Review: “Lady Bird: É Hora de Voar” de Greta Gerwig

Existe um subgênero no cinema chamado pelos americanos de coming-of-age story, geralmente identificado pelo amadurecimento do personagem central, passando pelo final da adolescência e início da fase adulta. Tentando retratar este precioso – e breve – momento da vida humana em que começamos a “aprender a voar” (mil perdões pelo trocadilho com a tradução brasileira), “Lady Bird” é uma comédia divertida com precisos momentos de drama mostrando com delicadeza essa transição conturbada.

O filme é inspirado em experiências de vida da roteirista e diretora Greta Gerwig – Marion, a mãe da protagonista Christine, é enfermeira como a mãe da diretora na vida real. Mas isto não é uma autobiografia. E não espere a história de uma adolescente introspectiva da Califórnia indo buscar o seu sonho de virar estrela em Nova York! Gerwig, como boa roteirista, é muito mais inteligente do que isso. Nossa heroína é uma adolescente da cidade de Sacramento – assim como Greta – que tem o desejo de ir para a Costa Leste dos Estados Unidos por que é lá que estão todos os poetas, intelectuais, coisa e tals. Mas ela sequer sabia que existe um clube de teatro na sua escola. Ou seja, adolescentes, né? Esse tipo de esperteza é um dos dons de “Lady Bird”.

Filmes coming-of-age muitas vezes pecam pela idolatria ao herói, como se a jornada fosse sobre ele chegar ao seu destino, ao seu chamado, à aventura! Na vida real, adolescentes não tem a menor ideia do que querem, apenas que querem algo a mais. E alguns de seus pais, ao menos os bons pais, querem que seus filhos sejam a melhor versão deles próprios – como Marion fala em uma cena – identificando que, provavelmente, eles também não sabem o que os filhos querem. O texto de “Lady Bird” discursa muito sobre essa procura pela “própria história”, mas também sobre o conflito entre pais e filhos que nem sempre se entendem, apesar de ambos quererem a mesma coisa: o melhor para o filho. A relação entre Christine e Marion é extremamente bem desenvolvida e muito delicada, com profundo respeito pelos sentimentos paradoxais da mãe, sem nunca infantilizá-la nem idolatrá-la.

A “lady bird” titular é interpretada por Saoirse Ronan, com 23 aninhos e dona de uma carreira invejável – como esquecer de sua Brionny de “Desejo & Reparação” lançado exatos dez anos atrás? Ronan segue mostrando que tem talento de sobra para, sei lá, virar umas cinco Meryl Streeps com o tempo. Sua atuação aqui é muito sincera, cai como uma luva para os diálogos ágeis e inteligentes de Gerwig. Marion é interpretada por Laurie Metcalf, muito famosa por seu extenso trabalho na televisão (é a mãe do Sheldon de “The Big Bang Theory”), que dá incrível força aos diálogos de sua personagem, principalmente nos momentos mais dramáticos. As cenas que envolvem Metcalf e Ronan juntas são um banquete para os fãs de boa atuação. Tracy Letts (“Álbum de Família”) é o pai bonzinho.  Lucas Hedges (“Manchester à Beira-Mar”) cria uma espontânea e divertida atuação como o primeiro namorado de Christine.  Timothée Chalamet (“Interestelar” e “Me Chame Pelo Seu Nome”)  é um outro interesse romântico em cena. E Beanie Feldstein é a simpática melhor amiga da protagonista.

“Lady Bird” é um excelente trabalho do elenco inteiro, que soube dar vida ao maduro e excelente texto de Greta Gerwig. Mas sinto que faltei em falar sobre sua direção e essa parte merece destaque também. Pois ela não apenas escreveu uma história incrivelmente pessoal – que sem dúvida irá emocionar a muitos que se identificarem com a mensagem – mas visualizou e a colocou em cena. Apesar de seu roteiro ser bem humorado (e o filme é muito engraçado!), também é delicado e Gerwig como diretora teve tremenda maturidade para mostrar isso, apesar desta ser sua estreia na função, ao menos sozinha. A atriz, famosa pelos indies “Frances Ha” e “Mistress America”, foi feliz em sua escolha de ser sincera com seus sentimentos e demonstrá-los textualmente e visualmente com grande sabedoria. Talvez seja cedo para rotular de obra-prima um trabalho tão inicial em sua carreira, mas o futuro é promissor.

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