A Link to the Past: “Batman & Robin”

Vinte anos atrás o cinema foi presenteado – ou melhor, bombardeado – por um evento inesquecível: a estreia de “Batman & Robin”, quarto filme da franquia cinematográfica do Homem-Morcego. Não custa fazer um certo flashback para contexto: o episódio anterior, “Batman Eternamente” de 1995, faturou US$ 336 milhões nas bilheterias globais – algo que equivaleria próximo de 700 milhões de dólares atualmente, atualizando para a inflação. Nos EUA, foi a segunda maior bilheteria do ano, atrás apenas de “Toy Story”. Portanto sua sequência tinha boa expectativa de sucesso. Apesar do consenso atual é que ambas produções do diretor Joel Schumacher foram inferiores aos primeiros dois filmes de Tim Burton, na época “Eternamente” foi bem recebido sim. Acredite se quiser!

Em 1997, Batman não tinha medo de sair na rua vestido assim.

Naquela concorrida temporada de lançamentos, “Batman & Robin” teve que enfrentar a segunda semana de “Velocidade Máxima 2” e a estreia da comédia romântica “O Casamento do meu Melhor Amigo”. Em sua segunda semana apanhou de “A Outra Face” e a animação “Hércules”. Em sua terceira semana já havia sido ultrapassado pela comédia romântica da Julia Roberts com o qual estreou junto. Ao final do verão gringo, contabilizou apenas US$ 107 milhões por lá – e um total de US$ 238 milhões pelo mundo, apesar de orçamento maior que do episódio anterior. Ou seja, flopou! Para quem não estava lá, fique claro: era um dos filmes mais aguardados da temporada em um ano que teve “O Mundo Perdido”, “Homens de Preto” e até “Titanic” lá no final para arrasar com todos os recordes. Mas não deu conta e acabou se tornando um memorável fiasco. Muitos decretaram – prematuramente – a morte da franquia Batman no cinema. Até “Batman Begins” chegar em 2005, foram anos de enrolação na tentativa de curar a imagem destruída.

E o resto é história. “Batman & Robin”  se tornou lugar comum na lista de sequências mal vistas ou famosos fracassos. Veja bem, ninguém gostou daquilo, o que faz com que “Batman vs Superman” realmente mereça o selo de “filme divisivo” em comparação. Mas existe algo de interessante a se discutir: apesar de toda a fama (ou infâmia), se tornou uma produção lembrada! Sim, por todos os motivos errados. Mas já se passaram 20 anos e, para muita gente, aquela imagem do George Clooney sacando o “batcartão de crédito” (aff…) simplesmente ficou na cabeça. Em relação a outros contemporâneos fiascos como “O Mensageiro”, “O Inferno de Dante” ou mesmo seu concorrente “Velocidade Máxima 2”, ele ao menos é lembrado. Ao menos é citado. Acho que apenas “Tropas Estrelares” seria outro fracasso memorável do ano de 1997, mas esse realmente é relembrado positivamente… Já “Batman & Robin” não, o tempo não favoreceu em nada seus erros. O que me leva a seguinte questão: por que “Batman & Robin” é tão ruim que ninguém esqueceu?

O inesquecíveis batmamilos!

Eu acho que o lugar comum diria que é o fato dele ser espetacularmente ruim (ele tem apenas 11% no Rotten Tomatoes, “Esquadrão Suicida” pode até tirar onda) ou por ter jogado na lama uma marca bastante popular. Mas convenhamos, filmes de quadrinhos ruins não eram novidade. Novamente, um pouco de contexto: em 1997 foi lançado “Spawn” e não deu muito certo também. E blockbuster fenomenalmente ruim, até mesmo aqueles de franquias com reputação, acontecem o tempo inteiro. Nada mudou. “Batman & Robin” foi além. mas, diria eu, sua ruindade é tão espetacular que chega a ser bem feita! Não é daqueles filmes “é tão ruim que chega a ser bom”, por que ele não chega a ser bom de forma alguma. Mas tem algo naquele fiasco todo que é… Simplesmente… Memorável!

