Review: “Shadow of the Tomb Raider” para PlayStation 4

Após um bem sucedido reboot que rendeu uma sequência ainda melhor, a nova trilogia Tomb Raider chega ao fim. É chegada a hora de Lara Croft finalmente virar a Tomb Raider ou já não falta mais nada, afinal ela já estava invadindo tumbas enquanto assassinava uma ilha inteira tranquilamente desde 2013, né? De qualquer forma, a franquia que surgiu em 1996 e transformou a heroína em ícone chega a “conclusão” da mais nova reinvenção da personagem em seu 12º jogo (sem contar spin-offs) prometendo algo de novo. Ao trocar a produtora Crystal Dynamics – a cargo da série desde 2006 onde já havia liderado o reboot anterior, “Tomb Raider: Legend” – pela Eidos Montréal  – dos recentes episódios “Deus Ex” – a distribuidora Square Enix anuncia querer variar um pouco.

Ou só está enrolando os fãs enquanto deixa a Crystal Dynamics descansar um pouco…

“Shadow of the Tomb Raider” volta de “Rise of the Tomb Raider” com Lara Croft no México procurando um objeto misterioso. Mas o grupo malvadão Trinity está atrás dele também, claro. Lara chega lá primeiro e soltando uma maldição que irá provocar o apocalipse maia que a humanidade tá aguardando desde 2012! O primeiro passo é um tsunami que mata inúmeras pessoas em uma pequena cidade. Arrasou, hein Croft?

Lara parece determinada a buscar mais objetos para impedir o apocalipse, antes que a Trinity ache eles primeiro e cause o apocalipse de qualquer forma, por que vilões adoram fazer isso. Após uma introdução interessante, questionando os motivos da heroína – ei, Lara, que tal não provocar tsunamis? – a narrativa ignora esse propósito ao mudar de cenário. Infelizmente se torna mais uma aventura com Lara atrás de objetos em uma selva no meio do Peru, enquanto tenta impedir os malvados de destruírem o mundo. É sem graça, cansativo e não leva a personagem a lugar algum. Apesar de um flashback desnecessário para a sua infância e uma tentativa de amarrar o “legado familiar” a seu “destino de tomb raider“, a história não convence. O que Lara aprendeu nessa aventura que ela já não tinha aprendido antes?

Em 2013 Lara era uma sobrevivente. Ok, legal, é uma perspectiva diferente. Em 2015 resolveram botar a garota para continuar as pesquisas do pai, pois para ela encontrar seu “destino” ela tem que voltar às suas origens. Ok… Tá… E agora? Ela vira Tomb Raider por que sim? Por que é bacana? Ou curtiu criar um tsunami que mata pessoas? Lara Croft começou a explorar tumbas por acaso, aí encontrou seu caminho em legado familiar, agora segue seu próprio rumo por que curtiu a ideia. Resumindo assim parece interessante, mas os jogos pulam de um propósito ao outro sem muita lógica. E se “Tomb Raider” e “Rise of the Tomb Raider” ao menos tentaram visualizar Lara Croft em um contexto diferente, “Shadow of the Tomb Raider” já demonstra sinais de cansaço desta interpretação moderna. O filme recente estrelado por Alicia Vikander foi muito mais emfeliz em resumir esse trololó todo em apenas duas horas de história! E longe de mim de ter saudades da Lara dos anos 90 que só queria saber de aventura por que ser badass era o suficiente. Curto minha heroína preferida com um pouco mais de personalidade. Mas a narrativa de “Shadow” não só não conseguiu convencer, como caiu na redundância.

Passado este desabafo sobre o enredo, ao menos nos outros aspectos – convenhamos, aqueles que mais importam em um videogame – o jogo agrada. A jogabilidade é essencialmente a mesma de “Rise”, fora algumas novas habilidades aqui e acolá. Lara explora cenário, mata inimigos, resolve enigmas, encontra algumas tumbas secretas e, de vez em quando, participa da tradicional sequência de ficar correndo de coisas em linha reta. Nada de novo, mantendo o esquema dos episódios anteriores. Se lhe agradou antes, a receita aqui ainda funciona. Os cenários são menos variados (prepare-se para muita repetição de selva e templos) e as cenas de tiroteio são bem menos frequentes. Muita gente reclamou que Lara mata demais nesses novos jogos – esqueceram do massacre que ela provocava com suas pistolinhas na Era PlayStation? – e “Shadow” se preocupou menos com esses elementos. Uma pena, pois o combate continua divertido e as oportunidades stealth tem mais opções de esconderijos e truques. Já o seu ocasional encontro com uma onça perdida será bastante repetido e, infelizmente, esse não é um inimigo muito variado na técnica de enfrentamento.

