Review: “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” de Jon Watts

Quinze anos após sua estreia no cinema, o Homem-Aranha recebe seu segundo reboot e terceira troca de ator. Isso parece muito, mas… O James Bond trocou de ator três vezes entre 1962 e 1973 e o Batman foi vivido por quatro atores diferentes em 16 anos. Será que é para estranhar tanto assim? Muita gente torce o nariz. Mas acredito que “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é uma boa tentativa de acertar o personagem sob outro prisma. E muito vai se creditar à participação da Marvel na produção (ao invés de ser apenas um selo, como nos filmes anteriores) e talvez haja mérito nisso. De qualquer forma, o aracnídeo está de volta e com cara nova. De novo. O mundo gira, pessoal!

Aprendendo com o maior erro de “O Espetacular Homem-Aranha“, “De Volta ao Lar” não conta a origem do herói. A essa altura todo mundo já sabe, então o roteiro resolve pular essa parte – apesar de fazer discretas menções a uma mordida de aranha e até a morte do tio Ben. Boa decisão, principalmente que esta interpretação do personagem já havia sido introduzida em “Capitão América: Guerra Civil” e a história parte exatamente a partir de lá. Não só a narrativa do ponto de vista de Peter Parker, após seu retorno do confronto em Berlim, como também co vilão Abutre, que tem sua origem atrelada aos Vingadores. Uma ideia interessante do roteiro para amarrar os dois personagens.

E, verdade seja dita, a história praticamente é só essa que é introduzida nos primeiros dez minutos de filme. Peter Parker quer ser um Vingador após sua experiência como os heróis e o Abutre quer vender armas após o ataque alienígena ocorrido em Nova York. A trama central gira em torno desses dois conflitos que às vezes se cruzam. Peter de vez em quando tá na escola, o Abutre de vez em quando aparece no seu caminho. E a narrativa vai seguindo nesse ritmo, até o confronto climático final. De uma certa forma é esquisito, pois o roteiro parece não ter uma trama central. Cenas vão se acumulando em uma construção toda muito fraca, quase aleatória. Entretanto, ao não ter um vilão com um plano maléfico ou querer provocar alguma coisa ruim diretamente – o Abutre quer apenas roubar coisas alienígenas – a estrutura formada se torna bastante casual. O que chegar a ser apropriado a um herói famoso por ser o amigo da vizinhança. O Abutre é só um bandido comum.

Nisso cria-se uma dicotomia interessante ao produto final. Ao mesmo tempo que “De Volta ao Lar” é tremendamente fiel ao espírito do personagem dos quadrinhos, acaba se tornando um filme menos interessante do que poderia ser. Como aventura do aracnídeo favorito, é provavelmente a melhor adaptação de Homem-Aranha que um fã pode querer! Mas como filme novo? A ameaça do Abutre é tão mundana que dá a impressão de estarmos assistindo a um episódio de seriado de televisão! E a direção de Jon Watts não diz nada a que veio. Ele faz algumas referências a filmes dos anos 80, mas isso aqui não se constrói como uma comédia adolescente, apesar da boa dose de humor. E as cenas de ação são bem fracas, sem colocar o herói para realmente testar seus limites. O forte do filme está no carisma do personagem (que já vem no pacote) e das boas atuações de seu elenco. Mas como obra cinematográfica, “De Volta ao Lar” parece que se contenta em ser apenas uma boa aventura do Homem-Aranha, sem necessariamente ter algo de novo a adicionar ao personagem. Talvez isso seja o suficiente, mas acredito que dá para ir além.

E eu tenho um certo apreço pelos filmes anteriores. Claro, não o “Homem-Aranha 3”, cruz credo, aquilo ali não tem defesa não… Mas os dois primeiros episódios dirigidos por Sam Raimi foram bons, são dois filmes bem feitos e divertidos. E até mesmo as duas tentativas de Marc Webb eu aceitei, apesar de muita gente ter torcido o nariz. Tá aí, a não ser que você faça uma aberração com o personagem (vide “Homem-Aranha 3”), a minha tendência como fã é simplesmente curtir. Portanto “De Volta ao Lar” não precisava se esforçar muito para me convencer e nesse aspecto conseguiu me deixar bastante entretido. Mas como cinéfilo eu gostaria de ter visto mais, como vi nas aventuras anteriores que tinham um escopo mais ambicioso. De qualquer forma, a estrutura está montada para uma sequência melhorada. Se quiserem trocar de diretor, ninguém vai reparar.

Falando sobre o elenco, o filme é protagonizado por Tom Holland como Peter Parker, após ter feito impressionante estreia em “Capitão América: Guerra Civil”. Lá ele já demonstrou ter capacidade para carregar o papel. Aqui ele exerce o protagonismo com tremenda facilidade. O garoto é de um carisma natural e eu acredito que o roteiro ajuda muito a estabelecer um herói bem simpático, mas o mérito principal é dele. E muito se comparou quem fez um melhor Homem-Aranha ou Peter Parker entre Tobey Maguire ou Andrew Garfield. Holland é o primeiro ator que acerta nos dois e isso é algo importantíssimo. O vilão Abutre é vivido por Michael Keaton, ironicamente o primeiro ator a interpretar o Batman conforme eu mencionei no primeiro parágrafo. Keaton está ótimo como ameaça interessante e também em humanizar as motivações de suas ações. Ao invés de apelar para uma vilania caricata que sofreram o Duende Verde e Doutor Octopus (apesar de terem funcionado dentro da estrutura de seus respectivos filmes) o seu Abutre realmente ganha destaque como uma pessoa comum que passa pelo caminho de Peter Parker.

O resto do elenco conta como Robert Downey Jr. como Tony Stark pela… Sei lá… Centésima vez? Sua participação é importante na trama e ele aparece à lá deus ex machina sempre que a história demanda uma mudança ao Homem-Aranha. Mas seu personagem não participa de enredo algum. Ou seja, cameo de conveniência. Marisa Tomei é uma Tia May bastante jovial e moderninha, mas que não tem nada para fazer no filme em si. Nem mesmo como apoio moral a Parker, algo que as duas últimas interpretações da personagem fizeram muito bem anteriormente. Esta responsabilidade acaba ficando como Stark, o que é uma pena. E de resto temos os jovens Jacob Batalon (ótimo), Zendaya (tem potencial) e Laura Harrier com o resto da turma de Peter.

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