Review: “Colossal” de Nacho Vigalondo

O cinema kaiju, o cinema de monstro se você quiser ser um pouco menos hipster na nomenclatura, ganhou um certo renascimento no ocidente com o combo de respectivo sucesso de “Círculo de Fogo“, de Guillermo del Toro, e “Godzilla“, de Gareth Edward. Apesar de nenhum dos dois ter sido um fenômeno das bilheterias, conseguiram garantir uma certa repercussão popular, influenciando mais e mais filmes sobre monstros gigantes destruindo cidades. Algo que o cinema oriental sempre gostou de fazer – daí o termo kaiju, que vem do japonês e significa monstro ou criatura estranha. Com “Colossal” talvez tenha chegado a hora do cinema ocidental se apropriar um pouco mais das possibilidades narrativas para o conceito?

Pois “Colossal” parte de uma ideia tão absurda que deveria ser ridículo: Gloria é uma jovem com problemas de alcoolismo e absoluta falta de controle da sua vida que, após ser despejada pelo namorado Tim, volta para sua cidade natal para repensar a vida. Lá reencontra uma amizade de infância, Oscar, e passa a trabalhar com ele em um bar. Ao mesmo tempo que uma criatura gigante passa a atacar Seoul. O que uma história tem a ver com a outra? Absolutamente tudo, pois Gloria descobre que sempre que ela passa por um parquinho de sua cidade, a tal criatura surge em Seoul e passa a reproduzir seus movimentos. Sim, Gloria controla mentalmente um monstro gigante do outro lado do planeta. “Colossal” é sobre isso.

Pode parecer completamente idiota – talvez deveria ser – mas o roteiro e direção de Nacho Vigalondo (mais famoso por filmes de gênero do cinema espanhol) leva tudo muito a sério. Se você parar para pensar, a analogia entre um monstro que destrói uma cidade e uma pessoa irresponsável que não mede suas ações e bem óbvia. O que poderia levar a um melodrama mais exagerado do que o próprio conceito permite, mas o texto leva a história para um lado mais sombrio, saindo da mera ideia de “monstros destruindo coisas” para um arco sobre relacionamentos abusivos. Gloria se vê no monstro e, em algum momento, percebe sua responsabilidade em suas ações – que estão matando pessoas em Seoul! Ao mesmo tempo que sua relação com seu amigo de infância desenvolve e também temos a questão com o ex-namorado e Joel, um colega de Oscar que ela desenvolve uma atração, e “Colossal” passa a focar em como ela se amarra em relacionamentos que não a privilegiam.

Veja só, Gloria não é o único monstro da história – e o roteiro guarda algumas reviravoltas sobrenaturais para elaborar isso de maneira mais clara. Entretanto sua maior responsabilidade não está na destruição que causa indiretamente, mas em como ela se coloca em relacionamentos abusivos, sejam eles violentos ou meramente inconsequentes (repare na passividade de Joel em ajudá-la quando precisa) que questionam o que Gloria deve fazer para sair desse buraco. Um buraco com monstros interdimensionais que destroem cidades.

Anna Hathaway interpreta Gloria, com maneirismos específicos que servem para desenvolver sua personalidade. Ela se compromete ao arco e é bastante competente na criação da personagem. Dan Stevens (“Downton Abbey”) é seu ex-namorado condescendente, Jason Sudeikis (“Quero Matar Meu Chefe”) um amigo possessivo e Austin Stowell (“Ponte de Espiões”) o colega que não parece ter firmeza na hora de ajudar Gloria, apesar das boas intenções. “Colossal” aborda temas que não deveriam ter nada a ver com o cinema kaiju, mas dá conta do recado. A execução é falha, o clímax um pouco forçado demais na “solução” do conflito, ainda assim darei crédito ao filme na mera criatividade em abordar algo tão interessante de maneira tão absurda.

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