Review: “Eu, Tonya” de Craig Gillespie

Inspirado na história real da ex-patinadora Tonya Harding, mais famosa por se envolver em uma conspiração para machucar uma colega de profissão do que por suas louváveis conquistas no esporte, “Eu, Tonya” é uma cinebiografia um pouco diferente. Assume um tom de humor negro, com doses de metalinguagem e uma postura de que nem tudo aquilo é real, por ser baseado nos relatos dos envolvidos – que se contradizem. Evidentemente que como “relato de um incidente” isso provoca problemas, mas como estudo da personagem título cria algo bem interessante.

O filme mostra a infância difícil da Tonya, que foi abandonada pelo pai e criada por uma mãe psicologicamente abusiva. Eu sei que muita gente gosta de sair espalhando por aí que “todos temos as mesmas chances na vida” (principalmente nos Estados Unidos, a “Terra das Oportunidades”), mas eu acho que se você nunca teve sua mãe atirando uma faca em você, provavelmente você teve mais chances de não ser uma pessoa problemática, não é mesmo?  E essa é uma postura interessante do bem escrito roteiro de Steven Rogers – completamente fora de sua zona de conforto, ele também é o responsável pelos melosos “Lado a Lado” e “P.S. Eu Te Amo”. Sem nunca ter pena de Tonya, mas entendendo que a vida dela foi difícil sim. E, apesar de ela ter responsabilidade em seus erros (que não assumiu devidamente), não há pessoa sã que escape das armadilhas que a vida foi lhe colocando. Tonya foi, infelizmente, uma vítima, que acabou vitimando outros ao seu redor também por conta disso.

Os principais problemas do filme, infelizmente, são realizados pela direção. Craig Gillespie (do remake “A Hora do Espanto”) tem algumas boas intenções e sem dúvida dá muitas oportunidades para o elenco atuar, mas parece preso demais a maneirismos ou modinhas inventivas. Fora uma ou outra tracking shot realmente interessante, a maioria dos seus cortes e enquadramentos são muito forçadamente ecléticos. Fica artificial, o que é uma pena, para uma história que tenta muito ser verdadeira com a sua protagonista. Também me irritou o abuso de músicas de época que simplesmente não ajudam em nada para criar contexto, parecem estar lá apenas para fazer a cena ficar cool.

As duas Tonyas.

Isso não atrapalha o resultado geral do filme, entretanto. Apenas tornam o segundo ato um pouco cansativo e repetitivo. As coisas melhoram com o relato do incidente que levou Tonya da fama a infâmia, um evento cheio de absurdos e erros grotescos pelos envolvidos. Sim, é para rir da tragédia alheia mesmo! O roteiro amarra algumas ideias interessantes sobre a carreira de Tonya após o caso e como ela saiu da mídia para dar lugar a outra crime famoso. Mas escorrega um pouco na hora de aproveitar esses elementos para criticar a sociedade que a transformou na pessoa que ela é. Tonya Harding queria apenas ser amada por todos e os Estados Unidos adoram ter ídolos, não é verdade? Pois ela fez o que lhe ensinaram a fazer.

Tonya é interpretada por Margot Robbie (a Arlequina do “Esquadrão Suicida”), que é uma boa atriz, sempre variando em seus papeis, mas que nunca teve oportunidade de criar uma personagem tão complexa. Ela fez o papel surgir – o filme é produzido pela própria – e aproveitou a chance, se entregando muito bem ao papel e tendo ao menos um momento dramático brilhante: a incrível cena em que uma Tonya ansiosa se maquia antes de apresentar-se nas Olimpíadas de Inverno de 1994. Sua mãe monstruosa é vivida pela sempre grandiosa Allison Janney (“Histórias Cruzadas”, “Juno”) em uma atuação bem feita. O marido de Tonya é vivido por Sebastian Stan (o Soldado Invernal do Universo Marvel), bastante sem sal. Bobby Cannavale interpreta um jornalista que sei lá por que aparece na história, pois apenas comenta episódios.

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