“Os Últimos Jedi” e a crença da quebra de convenções

“Star Wars: Os Últimos Jedi” chegou no final de 2017 e a internet não parou de falar dele. Mal ou bem! Os críticos adoraram – seus 91% no Rotten Tomatoes estão abaixo apenas de “O Despertar da Força”, “Uma Nova Esperança” e “O Império Contra-Ataca” na série. Já a recepção dos fãs foi menos unânime. Muita gente adorou, alguns inclusive o consideraram seu favorito da saga! Mas, como geralmente acontece, a voz dos que o odiaram foi mais alta. No mesmo Rotten Tomatoes a média de avaliação do público cai para 51% – pior que a dos infames “Episódio I” e “Episódio II”, até então o fundo do poço da franquia. Já a média do tolerante público do IMDb está nos 7,6 – a mesma do relativamente bem aceito “Episódio III”, bem abaixo de todos os outros “filmes bons” da saga. E, claro, em tempos de internet onde tudo é discussão calorosa, “Os Últimos Jedi” virou o debate cinéfilo da vez. Se você ama, é um cego que gostou só por que é fã. Se você odeia, é um exagerado que odiou só por que é fã. Ninguém pode achar o filme medíocre não? Ou apenas bom? Ou apenas fraco? A única conclusão que se chega é que todos os fãs estão errados, aparentemente.

Minha opinião já a fiz no meu review – não gostei muito, mas não achei ruim – mas a minha discussão de hoje não é sobre os méritos (ou desméritos) da produção em si. Mas no meio de toda essa polêmica do “quem está errado”, um argumento em defesa do filme me chamou muito a atenção: a de que “Os Últimos Jedi” é bom por quebrar as convenções da franquia Star Wars; e que, quem não gostou, é por que ficou decepcionado com a resolução de certos enredos. Para tanto, evidentemente, entrarei em spoilers bastante diretos.

Um dos pontos mais levantados é que o diretor e roteirista Rian Johnson fez uma interpretação diferente de Luke Skywalker. O próprio ator Mark Hamill comentou sobre isso e a imprensa fez questão de divulgar errado que ele estava insatisfeito com o resultado. O Luke deste “Episódio VIII” é diferente do que encerrou no “Episódio VI” mesmo. Mas, considerando que se passaram cronologicamente trinta anos – e o “Episódio VII” não pontuou nada sobre sua trajetória – não é de se surpreender que ele esteja em uma posição psicológica diferente. E creio que o filme explica bem como ele chegou onde está. Meu problema com a retórica “é um Luke diferente”: será? Ok, o herói está amargurado e se isolou após salvar a galáxia. Mas fomos introduzidos a Skywalker no primeiro filme como um garoto isolado em uma fazenda no meio de um planeta deserto isolado em uma galáxia inteira! Claro, ele passou pela jornada de herói, mas não me parece nenhum exagero ponderar que ele poderia preferir a reclusão após algum fracasso – ou mesmo por enjoar das pessoas ficarem tratando ele como mito.

Luke Skywalker, herói das massas. Aparentemente.

E vindo de uma saga onde o enredo central (até então) era a de um garoto isolado do mesmo planeta isolado de Luke passar pela jornada do herói para depois virar vilão e matar criancinhas, considero curiosa a percepção de que houve alguma quebra de paradigma aí. É como dizer que Kylo Ren muda a regra do jogo ao ser uma pessoa boa que vira má, sendo que esse é exatamente o mesmo arco do Darth Vader – e a própria nova trilogia estabelece isso! Perto de até onde seu pai Anakin Skywalker foi, o rumo do antigo herói Luke Skywalker é até moderado. E, considerando que “Os Últimos Jedi” utiliza esse ponto apenas para fazê-lo se sacrificar gratuitamente em nome da Resistência, não vejo surgir como um arco bem estruturado. Sim, é um Luke diferente, mas ele acaba fazendo aquilo que todo mundo achava que o Luke faria! Alguém se surpreende que o popular herói morre neste episódio? Estamos negando que todo mundo deduziu isso assim que o título O ÚLTIMO JEDI foi anunciado?

Faço uma referência desse enredo a infame cena do fantasma de Yoda adquirindo poderes de mudar o clima (ele não poderia ter matado o Snoke com um trovão antes não?!) e botando fogo na árvore sagrada dos Jedi. Para muitos outra “quebra de convenções”, afinal simboliza o “deixar o passado para trás”. Sim, mas o próprio Luke Skywalker ia fazer isso! Estava com tocha nas mãos e tudo! Yoda o interrompeu para… Fazer o que Luke já ia fazer? Para que então? Essa é a questão: o enredo estabelece uma “interpretação alternativa” de alguma coisa, mas simplesmente leva ao mesmo fim que a “visão tradicional” tinha. Não existe “quebra” na estrutura de nada se a reviravolta leva a mesma consequência.

