Review: “First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers” de Angelina Jolie

O movimento Khmer Vermelho (ou Angkar) foi um partido comunista do Camboja que assumiu o poder do país nos anos 70, após uma ditadura militar pouco e inflamado pelo sentimento anti-imperialista após ataques que os Estados Unidos realizavam no país “aproveitando” que já estava bombardeando seu vizinho, o Vietnã. O que são mais algumas criancinhas mortas, não é mesmo gringo? Nesse recorrente conflito da época entre capitalismo vs comunismo, quem sempre se ferra é a população, já que nenhum dos defensores desses modelos políticos parecem lá muito interessados em melhorar a vida de ninguém fora do topo do poder. “Olha como o outro lado é ruim” é o máximo da discussão em movimentos totalitários.

“First They Killed My Father” é adaptação de uma biografia da autora Loung Ung (que também assina o roteiro) sobre o ponto de vista dela no meio dessa situação como criança. O Khmer Vermelho notoriamente focou na doutrinação juvenil para tentar crescer sua influência política. Evidentemente que elas não tem compreensão de muito do que acontece, portanto o filme assume uma narrativa mais inocente sobre os horrores da escalada bélica, sem necessariamente explicar o que está acontecendo. Ung vira uma refugiada com sua família, depois vai pulando de fazenda de trabalho escravo para campo de treinamento militar, por assim vai até o Camboja ser invadido pelo Vietnã alguns anos depois.

A direção é de Angelina Jolie, que já havia tratado conflitos militares em seu primeiro filme (“Na Terra de Amor e Ódio“, sobre a Guerra da Bósnia) e evidentemente fala sob experiência como Embaixadora do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Histórias desse estilo devem fazer parte natural do trabalho e, neste caso específico, ela emprega um interessante ponto de vista focado em Ung. Não só através de ângulos mais baixos em alguns enquadramentos, como também em cenas em que os adultos olham diretamente para a câmera ou momentos mais sutis, dela reparando em detalhes específicos do cenário ou objetos. Ung vai descobrindo os eventos pela sua visão infantil e o filme acompanha isso o tempo inteiro. Também tem poucos diálogos (a produção é totalmente falada em khmer) que por vezes dão um ar de cinema mudo nos momentos mais íntimos. Reparem na bela cena em que os pais de Ung “se comunicam” sobre a morte de uma das filhas ou quando a pequena protagonista “dialoga” com um dos soldados capturados do Khmer Vermelho.

Uma questão importante do filme é que, apesar do contexto histórico, a narrativa não está preocupada com ideologias econômicas.  A história começa com um discurso de Nixon ao som de “Sympathy for the Devil” (o que é algo sempre lindo de se ver) e deixa claro que, apesar das fotos penduradas nas cabanas, o Khmer Vermelho não está lá muito preocupado em ensinar teorias marxistas para as criancinhas. O vilão do filme é a violência. A mensagem é antibélica. Sempre sobre esse pretexto de “trazer democracia e paz”, os EUA intervêm na política de outros países e cria ainda mais problemas quando surge um movimento sobre o pretexto de “impedir o avanço imperialista consumista do ocidente”. Nessa eterna briga entre lados teóricos, pessoas morrem por bombas atiradas de todas as direções. “First They Killed My Father” é um relato em primeira pessoa de alguém que esteve presente em uma dessas situações.

O filme é protagonizado pela estreante Sareum Srey Moch, que começa mal, mas cresce bastante como atriz ao longo do filme. Terá sido a produção filmada em ordem cronológica? Do resto do elenco, gostei bastante da mãe Sveng Socheata. A produção também conta com uma belíssima fotografia de Anthony Dod Mantle, que me chamou bastante atenção nas cenas noturnas. O enquadramento das explosões refletidas nos olhos de Ung é muito bem feito! Fora isso, “First They Killed My Father” é um competente, entretanto lento e sóbrio relato sobre um evento pouquíssimo estudado pelo cinema ocidental. Uma boa oportunidade de aprendizado, ao menos.

Foto de crianças vítimas de escravização pelo Khmer Vermelho.

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