Review: “Hereditário” de Ari Aster

Continuo tendo a impressão que o cinema de terror nunca teve uma década tão boa quanto os anos 2010. Talvez alguns prefiram os anos 70 com sua variedade autoral estimulada pela transição do psicológico ao slasher, mas não irei entrar nesse debate. O que importa é esta década atual tem tido multiplicidade de estilos e alta qualidade. Do gótico ao psicológico ao thriller ao comentário ou metáfora social ao bom e velho terror tradicional de sustos. De tudo um pouco e com muitas obras caprichando no roteiro e fazendo bom uso dos clichês do gênero. Dá até para esquecer da fase found footage no meio disso tudo!

Tudo isso só para dizer que “Hereditário” é mais uma maravilha dessa safra e, sei não, talvez seja o melhor.

O filme conta a história de uma família, composta por mulher, marido, filho e filha. A mãe da esposa, nossa protagonista Annie, faleceu recentemente após ficar doente e lutar contra diversas doenças psiquiátricas durante sua vida. Fora outros dramas particulares. Os quatro passam a lidar com o luto quando acontece um outro evento que não posso falar por que é spoiler brabo, mas digamos assim, coisas estranhas passam a acontecer a partir aí. É dificílimo falar da história de “Hereditário” e de seus temas narrativos sem detalhar o que acontece, portanto que esta parte da análise fique por aí: coisas estranhas acontecem com pessoas lidando com coisas ruins.

A estrutura da narrativa em si é cheia de detalhes que irão lhe chamar a atenção – o diretor claramente quer isso. A primeira cena tem uma interessante transição de uma miniatura de uma casa que então converge no enquadramento de um cenário da trama. As miniaturas em si são frequentemente utilizadas em inúmeros momentos para ressaltar estranheza. Acabam se tornando um novo personagem, dando suas cutucadas na plateia até quando não estão lá – ei, essa tomada externa da casa é miniatura ou em tamanho real? Como a primeira cena deixa bem claro, elas estão lá para dizer algo. É para você prestar atenção nas cenas e o que elas representam.

Outros enquadramentos mais teatrais (claramente o cenário da casa é filmado em estúdio, pela forma como a câmera se movimento pelo espaço) e certos cortes muito rápidos também ilustram uma narrativa não convencional. “Hereditário” é lento e marcado pela psicologia dos personagens. E a estrutura do filme, pontuada por bons poucos momentos de verdadeiro terror, representam o conflito central da trama de uma maneira muito inteligente. Novamente: difícil entrar em detalhes sem spoilers. O que importa é que a direção sabe muito bem o que está fazendo e faz com a certeza de que o público vai captar a mensagem. Foi uma grande surpresa para mim descobrir que o diretor e roteirista Ari Aster está estreando nesta função em longa metragens! Sem dúvida um começo para lá de promissor.

“Hereditário” lembra um pouco “O Bebê de Rosemary” de 1968, que também lidava com o psicológico dos personagens enquanto brincava com o imaginário do público. Rosemary está louca ou realmente tem um culto demoníaco querendo fazer um ritual nela? No clássico a resposta ao final fica clara. “Hereditário” deixa tudo em aberto. Existe a possibilidade do sobrenatural ser real, assim como a metáfora do texto. E quem sabe ambos? O fato do filme deixar esta resposta para a interpretação do público é louvável. E o fato de isso tudo ser feito em uma produção muito bem filmada, com boa direção, edição sonora e fotografia – a cena de Annie conversando com uma amiga iluminadas apenas por uma vela é linda! – é realmente um deleite para quem curte o gênero. Não talvez para os fãs de slashers, claro…

O elenco é liderado por Toni Colette, ótima como sempre, mas realmente se superando quando a cena precisa. Ao seu lado temos o surpreendente Gabriel Byrne, um eterno canastrão, aqui atuando com rara sutileza. Repare na cena do clímax em um diálogo entre ele, introspectivo, e sua esposa, uma Colette devorando o cenário, e como ambos atores conseguem se equilibrar em duas formas tão diferentes! O jovem Alex Wolff também está muito bem, principalmente em sua linguagem corporal. E a menina Milly Shapiro faz sua estreia em um papel importante. Ah, e também temos Ann Dowd, e se você já assistiu “The Handmaid’s Tale”, sabe que a gente sempre pode contar com ela para elevar qualquer cena.

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