Review: “O Artista do Desastre” de James Franco

Considerado um dos piores filmes já feitos, “The Room” (nunca distribuído oficialmente no Brasil, portanto segue sem tradução) é uma criação do misterioso Tommy Wiseau, dirigido e escrito por ele em 2003, além de protagonizar a história ao lado do colega Greg Sestero. O filme se tornou um clássico cult na internet, graças a uma infinidade de memes que o tornaram infame com o tempo. Dez anos após o lançamento cinematográfico, Sestero escreveu um livro contando sua história com Wiseau e os bastidores da produção que virou pop para uma geração que faz GIF da Nazaré Tedesco correr o mundo. “O Artista do Desastre” é uma adaptação que inventa um pouco para dar um ar de “louvor ao fiasco” no que essencialmente é uma história de um relacionamento abusivo.

Nunca assisti a “The Room”, apesar de ter pleno contato com suas cenas mais famosas (e toscas) e conhecer muito bem sua reputação ao longo dos anos. Mas, apesar de adorar rir de filmes ruins, nunca me dei ao trabalho de assistir justo a este – mas já me dediquei a “Cinderela Baiana“, um clássico nacional que recomendo a todos os fãs das porcarias! Pois bem, não tenho nenhuma relação afetiva com a obra sendo homenageada aqui. E sim, “The Room” é um objeto de fascinação do diretor James Franco. O filme começa com alguns astros do segundo escalão hollywoodiano, todos amigos de Franco, opinando sobre este clássico cult. Em algum momento alguém diz que ninguém sequer lembra qual filme ganhou o Oscar na época, mas ainda comentam sobre “The Room”. Errr… “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” foi o filme de 2003 que veio a ganhar Oscar no ano seguinte e eu acho que ele ainda é bem famoso. Mas ok.

Isso tudo serve apenas para criar uma aura que não condiz com a realidade. Sim, “The Room” é bem famoso, mas pelos motivos errados. Não é celebrado, exaltado ou algo assim. É usado de exemplo como um filme que não tem o menor sentido sob qualquer perspectiva humana – apesar de se considerar um drama! “O Artista do Desastre” vende a ideia de uma produção tosca que se tornou hilária sem intenção e merece ser celebrado por isso. Mas isso é fantasia. A cena da premiere, em que o público cai nas gargalhadas e aplaude o desastre, jamais ocorreu, segundo o próprio Sestero. Na realidade, foi uma sessão desconfortável com as pessoas segurando o riso. Era um fiasco anunciado, não o surgir de uma obra a ser reconhecida com o tempo.

“Oh hi, Mark.”

E o filme perde a oportunidade de desenvolver o mais interessante da história real: a relação abusiva entre Wiseau e Sestero, além do perfil psicológico de um artista que mente sobre sua origem (ele se diz americano, apesar do evidente sotaque europeu), sobre sua idade e sobre a fonte de sua fortuna. É um mentiroso compulsivo, claramente egomaníaco e com algum desvio de comportamento, tipo personalidade limítrofe. Isso tudo é tratado com humor pelo roteiro – o que é compreensível, pois rende uns momentos bizarros – sem nunca abordar o efeito disso nas relações de Wiseau com seu amigo ou colegas de produção. Se “O Artista do Desastre” não chega a simpatizar com seu protagonista (ele é uma figura controversa demais para isso), perde a oportunidade de fazer algum estudo de personagem. E foca apenas na sua obra, uma produção que as pessoas riem por não ter o mínimo nexo humano, como uma criação inusitada que encontrou o seu público.

Os momentos finais, em que cenas de “The Room” passam paralelamente a fiéis recriações de “O Artista do Desastre”, são uma amostra do esquisito foco da direção em celebrar o filme – mas ignorar o interessante personagem central na criação daqueles esquisitos momentos que eles fizeram tanta questão de imitar nos mínimos detalhes.

James Franco está ótimo como Tommy Wiseau, repetindo muito bem seus maneirismos estranhos, mas às vezes sua atuação escorrega em algo como na paródia. O que seria válido, mas não condiz com o contexto do filme. Problema de sua direção, claro, que é bastante simplória e não parece ter uma compreensão clara dos seus personagens. Dave Franco é Greg Sestero, insistindo demais na cara de cachorro abandonado. Seth Rogen é assistente de direção, Alisson Brie a namorada de Sestero e Ari Gaynor a má desenvolvida Juliette, que tem destaque em “The Room” como Lisa, mas aqui é apenas mais uma. Jacki Weaver, Josh Hutcherson, Zac Efron, Megan Mullally e Judd Apatow tem participações. E os próprios Tommy Wiseau e Greg Sestero fazem pontas também.

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