Review: “A Favorita” de Yorgos Lanthimos

Seguindo a tradição dos famosos dramas de coroa que existem desde sempre, inicialmente inspirados em Shakespeare (que tava lá para acompanhar o vuco-vuco da Era Elizabeth I), que o cinema aproveitou para explorar todas as fofocas dos inúmeros monarcas da Inglaterra, “A Favorita” conta um período em particular durante o breve reinado da Rainha Anne durante o Século XVIII. Anne, que os historiadores de língua portuguesa chamam de Ana (mas eu tenho preguiça de traduzir nome de monarca), participou da Guerra da Sucessão Espanhola – que foi uma bagunça envolvendo Espanha, França, Inglaterra e um outro reino que veio a se tornar a Alemanha séculos depois – e ficou famosa por ter inaugurado uma política bipartidária em seu governo, que ajudou a aumentar a força do parlamento perante a Monarquia.

“A Favorita” foca na relação de Ana com Sarah Churchill – sim, antecessora daquele Winston Churchill, e também da casa dos Spencer que veio a produzir a Lady Diana! – e mais tarde com Abigail Masham – que não produziu nenhum líder político futuro não, calma. Curiosamente, todos nomes femininos, apesar de passar em um período em que mulheres não tinham muito direito a exercer poder algum (a não ser quando eram Rainhas e, geralmente, por falta de sucessor ao trono mesmo). E reparem como linkei alguns artigos do Wikipedia sobre isso tudo, pois, como era de se esperar de um drama de coroa, a história de “A Favorita” envolve muito de bastidores políticos. Só que, neste caso, todos encenados por mulheres.

A direção é de Yorgos Lanthimos, que fez o sensacional “O Lagosta”, e ele gosta de filmar uns filmes esquisitos mesmo. “A Favorita” não tem nada de “A Outra”, muito menos de “The Crown”, mesmo que seja um pouco mais convencional que seus trabalhos anteriores. Apesar de ser aparentemente fiel a história real (não sou historiador para afirmar nada), o tom da trama tem um quê de absurdo. Muitas vezes enfatizados pelo timing cômico de alguns diálogos, mas geralmente marcado pelo uso de lentes pouco tradicionais no gênero para enquadrar alguns frames de maneira bastante inusitada. Sei não, mas às vezes fiquei com a impressão de que a câmera procurava emular o ponto de vista dos coelhos (que são bastante presentes em inúmeras cenas). Às vezes pareciam reproduzir câmeras escondidas filmando os bastidores do poder. Outros enquadramentos seguindo os personagens por corredores, sempre atrás deles, dão uma carta agilidade na transição de cenas. É tudo meio maluco, mas com sentido. Gostaria de destacar também a fotografia, bastante naturalista (as cenas noturnas são belíssimas!) e a edição, que faz algumas transições muito interessantes.

Um exemplo dos enquadramentos inusitados.

“A Favorita” também tem toques de crítica social aos absurdos dos abusos econômicos da monarquia. Mas o foco é na relação das três personagens centrais, em como uma usa a outra para atingir algum objetivo. Inicialmente a Rainha Anne pode parecer um pouco alienada, mas perceba que quando ela quer alguma coisa, ela sabe muito bem usar o poder da coroa para isso. Não diria que “A Favorita” seria um interessante estudo sobre o período deste reinado em particular, mas como exercício de jogo de poder é muito bem estruturado. E, novamente, colocando apenas mulheres no protagonismo. Os homens que brevemente aparecem são apenas peças do xadrez dessas três.

A Rainha Anne é interpretada por Olivia Colman, de “Broadchurch” e “O Lagosta”. Uma sensacional atriz que tem grande facilidade em transitar por emoções diferentes na mesma cena e aqui seu diretor faz bom uso disso. Mas seus melhores momentos de atuação, mais sutis, estão ao final, quando Anne começa a piorar de saúde. Rachel Weisz, que também fez “O Lagosta” (e um bando de filme bom desde que despontou vinte anos atrás na baboseira “A Múmia”) também exercita bem sua figura de poder como Sarah Churchill. Emma Stone (“La La Land”) completa o triângulo como Abigail, inicialmente perdida em seu papel do Palácio, mas logo dando um jeito de encontrar seu caminho. Nicholas Hoult (dos últimos X-Men) e Joe Alwyn (“Operação Final”) são os homens que tem interesses particulares, mas acabam sendo apenas utilizados pelas mulheres que tem interesses particulares seus próprios interesses particulares. Talvez “A Favorita” seja um drama de coroa feminista por acaso. Mas o resultado está aí, de qualquer forma.

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