Review: “Assassin’s Creed Origins” para PlayStation 4

A franquia Assassin’s Creed surgiu dez anos atrás, ainda no início da Geração HD, com a promessa de apresentar uma jogabilidade somente possíveis nos então novos consoles. Você exploraria um personagem por uma densa cidade cheia de personagens andando nas ruas, podendo escalar virtualmente qualquer superfície do cenário, correr por seus telhados como se praticasse parkour, tudo isso com o único propósito de matar algum alvo no meio da multidão. O jogo, entretanto, não atendeu as expectativas, com uma jogabilidade lenta, missões repetitivas e muitos, mas muitos bugs. A promessa foi maior que a realidade e o título foi universalmente criticado. Mas a produtora Ubisoft insistiu, encontrou mais sucesso em sua sequência, que rendeu novos episódios anuais, todos venderam muito bem, conforme mudavam de época e protagonista.

A franquia encontrou seu caminho, mas com o surgir de uma nova geração esbarrou novamente na promessa: “Assassin’s Creed Unity” prometia ser tudo aquilo que o original queria, com um cenário ainda mais denso, com ainda mais personagens na multidão e a belíssima arquitetura de Paris dando ainda mais mobilidade. O resultado foi mais um fiasco de bugs e mais um jogo universalmente execrado. Apesar de “Assassin’s Creed Syndicate” ter arrumado um pouco desta bagunça, o cenário da Londres na Era Vitoriana não foi tão popular e, conforme a franquia começava a entrar no século XX, o foco narrativo começava a perder o apelo. Ninguém aguentava explorar mais uma enorme cidade cheia de prédios, transeuntes, baús “escondidos” em varandas, ícones misteriosos no alto de torres, longas missões de assassinato previamente estabelecidas em famosos marcos arquitetônicos. Surge assim “Assassin’s Creed Origins”, que volta as origens (não diga?) da história do credo no Egito Antigo durante a Dinastia Ptolemaica. O resultado é um pouco diferente, apesar de ser mais do mesmo.

Um pouco de contexto histórico: o Egito Antigo foi um longo período, iniciado 3.000 anos a.C. (lá na época da construção das Grandes Pirâmides) e terminou justamente com os Ptolomeus após a derrota da lendária Rainha Cleópatra VII para os romanos. Alguns séculos depois eles perderam este território para os árabes e o resto é história antiga – e tão antiga que a civilização europeia ainda tava brincando de vilinhas na Idade Média – que demoraria a levar justamente em “Assassin’s Creed” que se passava na Jerusalém só lá do século XII! Portanto muito separa esta aventura dos jogos anteriores, apesar da história se passar no marco final da civilização egípcia antiga. E você aí, achando que os anos 80 foram muito tempo atrás?

E bota antigo nesse Egito Antigo aí!

Partindo dessa proposta de voltar no tempo, a série teria a vantagem de um “pseudo-reboot“, uma tela em branco para arriscar mais. Sem ter a necessidade de seguir o estabelecido nos episódios anteriores. Contando a história dos primeiros assassinos (a expressão “assassin’s creed” nunca é utilizada, mas eles se referem como credo em determinado momento) permite a narrativa não seguir as regras ou dogmas impostas pelo mostrado anteriormente. Entretanto, a desenvolvedora Ubisoft não aproveitou isso. Apesar de mudar alguns elementos, a jogabilidade é a mesma. Você ainda controla um herói super ágil, que escala qualquer parede (aparentemente inspirados em “The Legend of Zelda: Breath of the Wild”, ele também é ótimo para escalar qualquer montanha) que tem que matar alguns alvos óbvios em locais históricos. Saem os ambientes de grandes cidades como Roma, Paris e Londres, densos e claustrofóbicos, para missões espalhadas por um enorme território com algumas cidades menores. Pense em algo similar a “Assassin’s Creed IV: Black Flag”, só que ao invés de se passar em um oceano, se passa em um deserto.

As inovações são mínimas. As sidequests, ainda obviamente localizadas e avisadas no mapa (sensação de exploração e descoberta zero), não seguem padrões tão óbvios de estrutura. Onde antes era “missão de assassinato” ou “missão de corrida”, devidamente marcados por seus próprios ícones, agora os objetivos seguem suas próprias historinhas, que não interferem no enredo central. Mas são absurdamente repetitivas, de qualquer forma. Vá ao ponto A, salve alguém ou mate alguém ou encontre um objeto, siga para o ponto B, fale com uma pessoa, agora corra ao ponto C para fazer alguma outra coisa. Nenhum desses pontos fica próximo ao outro, numa tentativa clara do jogo de usar os cenários vazios do mapa – e de enrolar o seu tempo. “Assassin’s Creed Origins” demora entre 30 a 35 horas para terminar com a história central, portanto é um jogo longo. Mas boa parte disso será gasta repetindo ações e andando por enormes pedaços de cenários vazios.

Ao menos a história do assassino Bayek é interessante – alguém matou seu filho blá blá blá ele quer vingança blá blá blá figuras poderosas são as verdadeiras responsáveis, um tremendo clichê; mas funciona. E as missões principais são divertidas. E a exploração do cenário é interessante, graças a belíssima recriação de um período histórico riquíssimo visualmente e com muitos cenários famosos. Quem não conhece as pirâmides de Giza? A esfinge? O Nilo, Alexandria, Mênfis? Os gráficos também são muito bons, com espetaculares efeitos de luz naturais, que tornam o ambiente ainda mais rico e atraente. Apesar do vazio dos desertos de areia ou rocha do Egito (convenhamos, deserto é vazio mesmo), chegar de um ponto ao outro não é o problema. O problema é simplesmente ficar indo de um ponto ao outro incessantemente, por que o jogo tem apenas isso a oferecer.

Outra novidade está no sistema de equipamentos, onde antes você ia desbloqueando conforme a história progredia e comprava em lojinhas. Agora ele é mais focado no estilo loot, em que os inimigos ou baús escondidas lhe dão armas aleatórias. Você tem mais controle sobre o gerenciamento, com alguns itens tendo funções especiais. E conforme completa missões vai ganhando pontos de experiência, que permitem você avançar de nível, adquirir novas habilidades e receber armas melhores. Ou seja, colocaram um pouco de RPG em Assassin’s Creed, o que funciona. Só não espere que isso mude a jogabilidade, pois não muda, já que as missões continuam repetitivas de qualquer forma. E o combate está muito, mas muito piorado em relação a “Syndicate” e “Unity”, o que é uma pena. Não que a série fosse famosa por seus bons duelos, mas aqui está ainda mais limitado e repetitivo.

Para alegria geral, o jogo tem apenas uma única “set piece” linear de ação. Ufa!

E repetição é a palavra chave de “Assassin’s Creed Origins”. O que é uma pena, pois a série continua sendo divertida como sempre (fãs não irão reclamar) e explorar um Egito Antigo virtual é tão interessante como deveria ser. Mas a falta de riscos para aproveitar a oportunidade em inovar um pouco reforça os sinais de cansaço, bastante evidentes numa franquia de apenas dez anos que mergulha em seu décimo lançamento, sem contar spin-offs. E em se tratando do gênero open world, tão comum hoje em dia, o jogo fica muito aquém do supracitado “The Legend of Zelda: Breath of the Wild“, que revolucionou a maneira com o qual jogadores podem explorar e descobrir suas aventuras. Apesar da boa qualidade na produção e competência de uma maneira geral, “Assassin’s Creed Origins” é mais do mesmo em um ano onde o mesmo foi virado de cabeça para baixo. Era o momento certo de inovar, mais do que nunca.

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