Outro exemplo similar muito discutido: a morte do Supremo Líder Snoke. Traído pelo seu aprendiz Kylo Ren, que se une a Rey para enfrentar os vilões, antes de mudar de ideia cinco minutos depois para se unir aos vilões e virar Supremo Líder Kylo Ren. Muitos viram a morte do líder da Primeira Ordem como uma reviravolta sensacional – e alguns fãs ficaram frustrados por que a página do Wookieepedia do Snoke continua incompleta. Francamente, tanto se sabe sobre ele quanto se sabia sobre o Imperador ao final de “O Retorno de Jedi”. Essa não é a questão e saber as origens dos poderes políticos de Snoke é irrelevante. Mas os fãs que defendem o roteiro pelo surpreender com esse final parecem ignorar um dado muito importante: o Imperador teve o exato mesmo enredo na trilogia original! Vamos lembrar?

  • O Imperador é introduzido em um holograma em um filme onde aparece apenas alguns minutos como figura misteriosa. Volta no episódio seguinte como vilão central. Ao torturar nosso herói com poderes da Força e, arrogantemente, ao achar que seu aprendiz que ele próprio trouxe ao Lado Negro irá fazer o que ele quiser, é traído e morto de maneira absolutamente banal, apesar de todos os seus poderes!

Ok, agora substituam “Imperador” por “Snoke” e me digam qual a novidade? O fato dos dois filmes do Snoke serem os primeiros dois episódios, ao invés dos últimos? O vilão central desta nova trilogia é Kylo Ren tanto quanto Darth Vader na original. Snoke é sim um novo Imperador que serve apenas de backstory, sua funcionalidade é exatamente a mesma. Com uma diferença: não houve pay off. Matar o Imperador foi o que produziu a redenção de Darth Vader, já Kylo Ren continuou o mesmo personagem que era antes. Apenas subiu na hierarquia da galáxia. Mas continua o mesmo arrogante mimado dando chilique para matar a família.

E, claro, temos a “revelação” de que os pais da Rey não são ninguém. A internet passou longos dois anos (em anos de internet isso equivale a duas décadas) debatendo quem seriam os pais da protagonista. A maioria deduziu Luke Skywalker, por motivo nenhum fora ser previsível demais. Uns inventaram que ela seria neta de Obi-Wan Kenobi, sei lá como – um dos pontos da trilogia prelúdio é que Cavaleiros Jedi não se envolvem romanticamente, o que deu muito errado para o Darth Vader inclusive. E, claro, minha teoria favorita é de que ela seria a reencarnação de Anakin Skywalker (!) criada por Darth Plagueis (!!) que na verdade era o Snoke (!!!). E aí “Os Últimos Jedi” revela: Rey não é ninguém. E isso é um ponto tão importante do filme que ela literalmente fala “meus pais não são ninguém”, algo curioso pois a heroína tinha desejo de revê-los no “Episódio VII”, mas nunca se referiu a eles como “alguém especial” ou ter essa expectativa. Mas era o roteiro de Rian Johnson deixando tudo bem claro para o público.

Entretanto, apesar da frustração dos conspiradores de plantão, me digam o seguinte: desde quando isso não estava absolutamente claro em “O Despertar da Força”? Novamente, ignorando o debate na internet, o filme anterior jamais estabeleceu um mistério sobre a origem de seus pais! A própria atriz Daisy Ridley comentou isso ano passado. A personagem de Maz Kanata fala para a Rey: “O que você procura não está atrás de você, mas a frente”. Os pais dela não são seu futuro. São irrelevantes. Deduzir que eles seriam ninguém era o caminho lógico. Todas as outras deduções foram fãs usando sua criatividade inutilmente. Os produtores tinham pretensões bem claras sobre o destino da personagem de Rey e isso não envolvia torná-la alguém com sobrenome.

E gostaria de deixar bem claro: nenhum desses três pontos levantados por mim seriam negativos a “Os Últimos Jedi”. Não tive problemas com um Luke amargurado, com a morte de Snoke ou o fim do mistério da paternidade de Rey. Meus problemas com o filme envolvem o roteiro, arcos mal estruturados (como o de Luke) e algumas cenas muito fracas. Mas insisto: a discussão não é essa. Quero é desmistificar essa ideia de que “Os Últimos Jedi” quebrou convenções com a série ou deixou a saga livre de seu passado. Rian Johnson repetiu arcos dos episódios anteriores e não mudou o status quo de nada. Se você gostou do filme, que bom! Com é bom gostar de algo! Mas vamos parar de generalizar as críticas com conspirações desnecessárias. Divirta-se com seu filme por aquilo que ele, que é talvez exatamente aquilo que você queria: um novo episódio Star Wars. Não martele a ideia de que “Os Últimos Jedi” quer “deixar o passado morrer”. Isso é fala do Kylo Ren. Nenhum filme tem mensagem de moral saindo da boca do vilão.

“Acho que é como poesia, é para rimar.”

Nenhuma história que termina com um garoto escravo contando histórias de Luke Skywalker enquanto brinca de Jedi olhando para o horizonte quer “deixar o passado morrer”. Quer celebrá-lo. Lembrá-lo. Reproduzi-lo.

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