Sobre “O Mecanismo”, “Feud” e licença poética

Não é de hoje que o cinema aborda casos reais para narrar suas histórias de ficção. Às vezes beirando a apologia ao racismo – como a forma com o qual o clássico “O Nascimento de uma Nação” reproduziu a Guerra Civil dos EUA. Não deixa de ser uma “versão errada” de fato histórico relativamente recente, pois a guerra terminara apenas 50 anos antes, e ainda assim o filme virou referência. Ou mesmo o naufrágio do Titanic, que aconteceu em 1912 e teve sua primeira versão cinematográfica apenas um mês depois do evento! Claro, rendeu outras adaptações, que sempre foram se alterando com o tempo, mas mesmo o fenômeno “Titanic” de James Cameron – lá em 1997 – inventou personagens no fato real para reproduzir o evento de maneira quase científica.

O “Lincoln” de Spielberg também não foi exato. (clique para ler mais)

Resumo: cinema é arte e às vezes mente para contar uma verdade. Mas… Até que ponto?

Fatos reais não são meros fatos. Pessoas existiram e participaram deles. E pessoas diferentes terão versões diferentes. O recente “Eu, Tonya” já começa com letreiros dizendo que é inspirado em relatos provavelmente mentirosos. Como levar ao pé da letra? E será que professores de história podem mostrar “O Nascimento de uma Nação” aos seus alunos e deixá-los deduzir os erros de interpretação ideológica? Puxo tal tema devido a dois fatos reais (veja só…) recentes: a polêmica envolvendo o seriado da Netflix “O Mecanismo”, idealizado por José Padilha e que narra o desenrolar da Operação Lava Jato, e a disputa judicial da atriz Olivia de Havilland com o seriado do canal FX “Feud: Bette & Joan”.

“O Mecanismo” já chegou polêmico ao gerar controvérsia por apropriar uma frase “temos que estancar a sangria”, notoriamente e historicamente dita pelo senador Romero Jucá, a um personagem que remete ao ex-presidente e futuro-presidiário Lula. E não foram apenas defensores do Lula que chiaram com a “distorção dos fatos”. José Padilha se defendeu. Argumentou que “estancar a sangria” é uma frase de uso comum que qualquer um pode dizer (até o Lula, viu pessoal?) e que o fato do seriado ser obra de arte lhe dá ao direito de realizar alterações narrativas em prol da história. Padilha não está errado. Se você for escrever uma “história inspirada em fatos reais” e reproduzir tudo como de fato ocorreu, é melhor fazer um documentário. Ou se dar ao luxo de criar uma obra muito chata, pois convenhamos, a vida não é tão emocionante quanto o cinema. Mas, repito, qual o limite para a liberdade poética? Pode um roteirista simplesmente inventar o que quiser e dizer que tal pessoa disse?

Entra o caso “Feud: Bette & Joan”. Olivia de Havilland (de “E o Vento Levou…” e sim, aquele “E o Vento Levou…”!) processou o canal FX e o produtor Ryan Murphy por ter colocado “palavras em sua boca”, ao criar uma cena em que “ela” teria dito coisas que “não disse”. De Havilland perdeu a briga judicial. O juiz usou a 1ª emenda da Constituição dos Estados Unidos – sobre liberdade de expressão – e argumentou que a atriz não é “dona” da história narrada no seriado, pois não detém “direitos autorais” sobre fato histórico. Não foi apenas uma decisão sobre “liberdade poética”, mas também que assegura uma coisa bastante óbvia: De Havilland pode não ter dito nada do que “ela” disse no seriado, mas também não tem como registrar em cartório a fala dita. Resumindo: ela é dona de sua história, mas não é.

Duas versões de Olivia de Havilland

É um caso delicado, pois envolve uma lenda viva ficando incomodada por como foi retratada na televisão – em um seriado muito bom inclusive, mas vai lá, a mulher fez “E o Vento Levou…”, ela pode reclamar do que quiser! No caso de “O Mecanismo”, entretanto, é mais complexo. Existem documentos e reportagens que comprovam quem disse aquilo que outro personagem disse. E mesmo que “estancar a sangria” seja uma frase que saia de qualquer boca, Romero Jucá praticamente transformou em slogan de campanha para golpe parlamentar. E, se fosse marca registrada, seria dele. Não do Lula e nem do tio da esquina que vende pamonha. Entretanto… Tem como proibir José Padilha – ou quem roteirizou o texto daquele diálogo específico, que não foi Padilha – de inventar? É o mesmo que reclamar de James Cameron inventando Jack Dawson – e o matando no naufrágio, ainda por cima, efetivamente aumentando a estatística de uma tragédia! (nota: ao menos Cameron foi inteligente o suficiente para criar motivo pelo qual Jack não aparece como um dos mortos “oficiais”, não que isso importe, mas convenhamos é algo bem pensado)

E uma coisa é fato: “O Mecanismo” pode inventar o que quiser, mas não será capaz de tirar de Jucá a fala que ele disse e foi reproduzida incessantemente. Nem que Padilha queira (e não creio que o queira) jogar palavras na boca de pessoas, não é bem assim que a História funciona. Historiadores não se baseiam em arte, mas em estudo. Só que pondero que existem formas mais, digamos, delicadas de abordar fatos recentes. Pois existe uma liberdade em se colocar falas na boca da Cleópatra, mas a Operação Lava Jato ainda está ocorrendo, não custa lembrar. Cito o excelente filme “A Hora Mais Escura“, dirigido por Kathryn Bigelow, em que o roteirista Mark Boal reproduziu a caçada ao terrorista Osama Bin Laden e teve que se apropriar de uma reviravolta história: seu antagonista foi achado e morto na vida real. Portanto reescreveu o clímax e mudou o foco da narrativa. Adaptou a operação com base em documentos oficiais e deixou em aberto o principal. Pois Bin Laden jamais aparece na história; a cena final envolve a protagonista olhando para seu cadáver, mas a câmera jamais mostra o cadáver. Não que Boal estivesse dando asas a interpretação de teorias conspiratórias que davam a morte de Bin Laden como uma farsa, mas deixou no ar um “vai que…”

Será?

O que é muito importante, em se tratando da chamada “liberdade poética”. Se o autor da obra de ficção pode se permitir um “vai que aconteceu isso”, talvez não seria melhor permitir um “vai que não” também? Um pouco de dubiedade parece sensato.

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