Review: “Dunkirk” de Christopher Nolan

Não é a primeira vez que o cinema explora a evacuação de Dunquerque – que em francês se chama Dunkerque, mas aqui no Brasil o nome do filme pegou ao título inglês da cidade francesa que tem tradução em português. Oi? De qualquer forma, “Dunkirk” é inspirado na Operação Dínamo, que culminou em uma grandiosa reviravolta em favor dos Aliados na 2ª Guerra Mundial: dizem por aí que se aqueles soldados todos tivessem sido capturados, Hitler poderia ter vencido o conflito. Winston Churchill deu um famoso pronunciamento que inspirou os britânicos e ajudou a criar a imagem de herói ao então Primeiro Ministro do Reino Unido. Ou seja, foi um evento histórico daqueles que de vez em quando recebe uma adaptação cinematográfica como basicamente tudo que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial – convenhamos, foi um período rico em histórias.

Mas “Dunkirk” foge bastante desse padrão de “filmes inspirados em fatos reais”. Na verdade, mal parece ser um filme sobre a evacuação de Dunquerque. A história começa com o jovem Tommy chegando no porto da cidade junto com outros soldados e tentando embarcar em um destróier que está lotado de sobreviventes – existem outros 300.000 homens querendo sair de lá, mas a praia não ajuda no resgate. Do outro lado do Canal, um pai com dois jovens pega um barco para atender a um chamado do governo em ajudar na evacuação. E no ar acompanhamos um piloto que está indo à costa ajudar na operação. São três histórias paralelas, narradas em tempos diferentes (calma) sobre pessoas atuando num evento particular. O evento em si – os bastidores do governo, o exército inimigo, tudo que seria pertinente ao contexto histórico – não ganha o menor destaque. A história é sobre pessoas em uma situação bastante ruim.

Tommy, evidentemente, é o nosso herói e o ponto focal da história si – a narrativa começa e termina com ele. O pai no barco e o piloto no ar acabam sendo coadjuvantes em sua luta pela sobrevivência. E o enredo bastante simples, com boas reviravoltas e surpresas, mas que segue uma certa linearidade (calma), é mais centrado nos perigos que Tommy passa. Não é necessariamente um conto sobre heroísmo, apesar de culminar um pouco nesse sentimento no final, mas sim uma grande jornada de sobrevivência. Pense que “Dunkirk” é um filme de ação que já começa no clímax e, por acaso, se passa na 2ª Guerra Mundial. A história não introduz os personagens, seus dilemas, suas razões, o protagonista sequer tem arco narrativo. São apenas pessoas naquele momento. E Tommy quer voltar para casa, por que… Né… A situação é bastante ruim.

Essa cena não está no filme, mas a fotografia de Hoyte van Hoytema é belíssima.

Entra também a questão da linearidade (agora vai). Não é novidade em um filme de Christopher Nolan uma narrativa não linear, considerando que ele fez sucesso com “Amnésia” lá em 2001 contando a história ao contrário. E todos seus outros filmes brincaram um pouco com isso. Entretanto, “Dunkirk” é o primeiro que não é linear sendo linear. As três histórias passam em momentos diferentes, entretanto seguem no mesmo ritmo. Elas se encontram no final de maneira bastante simples e natural, já que o diretor coloca inúmeras referências (um barco, um bombardeio, um personagem) que servem de pontos para o espectador amarrar tudo. É bastante engenhoso e, talvez, um pouco desnecessariamente complicado. Mas funciona. Se as três histórias apenas se encontrassem no final, sem terem sido diluídas ao longo da narrativa, iria parecer abrupto ou forçado. Da forma que ficou, funciona.

Portanto coloquem “Dunkirk” na lista de outro acerto de Christopher Nolan na direção. Alguns reclamam de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” ou “Interestelar“, mas ninguém em são consciência diz que são filmes ruins, tá ok? Nolan é um diretor frequentemente competente e, aparentemente, o último grande diretor de blockbusters da atualidade. Steven Spielberg parece estar mais focado em produções menores, Ridley Scott vem escorregando muito e James Cameron só está fazendo um Avatar por década. Já J. J. Abrams ainda tem que comer muito arroz com feijão… Ou seja, Nolan parece ser o único desse estilo tradicional que trás uma marca à produção e que continua arriscando em filmes espetaculares que capricham no visual. Por falar nisso, algumas tomadas são de tirar o fôlego – me parece ser exatamente o propósito da direção, já que “Dunkirk” é uma história bastante tensa. A edição é caprichada também, gostei particularmente do enquadramento final. Diz muito sobre o espírito do filme.

Foto do porto de Dunquerque durante a Operação Dínamo.

Nosso herói Tommy é vivido por Fionn Whitehead, praticamente um estreante na atuação. E está bastante bem, sem dúvida tem força para carregar a história central, o que não é fácil. Mark Rylance é o pai no barco, uma atuação simples, mas eficaz. Tom Hardy é o piloto (todas as suas cenas são closes com a cara tapada, então ele meio que atua no filme) e Cillian Murphy é um solado resgatado. Kenneth Branagh carrega o delicado momento mais comovente como um Comandante da Marinha e James D’Arcy é um Coronel do Exército que ajuda ele. Tom Glyn-Carney, Barry Keoghan, Jack Lowden e Harry Styles tem papeis menores, mas que conseguem encantar quando a história demanda.

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