Review: “Pantera Negra” de Ryan Coogler

Durante boa parte desses quase dez anos de Universo Cinematográfico Marvel (sim, “Homem de Ferro” vai fazer dez anos já já) muito se criticou do estúdio por não produzir filmes representados por minorias. Nos   Vingadores com um bando de homem branco, a Viúva Negra fica lá sozinha e nem a popularidade de Scarlett Johansson ou o favoritismo da personagem lhe renderam um filme solo. E, claro, negros tem menos visibilidade ainda, até guaxinins falantes conquistaram papeis maiores. Mas – antes tarde do nunca – isso finalmente mudou. Chega “Pantera Negra”, primeiro blockbuster de grande orçamento (não, “Blade” não conta) com elenco majoritariamente negro, dirigido por um negro e roteirizado por dois negros.

O personagem já havia sido introduzido em “Capitão América: Guerra Civil“, não apenas em boas cenas de ação, mas também em seu arco inicial que começa justamente aqui. T’Challa é o novo rei de Wakanda, após a morte de seu pai em atentado que aconteceu na cena do filme supracitado. Mas T’Challa está inseguro, pois não só tem a responsabilidade real, como ainda de ser o Pantera Negra, herói local que mantém os povos unidos para manter em segredo a existência do país. Tudo corre o risco de mudar quando um traficante de armas (que havia aparecido em “Vingadores: Era de Ultron“) se alia a um jovem misterioso que tem interesses políticos.

Wakanda é um país fictício (evidentemente, mas importante destacar) que na pré-história foi atingido por um meteoro cheio de vibranium, material poderoso que permite criar tudo aquilo que o roteirista quiser inventar. Por conta disso, as tribos locais se uniram para esconder o reino do mundo exterior e isso permitiu Wakanda prosperar em uma grande potência tecnológica, de visual fortemente alienígena – o que serve para reforçar seu isolamento em relação ao resto do mundo – apesar de claras influências africanas. E aí “Pantera Negra” não perde a oportunidade de reforçar a real razão do progresso de Wakanda, supostamente um “país de terceiro mundo” cheio de “fazendeiros”, como julga um político ocidental em importante cena. A África foi assaltada por colonizadores (e assim os personagens brancos são chamados no filme) e ninguém pode negar o quanto isso impediu sua riqueza natural e cultural de prosperar. Ou iremos simplesmente ignorar que o Egito foi uma das nações mais ricas e poderosas da antiguidade – e durante milênios, tá? Não é pouca coisa não.

Durante o período das “grandes explorações” (eufemismo para “sair roubando riqueza de outros países”), civilizações da África e América foram assaltadas e genocidadas pela Europa. Os povos africanos foram sequestrados em grande escala de seus países de origem para virarem escravos em um modelo econômico supremacista racial – na dúvida, não custa assistir “12 Anos de Escravidão” novamente. “Pantera Negra” lembra isso e este passado que repercute até hoje, na exclusão social e encarceramento em massa da população negra que é forte mote para o vilão central. E, não apenas isso, serve de debate após o filme – o que é um milagre no cinema Marvel. Isso por si só já é o suficiente para destacar a produção acima da média dos seus colegas inspirados em quadrinhos.

Méritos principais do roteiro, que poderia ser melhor desenvolvido em certas tramas – talvez algumas cenas de diálogo tenham ficado fora da edição final? – mas, no geral, é muito bem escrito. Tem arcos bem definidos, personagens interessantes, um vilão com propósito – outro milagre no cinema Marvel – e uma contextualização histórica muito bem vinda. Além de Joe Robert Cole (da excelente minissérie “American Crime Story: The People vs O.J. Simpson”), também acima Ryan Coogler, o diretor. Coogler destacou-se com “Creed” e “Fruitvale Station: A Última Parada”, ambos muito bem dirigidos. “Pantera Negra” não o permite muito um exercício visual, mas ao menos as cenas de ação tentam um truque interessante ou outro. Mas destaque maior vai mesmo para seu texto, que não fugiu das feridas e produziu alguns bons momentos em diálogos – repare na cena final do vilão ponderando sobre seu destino ou no discurso de T’Challa para a ONU.

Essa cena parece, mas não é um plágio de “Operação Skyfall” não.

Outro ponto importante de “Pantera Negra”, como mencionado lá no primeiro parágrafo, é a representatividade. O elenco principal tem dois homens brancos – Andy Serkis, que já se tornou uma potência carismática e rouba cenas, e Martin Freeman – e provavelmente os anticotistas já devem estar berrando “racismo inverso” ou qualquer outra loucura. T’Challa é interpretado por Chadwick Bozeman (“42 – A história de uma lenda”), acostumado a ser um pouco camaleônico, portanto evidentemente mais contido aqui. Mas carisma ele tem, o que basta. O vilão Killmonger é vivido por Michael B. Jordan (de ambos “Creed” e “Fruitvale Station”), um ótimo ator que carrega com facilidade o interessante personagem. Destaque maior para o elenco feminino – e sim, “Pantera Negra” supera inclusive nesse aspecto. Temos Lupita Nyong’o (“12 Anos de Escravidão”), boa o suficiente, Letitia Wright (“O Passageiro”) como a Q da história, portanto um bom alívio cômico, e a estonteante Danai Gurira em momento nasce uma estrela – sério Marvel, dá logo um filme para ela! Daniel Kaluuya (“Corra!”), Sterling K. Brown (“American Crime Story”), Angela Basset e Forest Whitaker são coadjuvantes de menor destaque.

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