Review: “Planeta dos Macacos: A Guerra” de Matt Reeves

Eis que o prelúdio que ninguém pediu gerou uma trilogia que ninguém imaginava. Após o surpreendente sucesso de “Planeta dos Macacos: A Origem” em 2011 e uma sequência melhorada em “Planeta dos Macacos: O Confronto” de 2014,  a conclusão chega para encerrar a jornada de como os macacos dominaram o planeta dos humanos. Curioso imaginar que, em uma franquia surgida lá em 1968 e que recebeu um monte de sequências inferiores nos anos 70 e um remake mal idealizado em 2001,  tenha encontrado uma forma de ressuscitar com qualidade e contemporaneidade após tanto tempo. Essa nova trilogia são os primeiros filmes da saga a fazer jus a fama do clássico sci-fi após quase cinquenta anos!

“Planeta dos Macacos: A Guerra” começa mais ou menos de onde “O Confronto” parou, com César ainda liderando seu grupo de macacos em uma floresta enquanto um exército de humanos responde a um chamado para tentar derrotá-los. César está de boa na sua, sem se meter com ninguém, mas o Coronel quer exterminar todos os macacos pois eles são a causa da queda da humanidade. É uma questão de “antes eles do que nós”, apesar do líder humano não entender algo que o líder macaco já entende muito bem: uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, como se sabe, humanos não são muito bons em dividir território. Nem mesmo um planeta inteiro.

Como no episódio anterior, a história é plenamente narrada do ponto de vista dos macacos. Mas se “O Confronto” tinha humanos solidários e até o vilão principal era humanizado, aqui a coisa é diferente. Os humanos são os vilões absolutos e – fora pelo papel de uma pequena menina muda – não demonstram nenhuma humanidade. Isso não significa que eles sejam malvadões caricatos, mas representam uma espécie em extinção e o Coronel é a versão definitiva do que há de pior em nós. Vingativo, justiceiro, indiferente. A série Planeta dos Macacos sempre foi uma analogia para certos dilemas sociais, mas aqui é a primeira vez que o prisma foca-se plenamente nos macacos como as figuras que representam o elo humano da história. Nem o clássico original era tão direto nisso.

Importante lembrar que o ano de 1968 foi um dos mais conturbados da história contemporânea. Aqui no Brasil foi o auge da ditadura militar, com o aumento da repressão política, perseguição a artistas e, finalmente, a criação do AI-5. Na França teve a Revolução de Maio de 68 que inspirou outras greves sindicais ao redor do planeta. Nos EUA teve o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy além da escalada principal da Guerra do Vietnã. Ou seja, o mundo estava em chamas – e muitas delas geradas por conflitos sociais e ideológicos. Portanto um filme que abordava a opressão de um grupo (os macacos) sobre uma minoria (os humanos) não só apresentava uma inversão da nossa realidade como refletia muitos dos conflitos que se passavam no mundo real. Mas muita coisa mudou de lá para cá. Sim, ainda existem grupos minoritários sendo oprimidos, mas onde antes havia uma distinção política (um “esquerda vs direita”), hoje o debate é quase espiritual – está mais para um “empatia vs apatia”. Os macacos sentem misericórdia pela dor humana. Os humanos querem apenas eliminar os inimigos.

Isso tudo dá ao filme um ar de “épico bíblico”, tipo aqueles que o Charlton Heston adorava participar nos anos 1950 antes de visitar macacos no futuro. E o diretor Matt Reeves (o mesmo de “O Confronto”) sabe muito bem disso, pois filma inúmeras cenas com esse ar de “comoção espiritual e moral” que funcionam muito bem com o tema da história. Repare na cena final, se não é algo tirado direto de “Os Dez Mandamentos” do Cecil B. DeMille? Algumas cenas também tem um quê de western, principalmente as cenas de ação e as longas caminhadas. O “cavaleiro solitário” cavalgando pelos ermos nevados! A excelente trilha sonora de Michael Giacchino (que também fez “O Confronto”) ajuda. De qualquer forma, é clara a visão em criar algo mais antigo, de valores humanos mais essenciais – apesar de passar uma sensação agridoce já que confronta aquilo que faz de nós uma espécie tão ruim, quando nos esforçamos em esquecer o que nos faz humanos. E não, não é a habilidade de pensar e falar. Mas a compaixão.

Andy Serkis interpreta novamente o macaco César. E o que pode-se dizer se sua atuação que já não tenha sido dita antes? Seja nesta trilogia ou como o Gollum de O Senhor dos Anéis, Serkis é mestre na arte de atuar via motion capture e a tecnologia, a cada ano que passa, só o ajuda a ficar melhor. Algumas cenas mais emotivas são fantásticas e você simplesmente esquece que aquilo ali tudo é ampliado por efeitos visuais. Woody Harrelson é o Coronel, um bom papel de vilão bem ruim, mas que não chega a ser caricato – e poderia ter escorregado para esse lado, pois Harrelson faz caricaturas com facilidade. Méritos dele e também do roteiro que lhe foi dado. Karin Konoval também merece incríveis elogios pelo orangotango Maurice. Steve Zahn é o alívio cômico e suas expressões faciais são de uma delicadeza incrível! Amiah Miller também está muito bem como a jovem menina humana resgatada por César. De uma forma geral, um elenco incrível – e a maioria deles interpretando macacos, veja só!

Olhos expressivos.

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