem derrotados e são relativamente divertidos, mas eu não diria que existe nenhum confronto memorável.

E, mesmo com tantos acertos, “Resident Evil 7” escorrega em alguns elementos. Os gráficos funcionam muito bem, mas são muito escuros. Ajuda no clima, mas atrapalha um pouco na exploração – ainda mais se você não estiver jogando trancado em um quarto de luzes apagadas no meio da noite. Sobre os gráficos em si, o nível de detalhe é impressionante na variedade dos cenários, mas alguns defeitos – principalmente nas texturas – são bem óbvios. Nada que atrapalhe, ainda mais em um jogo cujo foco do estilo visual esteja nos elaborados efeitos de luz. Outra coisa que pode decepcionar os fãs é a duração do jogo, que pode muito bem ser superado em aproximadamente 8 horas já na primeira tentativa. “Resident Evil 7” não vem com nenhum modo extra – fora os vendidos por DLC, evidentemente, né? – portanto tudo o que você terá após zerá-lo será jogar novamente. Considerando que a experiência em si é ótima, isso está longe de ser um problemão. Mas a Capcom poderia ser colocado algo a mais no pacote.

Ainda assim, não tem erro: “Resident Evil 7” é divertidíssimo enquanto dura e isso é tudo o que um bom videogame precisa. Não é tão inovador quanto “Resident Evil 4” nem irá marcar futuras gerações como “Resident Evil” ou “Resident Evil 2” o fizeram vinte anos atrás. Mas para os fãs decepcionados com os rumos da série, o convite para retornar ao gênero onde a franquia fez fama é imperdível. Quem gostava mais do foco em tiroteios de “Resident Evil 5” ou “Resident Evil 6” pode sempre jogar Gears of War para matar saudades. Quem estivava atrás de uma eficaz experiência de suspense com requintes de qualidade espalhados nos detalhes, “Resident Evil 7” é o caminho certo que a franquia estava devendo. Um reboot necessário e acertado.

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