Review: “A 13ª Emenda” de Ava DuVernay

A 13ª emenda à Constituição dos EUA é aquela famosa pela abolição da escravatura – seus bastidores podem ser vistos no competentíssimo “Lincoln” de Steven Spielberg. Assim como aqui no Brasil nós tivemos a nossa Lei Áurea, parece que o simples fato de alguém ter “libertado” os negros em colônias famosas por os escravizarem durante séculos em massa passa a sensação de que o problema passou. O documentário “A 13ª Emenda” tenta fazer uma análise mais profunda da questão, indo além da formulação de uma lei um pouco mais de um século atrás e ver a realidade social em seu país. O filme tem uma visão interessante para nós brasileiros também, já que o problema é assustadoramente similar.

Ao se libertar toda uma população que era mantida em correntes por motivos meramente econômicos, a questão social é superada? Um filme como “12 Anos de Escravidão” mostra que nada é tão simples assim. A escravidão não era apenas um modelo econômico. Ele enraizou o racismo na estrutura social tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil. Um grande percentual da população – branca – não iria simplesmente passar a ver negros como pessoas simplesmente por que uma lei foi aprovada. E, claro, não foi isso que aconteceu.

“A 13ª Emenda” segue inicialmente e velozmente (sem dar tempo para respirar mesmo) pela história dos cem anos seguintes de abolição da escravatura. A lei mudou, mas o racismo não. O racismo passou a virar segregação, mas a perseguição continuou. E quando simplesmente manter negros acorrentados não era mais possível por que a escravidão virou ilegal, eles passaram a ser presos por uma absurda “guerra contra as drogas” que, após tantas décadas, não produziu absolutamente efeito algum. Quer dizer, efeito positivo de efetivo combate ao consumo, né? Por que se o intuito da guerra era criminalizar o usuário, ela foi um sucesso absoluto! Depois disso a questão deixa de ser uma análise sobre direitos civis dos negros e uma visão sombria sobre a realidade nas prisões norte-americanas.

O documentário de Ava DuVernay (diretora de “Selma: Uma Luta Pela Igualdade”) é editado de maneira lógica e racional para seguir este caminho. Como uma parte da população americana deixou de estar presa pela escravidão para estar presa como criminosos. O texto com letras garrafais “criminoso” não fica pipocando na sua tela por que DuVernay está querendo ser sutil não, ok? O ponto dela é claro e completamente narrado e ressaltado por entrevistas com ativistas e políticos. Se você discorda com o tema, o documentário não é feito para você. Ele tem fatos demais para ser contrariado.

E, como já dito, “A 13ª Emenda” pode muito bem ser visto por nós brasileiros sob um prisma similar. Nossa história com a escravidão é a mesma. Nosso problema com o racismo é tão forte quanto. E nós temos uma crise de superlotação carcerária que afeta primariamente a população negra e pobre que é frequentemente criminalizada pela grande mídia. Para quem quiser uma análise lúcida e bem formulada sobre uma questão que precisa ser debatida, “A 13ª Emenda” é um prato cheio. Meio difícil de digerir, evidentemente, mas isso é inevitável. Se estiver com dúvidas, que as palavras finais que encerram o documentário ecoem na sua cabeça, pois elas são poderosas. E não deixarão mais margens para a dúvida. Em tempos de “pós-verdade”, um documentário tremendamente factual pode ser poderoso.

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