É chegada a hora dos gamers se responsabilizarem pelo ambiente tóxico de suas empresas favoritas?

Após a onda de denúncias de assédio sexual que abalaram Hollywood, começaram com o produtor Harvey Weinstein e culminaram nas campanhas #MeToo e Time’s Up, o mundo passou a discutir o abuso em ambiente de trabalho com maior frequência. Recentemente o The New York Times denunciou fotógrafos no mundo da moda, reforçando que os casos não ficam presos a indústria do cinema norte-americano. E como ficam os videogames nessa história? Alguns meses atrás um ex-funcionário da Naughty Dog acusou um produtor da empresa de tê-lo assediado. E não é de hoje que se divulgam histórias de maltratos na Rockstar. A mais recente denúncia foi contra a Quantic Dream. Todos esses eventos foram relatados pela Kotaku, fazendo um excelente trabalho de jornalismo investigativo. E se nem todos os casos envolvem necessariamente assédio sexual, abordam péssimas condições de trabalho. Que são questões que compõe um problema maior: abuso de poder.

Acabou o silêncio.

E onde entram os gamers no meio disso tudo? Ignorando a questão do GamerGate que gerou uma discussão alguns anos atrás (esse é um reflexo do problema central, o machismo), podem os fãs dessas empresas serem acusados de cumplicidade? Eis um debate que gostaria de levantar.

A indústria de videogames movimentou 100 bilhões de dólares em 2017, mais que o dobro da indústria de cinema em relação a 2016 – não existem dados concentrados para 2017 para uma comparação exata. O impacto dela na sociedade é visível e, se não existe essa fascinação com o universo das celebridades como em Hollywood, seus produtores tem influência no comportamento de seus fãs. Que são, evidentemente, os consumidores mais importantes, pois definem os rumos da indústria! Como ignorar que a Electronic Arts teve que alterar o uso de loot boxes em seu “Star Wars: Battlefront II” após a reclamação dos fãs explodir na internet e impactar o números da empresa em Wall Street? Berrar ajuda! Como, evidentemente, as pessoas assediadas em Hollywood também deixaram claro.

Posicionar-se é fundamental. E, às vezes, o posicionamento pode vir por meio de um abaixo-assinado ou da explosão de uma polêmica viralizando nas redes sociais. Entretanto, assim como o cinema, a indústria de videogames funciona com base no comércio. Empresas se tornam populares por que seus jogos vendem, acima de tudo. E quem compra os jogos são um largo público consumidor de massa, muitas vezes influenciados pelo boca a boca gerado inicialmente por fãs bastante apaixonados. O que me faz levar ao ponto inicial desse artigo: deveria esse público se solidarizar com as denúncias de uma maneira mais efetiva?

Uma imagem que gerou muito mais que mil palavras.

Ponderemos o seguinte: se você for ao cinema assistir um filme de Woody Allen, se sentiria mal? Acreditaria estar dando dinheiro a um cineasta acusado de abusar sexualmente da própria filha? A mesma pergunta poderia ser feita para seu videogame favorito.

A Naughty Dog é extremamente talentosa e suas acusações (a priori) estão amarradas a um caso somente. Mas se denúncias de abuso sexual dentro de lá explodissem de vez, isso evitaria você de se empolgar com o vindouro “The Last of Us – Part II”? Os casos da Rockstar são plenamente relatados, mas ainda assim “Grand Theft Auto V” ultrapassou gigantescos 80 milhões de unidades. Para a direção e acionistas da empresa, o ambiente de trabalho tóxico funciona, não é mesmo? Olha o sucesso! Às custas da saúde dos recursos humanos de lá, claro, mas isso não está afetando o faturamento. E quanto a Quantic Dream? As acusações são seríssimas. Usuários de PlayStation 4 deveriam abdicar de se empolgar por “Detroid: Become Human”? E a Sony? Pode se dar ao absurdo de continuar trabalhando com a produtora apesar disso?

Em suma: iremos tolerar o silêncio?

Uma cena de violência doméstica em “Detroid: Become Human”.

São perguntas que os gamers devem fazer para si mesmo. Não proponho aqui encontrar respostas para suas opiniões. Mas convido ao questionamento. Abuso em ambiente de trabalho é uma questão séria, culpabilização de vítimas não será mais tolerado e o assunto não irá simplesmente sumir. As vítimas cansaram de se silenciar. Seria hora dos consumidores se juntarem aos gritos?

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