As sequências de escaladas continuam bastante lineares, mas se você colocar na dificuldade mais alta, as dicas que o jogo lhe dá (como aquelas óbvias beiradas pintadas de branco) somem e assim fica mais desafiante deduzir para onde Lara deve pular. Os enigmas são bem legais, a maioria deles focados em soluções dentro do próprio ambiente, ao invés de ficar tendo que empurrar coisas ou procurar chaves. E as tumbas secretas tem alguns momentos muito interessantes. Além de, claro, serem as tumbas com mais caras de tumba na trilogia. Por fim, se você curte desafios secundários e ficar catando papel perdido embaixo da raiz de uma árvore na beira de um precipício, “Shadow” tem vários deles.

Um elemento novo importante para se destacar são as sequências submersas. Lara já sabia nadar desde o primeiro jogo lá de 96, mas essa habilidade foi pouco explorada nos episódios recentes. No reboot de 2013 ela sequer sabia nadar, coitada, e em “Rise” eram momentos breve e sem graça. Aqui eles são expandidos – mas nada extremamente aberto, como em “Tomb Raider: Underwold” que tinha fases inteiras embaixo d’água – e tem até seus próprios elementos de stealth, onde você precisa se esconder de umas piranhas bem irritantes. A ideia é bem executada, mas bastante limitada e logo torna-se repetitivo. Alguns enigmas subaquáticos teriam sido de grande ajuda. Ou talvez alguns confrontos com inimigos mais poderosos que não envolvesse apenas ficar apertando triângulo para não morrer. Lá em “Tomb Raider II” Lara tinha uma arma arpão usada para enfrentar tubarões em um navio submerso no fundo do mar. Onde foi parar esse tipo de inventividade, hein?

Mas talvez a principal característica que os fãs gostariam de saber é: fez diferença trocar a Crystal Dynamics pela Eidos Montréal? Pois apesar da trilogia anterior ter sido desenvolvida pela empresa californiana, ainda era algo focado no estilo de jogo inventado pela Core Design nos anos 90. A própria Core tentou reinventar a roda com o fracassado “Tomb Raider: The Angel of Darkness” em 2003, mas não deu certo… Coube à Crystal voltar a produzir a mesmisse para trazer os fãs de volta. E em 2013 eles tiveram a oportunidade de criar algo próprio. Por motivos internos não divulgados, a Square Enix resolveu encerrar essa trilogia com a Eidos Montréal. O resultado tem lá suas peculiaridades. Sem dúvida é um jogo que mantém o estilo que a Crystal Dynamics propôs e, por conta disso, pouco arrisca. Mas em certos elementos, como nos ambientes interligados mais desenvolvidos e as side-quests mais elaboradas e com a sua própria narrativa, a Eidos deu um “quê” de Deus Ex a Tomb Raider. E, convenhamos, não é uma mistura tão esquisita, considerando os elementos de RPG e exploração não-linear já introduzidos nos jogos anteriores.

De qualquer forma, criou-se um paradoxo esquisito: a Eidos Montréal tascou pinceladas do seu próprio know-how, mas visivelmente estava limitada a continuar o caminho traçado pela Crystal Dynamics. Com isso, “Shadow of the Tomb Raider” é um jogo que não levanta voo. Termina em um clímax bobo (apesar do chefe final ser muito mais interessante que dos dois episódios anteriores) que sequer parece concluir a trilogia. Não me surpreenderia ver anunciado um quarto episódio da “quadrilogia” a cargo da Crystal Dynamics. Particularmente, preferiria ver a série seguir um novo rumo sob a tutela da Eidos Montréal mesmo. Um pouco de variedade não faz mal, principalmente para uma franquia com seus 22 aninhos já. E como esta nova receita já dá sinal de cansaços, talvez é chegada a hora de explorar novos caminhos. Lara Croft é uma Tomb Raider, afinal de contas!

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