Review: “Me Chame Pelo Seu Nome” de Luca Guadagnino

Inspirado no livro de mesmo nome de André Aciman, cuja história se passa durante algumas décadas e mostra o relacionamento entre dois homens em três momentos distintos de suas vidas, “Me Chame Pelo Seu Nome” foca apenas na primeira experiência dos dois. Ignorando a narrativa “retrospectiva”, conta como o adolescente Elio se apaixona pelo assistente de pesquisa de seu pai, Oliver, na costa italiana dos anos 80. É um romance de verão focado apenas na impulsividade da relação, sem mostrar o que ocorre depois. É sobre o encontro, não o desenvolvimento.

Nesse aspecto, o filme mostra uma visão interessante do aclamado livro. Ao invés de simplesmente adaptá-lo integralmente, foca em um aspecto interessante. A relação de Elio e Oliver é bastante impulsiva, com traços fortes de “meu primeiro amor” (ao menos do ponto de vista de Elio) que faz com que ele siga cegamente sua intuição. E Oliver parece se atrair pelo jovem de uma maneira mais intelectualmente estimulante, pois ele cede mais e tenta manter um certo controle. Evidentemente não funciona e ambos se envolvem passionalmente.

O roteiro de James Ivory (mais famoso como diretor, tendo inclusive sido indicado ao Oscar três vezes no início dos anos 90) peca pela racionalidade, apesar do foco emocional da história. A primeira hora da relação dos dois amantes é puramente platônica, o que seria um ideia interessante para explorar. Estaria Elio em negação quanto a sua sexualidade? Será que Oliver quer evitar se envolver com alguém tão jovem? Existe preconceito na sociedade que os impede de materializar o amor? Mas não. Elio identifica muito bem a origem do seu prazer e Oliver se faz de difícil, mas não o rejeita. Os dois passeiam juntos de bicicleta, nadam na piscina, leem livros. Mas não existe nada que os impede, fora o fato de nenhum dos dois tomar a iniciativa de fato. Um contexto real, claro, mas que confere ao roteiro uma falta de conflito.

O amor dos dois é tão platônico que confere a narrativa uma intelectualidade que não combina com o foco passional da direção. O diretor Luca Guadagnino filma com delicadeza inúmeros momentos, as vezes focando no cenário ou em objetos, com um estilo que lembra um pouco a nouvelle vague. Quando a relação dos dois finalmente se torna carnal, os enquadramentos são discretos e as vezes mudam de foco. Ele quis dar uma visão mais singela, romântica. O que é uma decisão visualmente boa (ajuda muito o cenário da história ser belíssimo), mas não amarra o espectador como deveria, pois o texto está demasiadamente preso ao platonismo, ao intelecto, a “paixão não concretizada” sem estabelecer um arco que justifique isso. Não existe nada que impede os dois de ficarem juntos e, quando eles finalmente ficam, não existe a sensação de realização. Para um filme que pretende narrar a impulsividade do primeiro amor, faltou a sensação de conquista a união do casal.

Oliver é interpretado por Armie Hammer (de “A Rede Social”), em ótima e madura atuação. O protagonista mesmo é Elio, interpretado por Timothée Chalamet (de “Interestelar”), que por ser o adolescente impulsivo experimentado com o próprio corpo – aquela cena do pêssego nasceu para ser citada no futuro, não? – é quem carrega a história. Sua atuação é certamente madura também, principalmente nas cenas mais difíceis. O jovem tem muito potencial, por demonstrar facilidade de entrega em uma história que é sobre se entregar. Os pais progressistas mais liberais de todos os tempos são interpretados por Michael Stuhlbarg (“Um Homem Sério”), que tem uma daquelas cenas de diálogo que geralmente rendem um Oscar, e Amira Casar (“Versailles”). Destaco também a jovem Esther Garrel como uma garota que se envolve com Elio e sabe muito bem a roubada que está se metendo, coitada.

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