Review: “A Forma da Água” de Guillermo del Toro

Uma reinterpretação do conto francês da Bela e da Fera, escrito lá no século XVIII, mas que se tornou muito popular nas últimas décadas graças a adaptações água-com-açúcar da Disney, “A Forma da Água” narra a história de amor de uma mulher com um monstro. Entretanto, foge das armadilhas dos conto de fadas reinterpretados para o público moderno com elementos criativos questionáveis. Aqui, o monstro não precisa virar príncipe encantado loiro de olhos azuis para se tornar “amor verdadeiro” da protagonista. O filme é muito mais sincero para tal superficialidade e encantada por abordar emoções honestas sob uma ótica fantástica.

Elisa é uma mulher muda que mora ao lado de um solitário homossexual e trabalha com sua amiga negra em um laboratório secreto do governo dos EUA durante a Guerra Fria. Evidentemente cercada de figuras consideradas “anormais” em uma sociedade que vende família feliz em comercial de bolo, nossa heroína não tá nem aí para “normalidade” – logo se interessa por um homem-anfíbio que está aprisionado em seu local de trabalho. Ao descobrir que ele será assassinado para dissecação, conta com a ajuda de um comunista para elaborar um plano de fuga.

Muda. Comunista. Homossexual. Negra. O filme discretamente faz referência a várias questões sociais em seu primeiro ato, através de breves enredos que servem para estabelecer esses personagens vistos como “a margem” da sociedade. Apesar da história não ser uma parábola social, é uma maneira inteligente do roteiro de estabelecer uma realidade sincera, apesar da fantasia. “A Forma da Água” é um conto de fadas, mas sem “glamour dos anos 50″ – apesar do requinte da produção, os cenários são sempre escuros e geralmente está chovendo. É uma história com origem triste, com personagens excluídos, mas que se unem na nobre tarefa de ajudar a heroína a se entregar ao amor.

E que interessante ver como o diretor Guillermo del Toro não se acanhou em abordar a paixão de dois personagens inusitados. Elisa se mastrba pontualmente todo dia na banheira antes de ir ao trabalho (bom para ela, não?) e, se é para transar com um homem-anfíbio, ela vai fundo! Del Toro não faz humor ou ironiza. Respeita a sobriedade da paixão, sem encantamentos, sem “e viveram felizes para sempre”, mas sim pela entrega de dois corpos, que se encontram como gotas de chuva no vidro da janela. Del Toro está acostumado a abordar monstros em sua filmografia, seja em fantasias como o belíssimo “O Labirinto do Fauno” ou em blockbusters de ação à lá “Círculo de Fogo”. O diretor vê em figuras mitológicas nada mais do que um reflexo da multiplicidade do individualismo de cada ser humano. Assim como a trilogia O Senhor dos Anéis via humanidade em elfos, hobbits e anões, “A Forma da Água” vê em um homem-anfíbio apenas uma outra vida, outra história a ser contada. Como a de uma mulher muda, uma negra, um homossexual ou um comunista.

Fiz a minha analogia ao conto da Bela e da Fera no início desta resenha, mas talvez a melhor comparação seria com o mais recente “Shrek”. A animação também subverteu a narrativa da princesa que se apaixona pelo monstro. Ao invés de Shrek “se livrar da maldição” e virar um príncipe encantado, é a princesa que – através do amor verdadeiro – vira um monstro e se casa com um ogro. “A Forma da Água” celebra o amor e as inúmeras formas que ele aparece. Curiosamente, a única figura que tenta se encaixar em um idílico comercial do american dream é o vilão, que mora nos subúrbios e tem uma Betty Draper como esposa, mas ambiciona uma muda por que “ela não pode falar” e tem parte do seu corpo apodrecendo, como uma manifestação da inquietude do querer fazer “parte do todo” que o status quo vende como “normal”. Não é raro hoje em dia uma história celebrar o diferente, mas “A Forma da Água” faz isso com delicadeza e revertendo clichês dos conto de fadas.

Elisa é vivida por Sally Hawkins, entregue de corpo e alma em uma personagem que basicamente só se manifesta pela corpo – mas cuja alma reluz com o grande carisma da atriz. Seu “peixe encantado” é vivido por Doug Jones, que já trabalhou com Del Toro em “O Labirinto do Fauno” e “Hellboy” (sempre como monstro). O sempre competente como vilão Michael Shannon vive o vilão recalcado. Richard Jenkins e Octavia Spencer são amigos que ajudam Elisa e Michael Stuhlbarg um cientista do laboratório. O elenco está muito afinado, mas Hawkins e Shannon são os grandes destaques.

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