Review: “22 de Julho” de Paul Greengrass

Baseado nos atentados de 22 de Julho de 2011 ocorridos na Noruega, que resultaram na morte de ao menos 76 pessoas, “22 de Julho” pode servir como um bom estudo histórico para entendermos um pouco da situação política atual. O ataque terrorista é mera introdução a narrativa. O filme foca nas consequências daquilo, principalmente na relação do terrorista Anders Behring Breivik com a extrema-direita e a sua consequente ressurgência na Europa ao longo da década.

A história do filme também coloca fundamental importância emocional em um dos sobreviventes, Viljar Hanssen, que sobreviveu com fortes sequelas. Sua relação com a família (o irmão também estava no local dos ataques) e sua reabilitação formam o laço humano de uma história com toques desumanos. O ator que vive Hanssen, Jonas Strand Gravli, fez um bom trabalho no papel. Mas creio que o roteiro merece destaque por não cair no melodrama e reforçar a superação de Hanssen como um motivo para olhar para a tragédia com olhos menos desesperançosos. Repare no corte para a última cena do filme: da cela de Breivik para Hanssen vislumbrando os horizontes montanhosos de sua cidade. Sutil, mas muito eficaz.

A direção é de Paul Greengrass, famoso pela série Bourne do qual ele dirigiu três filmes. Sua experiência em retratar com meticulosa reprodução tragédias recentes já pode ser vista em “Vôo United 93”, sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001. Mas, como já dito, os ataques são apenas o passo inicial. Greengrass foca na história de Hanssen e no subsequente julgamento de Breivik, com um certo destaque para a relação com seu advogado – nesse caso particular seu texto foi menos fiel a história real, pelo que estudei. De qualquer forma, o foco nas consequências do atentado foram uma escolha sensata.

Breivik é um ativista conservador ligado a extrema-direita, já foi ligado a um partido anti-imigração e defende o fechamento das fronteiras para imigrantes. Após explodir uma bomba no distrito do governo em Oslo, foi para uma ilha nas proximidades (Utøya) onde estava acontecendo um encontro da juventude do Partido dos Trabalhadores. Armado de armas pesadas, abriu fogo contra adolescentes aos berros de “comunistas” e “liberais”. Em seu julgamento, fez a saudação nazista. Pregou contra o multiculturalismo que “invadia” a Europa e “usurpava” os direitos dos indígenas do continente – engraçado europeu que reclama disso, mas nunca reclama de quando eles invadem países dos outros, né? Aparentemente colonizar tá valendo, mas Deus livre guarde alguém fazer o caminho inverso! Breivik chamou a atenção da imprensa na época (não custa lembrar, 2011 foi ontem), mas sua relação com a extrema-direita passou batida. Greengrass resolveu fazer alguns paralelos, seja com a relação com os grupos de discussão de videogame (que vieram a criar o Gamergate) ou a ascensão desse extremismo em particular (incluindo dos EUA) enquanto o ocidente se preocupava apenas com o terrorismo islâmico.

E perceber onde chegamos em apenas sete anos é fundamental para entender a situação atual e “22 de Julho” consegue propor uma boa reflexão. Aos interessados no drama humano, a história também cumpre um bom papel. O elenco também conta com Anders Danielsen Lie, Jon Øigarden, Seda Witt e Maria Bock.

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