Review: “Apóstolo” de Gareth Evans

Filme de terror feito diretamente para Netflix, “Apóstolo” parece ser uma reinterpretação moderna de “O Homem de Palha” de 1973 (mas pouco a ver com seu remake “O Sacrifício” de 2006) sobre os problemas do cultismo religioso. Com elementos visuais um pouco mais atuais e uma certa dose de ação, o filme parece tentar algo diferente com o familiar. Infelizmente, fracassa em ambos.

Thomas Richardson é um ex-padre que abandonou a batina após passar por um evento terrível e pedir ajuda a seu Deus cristão – que não fez nada por ele. Ao voltar para sua família, descobre que sua irmã foi sequestrada por uma seita fanática que está isolada em uma ilha. Por algum motivo, esse “padre aventureiro” (que é ótimo em luta corpo a corpo, inclusive) aceita a missão, apesar do roteiro não dar nenhuma indicação emocional para isso. Sua relação com a irmã não é explicada, sua relação com a família é definida como algo bem ruim, e ele visivelmente está passando por alguma forma de stress pós-traumático – coisa que não seria muito útil ao lidar com pregadores pagãos malucos, né?

Mas, cá estamos e Richardson segue para a ilha… Lá ele interage pouco com o vilarejo e forma uma certa amizade com Andrea – a filha do líder local, uma moça moderna que parece destinada a sair de lá. E o tal líder, que atende pelo nome de Profeta Malcom, parece desconfiar de um intruso. No meio de tanta informação, a história insinua alguns mistérios sobrenaturais e a relação do povoado com uma certa Deusa. E outros personagens menores se envolvendo em suas próprias subtramas.

Nada se resolve muito bem. O primeiro ato é ótimo em introduzir o mistério e o contexto da relação dos personagens. Mas esses desenvolvimentos são freados a partir do segundo ato, em que nenhuma relação segue em frente – e muito menos chega a ser concluída ao final. Algumas reviravoltas, traições e mortes são feitas para movimentar a trama. Mas os elementos de mistério seguem sendo atirados desconexamente. E a relação do povoado com a Deusa é muito mal explicada. Quem ela é de de onde ela veio poderia não importar, se o filme não fizesse tanta questão de introduzir elementos misteriosos ao redor dela – como seu guarda-costas, praticamente um vilão da série Silent Hill, mas sem propósito narrativo algum.

O roteiro e a direção são de Gareth Evans, responsável pela franquia “Operação Invasão”. Seus toques de ação aparecem, em cenas de luta muito bem coreografas e com uma edição ágil e vibrante. Um pouco mal colocado para um filme de terror supostamente psicológico, mas ok, funciona. E ele tem um bom olhar para cenas de horror, com algumas sequências visualmente interessantes. Seu maior problema está no texto, muito mal estruturado e que perde o fôlego rapidamente. “Apóstolo” parece focado demais em “ser esquisito” para assustar, o que não funciona, pois logo certas questões aparecem na cabeça do espectador – que passa a querer entender um pouco daquilo. Se a sua inspiração foi de fato os videogames Silent Hill, ele deveria ter prestado mais atenção em como aquela série usa o “esquisito” para justificar dilemas psicológicos. Aqui, tudo fica muito perdido.

O filme é encabeçado por Dan Stevens, de “Downton Abbey”, mas que demonstrou ser um bom protagonista de ação desde “O Hóspede”. Ele faz o melhor com o que lhe é dado – que basicamente consiste em parecer atormentado o tempo inteiro. Lucy Boynton (“Sing Street”) é Andrea, uma personagem que promete ser interessante, mas logo fica estagnada. Michael Sheen é o Profeta, o único personagem que se transforma em algo ao longo do filme – e o ator, claro, dá conta do recado. Mark Lewis Jones é um vilão interessante e só. O elenco faz o que pode, mas o texto não lhes oferece muito.

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