Review: “Assassinato no Expresso Oriente” de Kenneth Branagh

Nova adaptação do clássico literário de Agatha Christie publicado em 1934, cuja última versão cinematográfica foi lançada em 1974, “Assassinato no Expresso Oriente” não tenta reinventar a roda. É um thriller de mistério inspirado num dos mais famosos romances modernos, cuja solução mirabolante é conhecida por boa parte do público que irá aos cinemas para revisitar a história após descobrir o livro em sebos de todo o mundo ao longo dos últimos 80 anos. Basicamente: ninguém irá se surpreender com este filme, portanto ele evita inventar muito.

O famoso detetive Hercule Poirot está em Jerusalém, em algum momento dos anos 1930, para resolver um mistério – encare esse enredo inicial como uma daquelas cenas pré-crédito dos filmes James Bond. Depois é chamado para resolver um caso misterioso de volta a Londres quando esbarra em Bouc (uma versão mais jovem do personagem do livro), herdeiro da linha Expresso Oriente que o coloca para embarcar no trem lotado. Lá, Poirot é abordado por Ratchett (em outra versão mais jovem do personagem do livro) que recebe ameaças de morte e quer a ajuda do detetive, que recusa. Não surpreendente, o homem é assassinado e Bouc implora para Poirot resolver o crime enquanto o trem está descarrilado no meio de uma montanha.

A estrutura narrativa segue a base central de toda a trama do livro original. Alguns personagens mudaram certas características – a maioria deles são mais jovens, outros tiveram suas nacionalidades e etnias alteradas para se adequar aos atores escolhidos. Nada altera a essência deles, claro; afinal o fato de uma mulher que tem um total de duas cenas de diálogo ser espanhola ao invés de sueca não muda o seu inexistente arco narrativo. O foco da história é a história, no caso a resolução do mistério e em como ele interfere nas decisões do próprio protagonista. Afinal são inúmeros suspeitos e o roteiro, espertamente, foca no arco de Poirot. Isso se evidencia em um clímax um pouco mais dramático que no livro original, mas que funciona e dá ao personagem do detetive uma personalidade um pouco mais moderna.

O filme é dirigido por Kenneth Branagh, que também protagoniza o filme como Poirot. Sua versão do personagem é um pouco mais excêntrica, com pequenos momentos de Inspetor Clouseau, mas dá certo. Sua direção não inventa nada de original, mas tem seus momentos criativos. Algumas das tomadas internas do trem são tracking shots muito bem feitos que acompanham os movimentos dos personagens, dando um pouco mais de agilidade para uma história que fica presa a um único cenário claustrofóbico. Visualmente falando ele não inova, mas também não se atém ao trabalho mais fácil. As cenas de interrogatório são bons exemplos, sempre localizadas em ambientes diferentes, mesmo que por vezes absurdos – quem diabos interroga uma suspeita na porta de um vagão de carga aberto à beira de um precipício??? Tudo em nome da estética, claro.

Um detalhe interessante ocorre no confronto final entre Poirot e seus suspeitos, na famosa cena do livro em que ele revela o assassino e a razão do crime. Por motivo narrativo absolutamente nenhum, os personagens sentam em uma longa mesa montada em um túnel, com o enquadramento emulando “A Última Ceia” de Leonardo DaVinci. São doze suspeitos do crime – os doze apóstolos reunidos? Ok, esteticamente fica legal, mas é tão forçado que chega a ser esquisito.

Quem nunca prestou interrogatório tomando chá na neve, não é mesmo?

O elenco é longo demais, então me permita simplesmente listá-lo: além de Branagh, temos Daisy Ridley (“Star Wars: O Despertar da Força”), Leslie Odom Jr. (“Esquadrão Red Tails”), Tom Bateman (“Jekyll & Hyde”), Manuel Garcia Rulfo (“Sete Homens e um Destino”), Josh Gad (“Frozen”), Lucy Boynton (“Sing Street”), Olivia Colman (“Broadchurch”), mais Penélope Cruz, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Willem Dafoe e Johnny Depp. Ufa! Evidentemente com tantos suspeitos que tem tramas resumidas a alguns diálogos com Poirot, a maioria tem pouco para fazer. Quem mais se esforça são Pfeiffer e especialmente Boynton, que tem a personagem com emoções mais desenvolvidas, apesar de só ter mesmo uma única cena. Mas ela aproveita o momento.

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