Review: “Liga da Justiça” de Zack Snyder

E eis que, finalmente, após cinco anos de atraso em relação a Marvel que sucederam um filme cancelado do George Miller, a Liga da Justiça chega aos cinemas. E onde antes deveria ser um dos eventos mais hypeados desde, convenhamos, “Os Vingadores”, a realidade é mais cruel. “Liga da Justiça” chega marcado pela má reputação de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça“, seu antecessor cronológico e fiasco crítico que rendeu memes e promete gerar uma eternidade de ensaios analisando por que ele não deu certo na internet. Cabe, portanto, a Liga da Justiça fazer mais do que apenas reunir os amigos em uma aventura para derrotar um vilão: eles precisam convencer o público a esquecer do filme anterior.

(Deixo aqui um spoiler alert para quem não quer saber o que acontece com o Superman no filme. Mas o Henry Cavill é o segundo nome nos créditos. Tire suas conclusões.)

“Liga da Justiça” começa de onde “Batman vs Superman” parou: Superman se sacrificou para derrotar o vilão da semana passada e o Batman, que minutos antes tava querendo matá-lo, agora quer homenageá-lo. Para isso ele se junta a Mulher Maravilha para encontrar os outros metahumanos que ele viu no trailer, quer dizer, nos vídeos secretos de Lex Luthor para formar uma equipe de heróis para enfrentar o vilão da semana que vem. E não é que ele aparece? É o Lobo de Estepe, um alienígena malvado que quer unir as Caixas Maternas para conquistar o mundo!! Sim, ele é vilão daqueles de desenho animado. E o plano dele é basicamente o mesmo do General Zod de “O Homem de Aço”. Só que sem uma explicação para suas intenções. Zod queria reconstruir o planeta destruído para o qual ele foi condicionado a defender. O Lobo aê quer destruir nosso planeta por que sim.

(imagem meramente ilustrativa)

Com esse enredo fraco e sem substância, “Liga da Justiça” deixa claro suas intenções: não tentar. Após tantas negativas que “Batman vs Superman” recebeu, parece que o estúdio ficou com medo. E sem dúvida aprendeu com alguns erros. Este filme tem leveza, algumas boas piadas, bons momentos de ação e uma trama com ritmo ágil. Entretanto, é visível que “Liga da Justiça” não foi feito para ser isso. O humor é forçado, algumas piadas parecem saídas de “A Praça é Nossa” e os momentos da história simplesmente são colagens que vão acontecendo sem espaço para os personagens serem desenvolvidos. Novamente: com um vilão cujo plano é apenas ser malvadão, o que tem para a Liga fazer mesmo a não ser enfrentá-lo? Não existe drama, dilema ou arco narrativo. A única situação que renderia alguma carga de discussão, a ressurreição do Superman – que inclusive rende um momento bizarramente antiético em que os heróis desenterram seu cadáver!! – não cria nada. Ele volta, bate uns papos com a Lois Lane e segue para a luta. E faz uma piada sobre morrer. Entendeu? Por que ele ressuscitou! Morrer é engraçado! Né?! Hmm…

“Liga da Justiça” é dirigido por Zack Snyder, cuja carreira constitui uns 90% de adaptações de quadrinhos no cinema. Mas aqui o que importa é que ele também dirigiu “O Homem de Aço” e “Batman vs Superman”, portanto este filme encerra sua trilogia Superman sem sentido. Digo isso por que de forma alguma “Liga da Justiça” parece o episódio climático das aventuras iniciadas lá em 2013 com a estreia de Henry Cavill como um alienígena refugiado tentando encontrar seu lugar no planeta que o recebeu. Na verdade, sequer parece uma sequência de “Batman vs Superman”! O filme tenta tanto não ser seu antecessor que sequer parecem fazer parte da mesma continuidade, fora o detalhe da ressurreição do Superman exigir que ele esteja morto para isso acontecer – e a morte dele aconteceu no filme anterior, logicamente. Fora isso, “Liga da Justiça” sumariamente ignora “Batman vs Superman” ou o conflito emocional de seus personagens.

Importante notar que Snyder teve que abandonar o filme na pós-produção por motivos pessoais e foi substituído por Joss Whedon, de “Os Vingadores”, que refilmou algumas cenas para amarrar alguns buracos. Muito vão querer falar se o resultado é mais Whedon do que Snyder e de fato existem momentos claros de regravações. A fotografia, agora mais colorida, não parece ter sido uma intenção inicial das filmagens realizadas por Snyder – repare como o cabelo da Lois Lane está ruivo demais; o diretor provavelmente planejava aplicar um filtro que criasse um visual mais sombrio. De qualquer forma, nenhum dos dois merece muitas críticas pelo trabalho feito. A direção é competente. O problema do resultado final parece ser uma tentativa do estúdio em evitar um fiasco e tirando de “Liga da Justiça” qualquer chance de ter alma.

O elenco é encabeçado por Ben Affleck, voltando como Batman e já no modo automático em sua segunda tentativa. Não dá para reclamar muito do ator, suas cenas não tem nenhuma personalidade. Gal Gadot volta como Mulher Maravilha após o sucesso “Mulher Maravilha” e meio que carrega o filme para si. Todos os momentos legais dela são realmente legais. Mas ela tem uns diálogos sofríveis para trocar com Affleck, coitados… Henry Cavill também volta (spoiler alert?) como Superman, agora com autorização para sorrir. Não é que funciona? Amy Adams e Diane Lane batem ponto como Lois Lane e Martha Kent. Jeremy Irons também volta como um Alfred razoável.

As novidades heroicas que tentarão emplacar filmes no futuro começam com Jason Momoa (“Game of Thrones”) como Aquaman. O ator até que é simpático, mas seu personagem é antipático demais para deixar uma boa impressão. Ezra Miller (“Precisamos Falar Sobre Kevin”) é o Flash em modo millenial piadista. Ele também é um ator simpático e seu Barry Allen carrega os momentos de bom humor com certa dignidade, mas a metralhadora de piadas passa a cansar depois de um tempo. E Ray Fisher (ator originário do teatro) não tem nada para fazer como Ciborgue então não faz. De longe o herói mais desinteressante da história. J.K. Simmons é introduzido como Comissário Gordon e Ciarán Hinds dubla o vilão feito de efeitos especiais Lobo de Estepe.

Para quem odiou “Batman vs Superman”, acho que “Liga da Justiça” poderá agradar. É um filme que se esforça em ser medíocre e sucede, sem muita competência ou alma, mas com entretenimento o suficiente para valer umas mastigadas de pipoca. Entretanto, pondero como ficarão os futuros órfãos de “Batman vs Superman”. Zack Snyder os abandonou! Seu Superman não reclama mais da vida. Seu Batman não é mais violento. E também não pergunta ao Flash “ei, eu já te vi num sonho!” nem nada. Nenhum dos temas introduzidos no filme anterior são novamente citados. “Liga da Justiça” falta implorar para o público esquecer de onde veio. Ironicamente, seu maior trunfo é ser esquecível.

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