Review: “Corra!” de Jordan Peele

Geralmente fica reservado ao cinema sci-fi o luxo de abordar questões sociais através de metáforas ou analogias usando referências fantásticas ou surreais. Ao cinema do terror não é dada muita essa oportunidade, por motivos de estrutura (o mata-mata geralmente não estimula muito diálogo e questionamento) ou falta de costume mesmo. O recente “A Bruxa” fez isso e provavelmente você vai ter que se esforçar muito mais para tentar encontrar outro exemplo. “Corra!” é uma pérola de filme que inova ao abordar com a sutileza do humor e o absurdo do terror inúmeras questões sobre o racismo.

Chris é um jovem negro com uma namorada branca, Rose, que embarca em uma viagem de final de semana para conhecer os seus sogros. Ele está preocupado com a questão da relação interracial, mas ela garante que sua família não é racista. Ao chegar na mansão dos ricaços Armitage, Chris é recebido com carinho pelo sogro neurocirurgião e pela sogra psiquiatra. Mas alguns detalhes acabam transcorrendo nas falas deles (repare no discurso do patriarca sobre como ele adoraria matar todos os cervos da região) que lhe levantam o alerta. Além de outras coisas esquisitas envolvendo os criados negros da família.

“Corra!” tem uma premissa simples. Não pretende inovar na linguagem, mas é o filme de terror com doses de humor mais inovador desde “Pânico” de 1996. Entenda uma coisa: este é um filme de terror sim, com sangue, susto e cenas de suspense! Mas tem humor nas horas que necessitam. E a história irá lhe manter intrigado com o mistério, mesmo que a revelação central em si não seja particularmente difícil de prever, mas a repercussão da questão vale a investida. É um filme para se debater após assistir.

E aí está o principal diferencial da produção perante todo o resto: a margem para a discussão social. Qual foi a última vez que você assistiu a uma história de horror que trouxe alegorias à cultura do racismo, apropriação cultural e privilégio branco? “Corra!” trás tudo isso em um único pacote, sem ficar martelando, mas usando da sutileza com esperteza para nunca perder o fio da meada. A ideia está lá e bota você para refletir. Infelizmente não tem como entrar a fundo na discussão sem levantar spoilers, portanto deixarei a essa resenha apenas a informação sobre a questão. Leve seus amigos e converse com eles depois! Só não leve seus amigos racistas – eu acho que eles não vão gostar do tema, sabe?

O filme é escrito e dirigido por Jordan Peele, sua estreia na direção após uma carreira como ator e roteirista de humor. De onde um humorista tirou essa ideia para uma história de horror? Bem, provavelmente da própria vida mesmo – Peele é negro. “Corra!” mostra a importância de se dar oportunidade a minorias pouco representadas no cinema, não só apenas em papeis de atuação, mas também na visão de novas histórias. Oportunidades deles verem seu ponto de vista ser representado. Chance para o status quo de ver alguns paradigmas sendo quebrados. “Corra!” quebra vários deles ao mesmo tempo que é um filme divertidíssimo de assistir. Vindo de um estreante na função, veja só! Pois é. Oportunidade! Por que essa palavra incomoda tanto?

O elenco é encabeçado por Daniel Kaluuya (eficiente como protagonista em uma atuação surpreendentemente sutil) e Allison Williams (de “Girls”), uma ótima surpresa. Bradley Douglas e Catherine Keener são os assustadores sogros – sério, ela tá bizarra! Caleb Landry Jones e LilRel Howery são importantes coadjuvantes com bons momentos para brilhar.

 

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