Review: “mãe!” de Darren Aronofsky

Com risco de começar a me repetir por aqui, que bom que o cinema de horror abraçou o simbolismo, hein? “Mãe!” não é terror naquele sentido direto do gênero, de provocar medo ou suspense, mas usa muitas das técnicas e estilo para criar um clima psicológico de caos que é apropriado à história. Por trás de alguns cortes rápidos seguidos de longas sequências de silêncio, está uma narrativa sobre simbolismos. Bastante diretos e óbvios, que começam já na primeira cena: a criação da mãe.

Sim, a história começa já com a protagonista “surgindo das cinzas” de uma cama. Pesadelo? Alucinação? Não, é a direção deixando bem claro que a narrativa não é para ser levada ao pé da letra. A partir daí conhecemos uma mulher casada com um poeta que tem tido dificuldades em produzir novo material. De repente aparece um estranho na casa deles, o que quebra com a rotina do casal. Outros personagens surgem, algumas coisas acontecem, nada tem muito sentido, mas a mensagem já começa a transparecer.

Como dito lá no início (do filme mesmo), o homem é um criador. Seria apenas de poesias? Mas ele está obcecado por criar novamente. Sua mulher fica frustrada, será que ela não é o suficiente? Ele quer mais e novos personagens vão aparecendo. “Mãe!” é sobre essa relação entre criador e criatura, essa obsessão por fazer mais, criar mais. E as consequências disso, da musa que é deixada para trás e dos seguidores da obra que a deturpam em seu favor. As pessoas surgem meio que do nada, como se fossem criadas. E reagem ao absurdo com naturalidade, como se já estivessem dentro da cabeça de alguém.

A partir do segundo ato “mãe!” vai direto nos simbolismos religiosos, sem a menor sutileza. Mesmo. Nenhuma! Não dá nem para considerar spoiler, de tão óbvio logo que se forma. E a mensagem se torna mais interessante. Essa relação, entre criador e criatura, entre obra e público, o que ela fala sobre as instituições religiosas? Afinal, muitas religiões utilizam de textos sagrados como referência ideológica. E… Texto é literatura… Que é… Arte! Lá para o final que o filme deixa bem claro suas referências bíblicas, no meio de um festival de absurdos que se torna o clímax. Ainda assim, está aberto o caminho para a discussão: onde nasce a identidade da arte – a inspiração, a musa, a criação original – e como torna-se religião – deturpada, vendida, reproduzida para uma alimentação de massas. Como uma história de amor começa a produzir ódio?

O diretor e roteirista Darren Aronofsky já havia experimentado com terror psicológico em “Cisne Negro” e com surrealismo bíblico em “Noé”. Aqui ele resolveu misturar os dois e o resultado não irá descer muito bem para a maioria – talvez sequer seja compreendido. Quer dizer, os simbolismos religiosos são tão óbvios que alguns possam simplesmente ver a história como “parábola bíblica”. Já a relação entre criação e arte pode passar batida para quem estiver ocupado demais tentando identificar Adão e Eva na história. E Aronofsky merece muitos aplausos por ter arriscado algo tão inusitado e diferente, mesmo que o resultado final em si tenha sérios problemas de ritmo. Ainda assim, é um filme que irá ficar na sua cabeça e que merece uma discussão.

A mãe é interpretada por Jennifer Lawrence, com força a fúria que a atriz sabe mostrar quando precisa. Ela é o foco absoluto da história, a câmera quase não larga dela – nem mesmo no clímax, que lança um absurdo após o outro em uma sequência contínua, sempre do ponto de vista dela. Javier Bardem é seu marido, o criador, o artista, o poeta. Sua atuação é discreta. Algumas participações importantes ficam com Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson e Kristen Wiig. Mas o filme foi feito para ser carregado por Lawrence e ela se sai muito bem.

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