Review: “Grave” de Julia Ducournau

Tenho percebido uma recente onda do cinema de terror em usar os artifícios do gênero para fazer simbolismos. O trabalho de bons artistas está criando algumas obras que transcendem o conceito de “filme para dar medo” ou mesmo aquele moda slasher de tempos passados, onde o que importava era apenas a matança. “Grave” (título francês que foi lançado internacionalmente como “Raw”) não tem sustos ou suspense, ou mesmo vilão perseguindo mocinha em corredor escuro. Entretanto, não tenha a menor dúvida que é uma história que irá lhe deixar aterrorizado.

Justine é uma jovem que acaba de passar para uma universidade de veterinária onde a irmã já estuda e os pais estudaram em sua época. Ela e toda sua família são vegetarianos. No processo de um tradicional trote da instituição, ela é instruída a comer um fígado de coelho cru após ser banhada em sangue. A experiência acorda nela uma incontrolável fome por carne. A ideia é simples e a história em si não tem muitas reviravoltas, mas passa por alguns momentos tremendamente grotescos e violentos. Ao mesmo tempo que tem seus momentos de sensualidade e sexualidade, apesar de tudo ter uma inerente violência impulsiva. Impulso é a palavra chave da narrativa.

A partir daí acho que dá para entender onde “Grave” quer chegar sem levantar spoilers. Justine passará por descobertas da sexualidade e experimentação com drogas, tudo algo muito comum nesse período de transição à maturidade que geralmente ocorre durante os estudos universitários. Apesar de que aqui entra um pouco de canibalismo para apimentar a dose, claro. E talvez algumas pessoas um pouco mais sensíveis possam acusar a diretora e roteirista Julia Ducournau de estar fazendo “apologia ao canibalismo” pela forma como ela filma e narra a busca de Justine pelos prazeres da carne. Mas o filme está muito mais interessado nisso: na busca da protagonista pelos seus desejos. Alimentares? Sexuais? Drogas? Identidade? Os simbolismos são inúmeros e cabe ao espectador interpretar a sua forma. A direção acredita na capacidade do do público de ver beleza nos horrores que a personagem descobre e isso tudo faz parte da experimentação com o cinema de terror.

O filme também aborda alguns temas como sororidade e até feminismo, algo bastante óbvio considerando que toda a história é sobre irmãs. Considero também destaque para uma cena em que Justine passa por abstinência e o momento é filmado como se ela estivesse dentro de um útero. Além dos simbolismos sobre autodescoberta, “Grave” quer tratar isso tudo sob o prisma feminino. Geralmente no cinema de terror mulheres são vítimas sendo perseguidas por um homem malvado que elas devem derrotar. Aqui elas estão em primeiro plano narrativo, indo atrás de seus desejos e impulsos. O filme mostrar isso tudo a partir de uma analogia com canibalismo é arriscado e tremendamente corajoso.

Justine é brilhantemente interpretada por Garance Marillier, que lhe dá vida de corpo e alma. Seu jeito infantil e ingênuo no início do filme vai progredindo lentamente em uma mulher voraz, cheia de apetite por tudo – até um pouco de frango cru. É uma entrega fascinante que demonstra tremenda maturidade da atriz e, claro, transfere tal maturidade para o arco da personagem. Sua irmã é interpretada por Ella Rumpf, que varia um pouco entre o papel de mestre e antagonista. Rabah Nait Oufella é o colega de quarto de Justine que desperta nela alguns desejos bastante carnais.

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