Review: “Para Todos os Garotos Que Já Amei” de Susan Johnson

Inspirado nas comédias românticas teen dos anos 80 (o texto diretamente cita John Hughes), “Para Todos os Garotos Que Já Amei” é uma adaptação do livro de Jenny Han. Bobinho, água com açúcar, Sessão da Tarde ou qualquer outro eufemismo que você queira utilizar para generalizar filmes com premissas – e execução – simplória, não dá muito para reclamar que ele não seja ao menos sincero. Desde os anos 90 que o chamado “high school comedy” parece ter adotado um tom sarcástico. De “As Patricinhas de Beverly Hills” até “Meninas Malvadas”, o foco sempre foi no humor irônico, não no romance. E mesmo filmes que ao final celebram a descoberta do primeiro amor na adolescência, como “A Mentira”, são essencialmente textos de comédia recheados de ironia. Às vezes, inclusive, satirizando o próprio gênero com base nos clichês de filmes do passado.

“Para Todos os Garotos Que Amei” volta à simplicidade dos anos 80, o que pode ser um defeito e uma qualidade em igual ponto. Convenhamos que, daqui a trinta anos, dificilmente alguém continuará citando ele como “Gatinhas & Gatões”.

Lara Jean é uma garota do ensino médio que vive no mundo da fantasia, nutrindo uma paixão platônica por seu amigo e vizinho (e namorado de sua irmã mais velha) Josh. Para todas as paixonites de Lara, mesmo que inspiradas por beijinhos bobos estimulados pela brincadeira da garrafa – vamos lembrar que ela tem 16 aninhos, né – a fizeram escrever cartas de amor. Nunca enviadas, mas sintomaticamente endereçadas. Seu segredo voa janela afora quando as cartas são remetidas “por acaso” e ela tem que lidar com as consequências do evento.

Quer dizer, mais ou menos. Particularmente achei muito interessante a premissa, da protagonista lidar com suas emoções reprimidas, manifestadas nas cartas. E, sim, o conceito da “cartas de amor” acabam voltando no final. Mas a verdade é que, infelizmente, o conflito em si dura pouco. Dois dos rapazes para o qual ela escreveu cartas, de um total de cinco, não tem respostas no filme. Dos outros três, um é gay e fica de boas. Resta a narrativa focar nos outros dois, sendo um deles Josh – o mais complicado, pela relação com sua irmã e o fato deles já serem amigos – cujo drama simplesmente não é utilizada no filme até o clímax. A história acaba focando em Peter, que namorava a rival (e caricata vilã de saída de “Malhação”) Gen e pede a Lara Jean para eles fingirem estar namorando para criar ciúmes na outra.

O foco na relação dos dois é interessante, só achei curioso como a premissa central do roteiro – tão importante a ponto de ser o motivo pelo qual o filme tem seu título! – é absolutamente descartada por um enredo que não segue nada daquilo adiante. Novamente, com o o texto é bem montadinho, acaba funcionando. “Para Todos os Garotos Que Já Amei” comete o erro de ser demasiadamente óbvio em explorar os dramas centrais de seus protagonistas, que discorrem sobre suas emoções de maneira tremendamente lúcida. Mas, como o público alvo é adolescente, provavelmente a roteirista Sofia Alvarez achou melhor ir direto ao ponto para passar a mensagem otimista e romântica. E, como a personagem de Lara Jean é bem desenvolvida e tem um arco bem definido, dá para tolerar. Novamente: é um filme bobinho, mas que quer sê-lo.

O elenco é encabeçado por Lana Condor (talvez você tenha reparado nela como a Jubileu de “X-Men: Apocalipse”), de descendência vietnamita, interpretando uma garota de descendência coreana… Err… Bem, esquisito, mas não deixa de ser legal ver uma protagonista asiática em gênero sumariamente focado em meninas brancas. Lana não é das atrizes mais carismáticas e passa o filme inteiro sendo sem graça – para a sorte dela, essa é uma das características de Lara Jean. Seu par romântico central é Noah Centineo, que tem todo o carisma que falta nela, então equilibra as coisas. E os dois tem boa química, o que é algo fundamental para uma comédia romântica. Israel Broussard (“Bling Ring: A Gangue de Hollywood”) é Josh, Emilija Baranac (“Riverdale”) é a vilã malévola cruel Gen, Madeleine Arthur a BFF Chris, Janel Parrish a irmã de Lara e John Corbett (de “Casamento Grego”) o pai. O elenco é funcional. Na melhor das hipóteses.

Se desequilibrar, será que cai?

Já a direção… Ah, a direção! Susan Johnson (em seu segundo filme) parece ter dirigido o filme com uma régua. Todo enquadramento é perfeitamente centralizado no ator principal em cena – a ponto de até objetos, como sofás ou portas estarem alinhados milimetricamente ao seu redor. Quando o filme tem dois personagens enquadrados, eles ficam simetricamente opostos, novamente estruturados de maneira absolutamente reta. E até cenas de diálogo intercalados são, claro, perfeitamente simétricos – um personagem sempre alinhado à direita com o outro, portanto, alinhado à esquerda. Contei no máximo umas três vezes em que a câmera se moveu para acompanhar movimentos dos personagens. Se a premissa de Johnson era emular teatro, não deu certo – primeiro por que isso aqui é cinema, segundo por que até teatro tem movimento! E se às vezes é legal ver um enquadramento bem estruturado, a overdose e falta de motivo narrativo para tal deixou tudo quadrado e careta. Parecendo um filme feito em alguma versão cinematográfica do auto-tune. E isso apenas não estraga completamente a experiência por que a história funciona. Mas sem dúvida encareta demais um filme com natural tendência a ser interpretado como careta.

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