Em parte se dá ao estilo visual do diretor Joel Schumacher, que em “Batman Eternamente” já tinha deixado claro sua predileção por luzes e cores saindo de todos os lugares. Seu primeiro filme ainda era relativamente escuro, tentando manter alguma conexão com o estilo gótico de Burton. Mas com “Batman & Robin” ele teve a opção de simplesmente ligar todas as luzes, todas as cores, vomitar um arco-íris inteiro no cenário. Batman e Robin ainda tinham sua tonalidade escura, apesar do menino prodígio ganhar alguns detalhes vermelhos nos ombros (provavelmente fazendo referência ao visual do Asa Noturna), mas os vilões eram praticamente carros alegóricos. O Sr. Frio emitia luzes de cada parte de seu corpo, literalmente brilhava no escuro. E a Hera Venenosa, além dos cabelos penteados das maneiras mais esquisitas possíveis – acredite juventude, ninguém usava cabelos assim nos anos 90! – tinha trajes verdes fluorescentes e até suas luvas tinham as unhas pintadas. Ou seja, absolutamente ridículos. Entretanto, não há de se negar, criativos e diferentes.

Aproveito para lembrar a introdução da vila vivida por Uma Thurman, que despe-se ao som de uma curiosa versão de “Poison Ivy”, clássico rock dos anos 50. A cena é, com todo seu generoso absurdo, hilária! Os trocadilhos de sedução envolvendo jardinagem, por exemplo, quem teve coragem de escrever isso? Pois alguém escreveu, os atores leram e isso foi filmado para nosso deleite:

Os cenários também eram absurdos. Gotham City tinha estátuas gigantescas em tudo que é lugar – a ponto de uma perseguição de carros ocorrer nos braços de uma delas. É ridículo e absurdo, mas tá aí algo que você nunca viu no cinema! As sequências internas, além da abundância de holofotes e cores para todos os lados, eram sempre em cenários estranhamento específicos. Não era nenhum “galpão abandonado” ou “aeroporto vazio” ou “na rua”. Era no museu de Gotham, ou nos jardins botânicos, ou dentro de uma fábrica de sorvete. O clímax ocorria dentro de um observatório espacial. Por quê? Sr. Frio o utiliza para congelar a cidade. Batman o utiliza para redirecionar a luz solar via satélites e descongelar a cidade. Oi? Sim, isso acontece! É ridículo, não tem o menor sentido, nem vilões de James Bond planejariam algo tão estúpido (quer dizer…), sendo que… Ainda assim… Daremos crédito a inventividade do sem noção. Hoje em dia mocinho e vilão simplesmente trocam uns tapas em algum cenário cinza explodindo por todos os cantos. Nos anos 90, eles se enfrentavam em um observatório espacial enquanto derretiam uma cidade congelada!

O que é uma questão importante na hora de lembrar de “Batman & Robin”: por pior que seja, a direção de Joel Schumacher realmente estava tentando criar algo empolgante, divertido e colorido. Evidentemente exagerou demais, a ponto de virar auto-paródia sem querer! Mas a sua tentativa de entregar algo que fosse marcante foi tão esforçada que, mesmo dando fenomenalmente errado, marcou! Em relação a outro fiasco das adaptações DC Comics, como “Laterna Verde” de 2011, que também era completamente estúpido e não fazia o menor sentido… Você lembra de alguma cena dele? Diria que o histriônico vilão dele foi tão não intencionalmente hilário quanto o Sr. Frio do Schwarzenegger? Pois é.

Crédito deve ser dado onde crédito merece, principalmente em tempos onde tanto criticamos Hollywood por apelar para a mediocridade, onde cada vez mais estúdios arriscam menos, como a Marvel que atem-se demais a fórmula do seu sucesso. Joel Schumacher, no auge de seus exageros desmedidos, realmente fez um filme inesquecível. Horrendamente inesquecível. Quase traumático! Mas, 20 anos depois, ainda aparece nas listas de piores coisas já feitas. E se ele não conseguiu fazer o melhor filme de Batman possível, ao menos conseguiu fazer o melhor pior filme de Batman possível. E isso, meus amigos, é um marco e tanto.

E, em memória a atuação de Uma Thurman como Hera Venenosa (por pior que tenha sido, ao menos ela parecia estar se divertindo), deixo aqui a imagem promocional da vilã sensualizando com um gorila rosa (?!). E depois falam que os anos 90 foram convencionais…

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