Review: “Blade Runner 2049” de Denis Villeneuve

Clássico cult dos anos 80 que praticamente fundou o gênero sci-fi noir, ou tech noir, ou cyberpunk, “Blade Runner: O Caçador de Androides” é louvado por alguns, mas curtido por poucos. Não fez sucesso à época de seu lançamento, recebeu umas trocentas versões diferentes do diretor Ridley Scott em desde então, mas – conforme sua influência visual foi crescendo nas décadas seguintes – se tornou uma das produções mais referenciadas no audiovisual. De “Matrix” a “Minority Report”, de “Akira” a “Ghost in the Shell”, de “Shadowrun” a “Deus Ex”. São tantas obras que se inspiraram que muita gente deve seu filme, anime ou videogame favorito à existência de “Blade Runner”. Mas talvez nem goste tanto do filme assim.

Eis que, 35 anos depois, surge uma sequência que ninguém pediu. Nem os fãs, muito menos as pessoas que só ouviram falar.

“Blade Runner 2049” começa com o blade runner (sim, um caçador de androides, na verdade chamado de replicantes neste universo) K indo atrás de seu próximo alvo em uma locação remota. Ao lidar com seu objetivo, descobre uma caixa com os restos mortais de um ser humano. Irei poupar spoilers, pois a ossada guarda uma revelação importante que fará K investigar de onde ela veio. Se você nunca viu o primeiro “Blade Runner”, não precisa se preocupar tanto, pois esta sequência não segue aquela história. Se passa na mesma cronolgia e tem ao menos um personagem em comum – no caso o detetive Deckard, protagonista do original, que aparece aqui só lá para o final do segundo ato. Mas a narrativa aqui foca somente no que acontece aqui, o que é uma decisão inteligente do roteiro.

Fãs do primeiro filme, entretanto, poderão aproveitar mais. Não só pelo retorno de Deckard e de uma certa continuidade do seu arco, mas também por menções a personagens que não retornam como Rachael e Tyrell. A história aborda alguns temas em comum, mas eu diria que a jornada é outra. O arco de K é muito mais pessoal que o de Deckard e mais apto a questionar “o que nos faz humanos” que o filme original. Entendo o objetivo do que o primeiro “Blade Runner” estava tentando fazer, ao menos em sua versão lançada originalmente (estou ignorando as inúmeras “versão do diretor”), mas o personagem que realmente existia para discutir humanidade era o vilão Roy. Já “Blade Runner 2049” foca no arco de K e é muito mais feliz na execução de seus temas.

O filme também é bastante fiel ao estilo do original. Nem tanto visualmente, o que seria de se esperar. Mas o diretor Denis Villeneuve (de “A Chegada”) usou muito mais cenas diurnas do que noturnas, algo que dá a seu filme um visual bem distinto – apesar de incrivelmente similar ao estabelecido no anterior. Méritos também da sempre competente fotografia de Roger Deakins, famoso por trabalhar com os Irmãos Cohen e que fez sucesso em blockbusters como “007 – Operação Skyfall”. Entretanto, o que “2049” mais se assemelha a “Blade Runner” é na atmosfera e no ritmo. Pois muita gente respeita o original por suas influências, mas convenhamos que a maioria tem uma tendência a achar ele… Chato demais. E este novo filme é igualmente lento, entretanto eu diria menos chato, pois a história é mais interessante. De qualquer forma, não irá criar novos fãs e talvez esteja destinado ao mesmo futuro do clássico a qual sucede: se tornar mais cultuado do que querido. Quem gostou do original se sentirá em casa, sem dúvida.

Um destaque importante na direção do filme, em relação a tremenda responsabilidade de dar sequência a uma produção memorável em sua identidade audiovisual, é que “Blade Runner 2049” é um grande sucesso nisso. Além da ajuda da já elogiada fotografia, Villeneuve buscou manter-se fiel ao criado antes, ao invés de simplesmente ater-se as modas do momento. A trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch mantêm o jeitão da icônica música de Vangelis. E a direção de arte foi muito feliz na criação dos cenários. Fiquei com a impressão que utilizaram muita maquete nas tomadas de distância, mas não tenho certeza, entretanto ficou evidente que o visual não é aquela overdose de efeitos especiais tão comum nos blockbusters que tentam criar majestosas vistas inspiradas em O Senhor dos Anéis (que também usou muita maquiagem e os filmes que se inspiram nele costumeiramente ignoram esse detalhe).

O elenco é encabeçado por Ryan Gosling, de “La La Land”, ator de ótimo talento que não é particularmente expressivo. Gosling se sai melhor em cenas de emoções conturbadas ou reprimidas, o que funciona muito bem para K. Harrison Ford volta como Deckard e, surpreendentemente, tem bastante para fazer com o papel! Ford é mais notório por carisma do que por talento, mas realmente se esforça aqui. Sylvia Hoeks é a vilã Luv e Ana de Armas a inteligência artificial Joi. É, o texto não foi muito discreto nos nomes das personagens femininas mesmo não… Jared Leto é um vilão sem graça que sequer interage com o herói. Robin Wright, Dave Bautista, Mackenzie Davis e Edward James Olmos completam o elenco.

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