Review: “Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi” de Rian Johnson

Após o incrível sucesso do episódio anterior, “O Despertar da Força“, a saga Star Wars mostrou que tinha como seguir em frente sem a visão de seu criador George Lucas após a aquisição da Disney – que, aparentemente, quer comprar Hollywood inteira. O filme de J. J. Abrams não só serviu de bom retorno para uma galáxia que (cronologicamente) o público não visitava tinha mais de trinta anos, como (e mais importante) foi muito feliz em introduzir novos personagens e enredos. A história terminou em ganchos para seus protagonistas que possibilitava inúmeras possibilidades, além de deixar em aberto o aguardado retorno de Luke Skywalker. Portanto eis que chegamos ao Episódio VIII, erroneamente traduzido de “Os Últimos Jedi”. Não, não existe esse plural, só tem um último Jedi; se você ficou na dúvida, pode muito bem ler de novo o letreiro do Episódio VII – tá escrito lá quem é!

Quando “Os Últimos Jedi” começa, a Resistência está fugindo de sua base secreta com a Primeira Ordem na sua cola. Mesmo com uma tenebrosa derrota após ter sua Estrela da Morte III, quer dizer, Base Starkiller destruída, eles tem força o suficiente para impor seu domínio por toda a galáxia enquanto que os heróis estão ainda mais fracos, apesar de terem obtido uma importante vitória tipo dez minutos atrás. E conseguirem uma outra vitória nos primeiro dez minutos do filme, mas sabe como é, tem que fugir por que eles não podem ficar parados. Só que não conseguem despistar a Primeira Ordem por motivos de “o roteiro acabou de inventar uma razão” e cabe a Finn e sua nova amiga Rose fugirem para um planeta salvar a Resistência. Enquanto Poe Dameron fica sentado esperando algo acontecer por duas horas de filme.

Do outro lado da galáxia, Rey encontrou Luke Skywalker e quer que o antigo Mestre Jedi a treine. Ele reage da maneira menos esperada para qualquer um que tenha ficado empolgado com o gancho do “Episódio VII” e cabe a mocinha convencê-lo de que ela não será uma nova Kylo Ren. Já o novo patricida do pedaço segue em seu objetivo de provar ao Supremo Líder Snoke que ele é malvado mesmo, apesar das dúvidas. A trama entre o trio Rey, Kylo e Luke deveria ser o gancho central da narrativa – sem dúvida é o foco emocional, ao menos – só que o texto precisa ficar voltando para a Resistência fugindo em câmera lenta no meio do nada. Esse enredo, que consome boa parte da história, é tão sem propósito que veja só como eles inventaram de arrumar motivo em colocar a General Leia para não fazer nada. A partir daí percebe-se os claros defeitos de “Os Últimos Jedi”.

O filme é escrito e dirigido por Rian Johnson (de “Looper” e alguns bons episódios de “Breaking Bad”) e, sem sombra de dúvidas, os problemas estão todos em suas costas. Sua direção é mediana, apesar de uma certa criatividade visual, mas sem a mesma inventividade nas cenas de ação – que são boas, mas genéricas. Quando ele tem oportunidade de criar algo novo, como a sequência do cassino Canto Bight, ele escorrega na overdose de efeitos visuais cheios de cortes para piadinhas forçadas. Tive um certo déjà vu de “O Ataque dos Clones” naquele momento! Já seu roteiro é ruim por todos os motivos errados. Ele realmente tem algumas boas ideias para os personagens, que são desperdiçadas por que elas não vão a lugar algum. Novamente a sequência em Canto Bight serve de exemplo para isso: Finn e Rose conseguem aquilo que estão procurando, mas isso não serve para ajudar a Resistência, que consegue fugir apesar disso. Por que o roteiro levou eles lá mesmo? É como se esta trama existisse como filler, só que infelizmente boa parte de tudo que acontece nos dos primeiro atos sofrem disso. O clímax chega a suas próprias conclusões, personagens terminam em pontos que não estavam sendo levados – Finn, Rey, Luke, Kylo Ren, nada se amarra nem ao que foi introduzido no episódio anterior, nem ao que sequer foi introduzido no início da história!

O que aconteceu? Creio que Johnson bebeu demais da oportunidade de fazer algo diferente. J. J. Abrams foi muito criticado (inclusive por mim!) por ter feito de seu “O Despertar da Força” similar demais aos filmes anteriores, sem correr riscos ou inventar novidades. Ao seu sucessor coube o erro inverso, de inventar demais simplesmente por inventar. Não o critico por tentar impor decisões surpreendentes aos personagens, mas sim pelo roteiro não justificar o motivo deles terem chegado lá! Isso fica muito evidente no arco de Luke Skywalker que, sem entrar em spoilers, promove uma boa cena no clímax – para depois desperdiçar esse momento “por que sim”, já que seu arco claramente não estava levando aquela conclusão. Johnson quis demais surpreender o público, mas não entendeu se havia motivo orgânico a narrativa naquilo acontecer.

O que salva “Os Últimos Jedi” de ser um filme efetivamente ruim são seus bons momentos. Rey e Luke tem momentos divertidos na ilha em que treinam. A cena inicial com Poe Dameron, quando ele ainda tinha algo para fazer na história, é legal e tem uma boa troca de piadas com o General Hux. Finn e a Capitã Phasma se enfrentam, Rey e Chewbacca tem uma boa cena pilotando a Millenium Falcon em cânions de cristais e a Vice- Almirante Holdo provoca aquele que – para mim – foi o momento mais emocionante do filme inteiro. Também achei legal como Johnson levanta a bandeira da Resistência (“Não lutamos para destruir aquele que odiamos, lutamos para salvar aqueles que amamos”) que serve de clara oposição a retórica de ódio da Primeira Ordem – ou do Império, ou dos Sith, ou dos Trump e Bolsonaros da nossa galáxia. Sua decisão em encerrar o filme com uma cena que mostra como os heróis espalham o bem além de suas aventuras foi muito criativa – um pouco piegas na execução em si, mas lhe darei o crédito por estar com a intenção no lugar correto.

O filme trás de volta Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega e Oscar Isaac do episódio anterior. Ridley e Driver são os que mais tem oportunidade para atuar, apesar de Boyega ter ao menos um bom momento – levemente desperdiçado por não levar a lugar algum. Andy Serkis volta como o vilão Snoke e eu nem vou falar nada do seu personagem, mas ao menos ele atua bem (para variar) por detrás dos efeitos digitais. Mark Hamill retorna como o lendário Luke Skywalker e tem muitos bons momentos que irão satisfazer os fãs. Carrie Fisher também volta em sua última interpretação da igualmente lendária Leia Organa. A ela é dado menos do que Hamill para fazer, mas a força de sua personagem não é subestimada e sua importância ecoa em diálogos que parecem refletir o valor desta ícone feminista nos dias de hoje. Outras mulheres também brilham, como a divertida Kelly Marie Tran como Rose e Laura Dern como a valente Holdo. Benicio Del Toro tem uma participação completamente inútil para o andamento da trama e Domhall Gleeson praticamente vira o Jar Jar Binks do filme.

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