Review: “Vidro” de M. Night Shyamalan

Sequência do competente “Fragmentado“, “Vidro” vem com um objetivo ainda mais ousado que seu antecessor: ser uma sequência de “Corpo Fechado”. Filme de 2000 lançado pelo diretor M. Night Shyamalan logo após a explosão do fenômeno “O Sexto Sentido”, ele ganhou um ar de cult com o tempo – principalmente entre a comunidade nerd – pelo seu interessante estudo de personagem ambientado em um universo em que super-heróis de quadrinhos existem. E, lembrando, chega “Vidro” para continuar isso. Sendo sequência de “Fragmentado”. Que não explora nada disso. Hmmm…

Por que não vejo problema nenhum em Shyamalan continuar, mesmo que com 19 anos de atraso, a história de “Corpo Fechado”. Particularmente acho que aquele filme encerrou o que tinha para contar. Mas ok, dá para ir além… Só que antes de continuar, o roteirista e diretor fez “Fragmentado”, que só revela ser uma sequência de “Corpo Fechado” nos 30 segundos finais, em uma reviravolta que em nada afeta a trama que antecedeu. Os fãs podem ter curtido a revelação, mas convenhamos, que diferença ela fez para a narrativa de uma garota vítima de um psicopata? Aí chegamos em “Vidro” e o texto quer misturar ambos filmes – absolutamente diferentes – em uma única conclusão coesa. Não deu certo.

David Dunn, o herói de “Corpo Fechado”, segue por aí caçando bandidos apagando a luz da sala deles e lhes dando uns tapas. Seu filho o ajuda, sendo o Oráculo do seu Batman. Até que Dunn resolve procurar A Besta, o vilão de “Fragmentado” que sequestrou novas vítimas. Em um confronto pouco interessante (com uns enquadramentos muito mal bolados) os dois acabam sendo recuperados por um exército liderado pela Dra. Staple, que os leva para um hospital psiquiátrico onde também está o Sr. Vidro. Staple quer provar para os três que eles não são personagens de quadrinhos, mas apenas pessoas com transtornos mentais.

Essa questão básica – a médica conversando com seus pacientes – é a chave dos problemas de “Vidro”. Por que todos os diálogos são muito, mas muito chatos. E parecem não levar a narrativa a lugar algum. Reparem como o Sr. Vidro não faz nada por dois atos inteiros do filme. Ou mesmo Dunn, o tradicional protagonista (acompanhamos todo o primeiro ato do seu ponto de vista). Histórias foram feitas para mostrar os personagens agindo nelas, ativa ou passivamente, mas fazendo alguma coisa. E ninguém faz nada. O quatrilho apenas conversa. Também somos obrigados a acompanhar a trama do filho de Dunn, da mãe de Vidro e de Casey, a vítima da Besta que aparentemente tá de boas em ter sido sequestrada. E, novamente, nada disso leva a nenhum acontecimento em si! Temos um confronto final no clímax, que envolve uma lutinha bem sem graça (mas ok, esses não são heróis da Marvel explodindo coisas) e uma conclusão tremendamente insatisfatória para os personagens. Nenhum dos três aprendeu nada com os eventos da narrativa, por que nada aconteceu. Nos cinco minutos finais tem uma reviravolta – claro – que amarra bem a trama de “Corpo Fechado”, mas não parece algo a qual o filme inteiro estava levando. É forçado e parece que “Vidro” existe apenas para justificar seus minutos finais. Como um epílogo de duas páginas de quadrinhos que Shyamalan resolveu contar em quatro horas de projeção.

Se Shyamalan demorou 19 anos para lançar uma sequência de “Corpo Fechado”, poderia ter preparado algo além de “cinco minutos interessantes precedidos por 2 horas de nada”. E o problema não é o ritmo – “Corpo Fechado” também era uma história lenta! – mas sim o fato de nada de interessante acontecer. Entendo que o diretor quis fazer algo diferente de ambos filmes, mas com isso acaba não agradando ninguém. Os fãs de “Corpo Fechado” com certeza ficarão frustrados com a conclusão. Quem curtiu “Fragmentado” não verá nada de familiar aqui. “Vidro” peca em querer ser algo diferente que sucede duas coisas completamente diferentes entre si. Acaba formando uma trilogia sem coesão alguma.

Bruce Willis volta (apesar da cara de sono) ao papel de David Dunn, que lá em 2000 foi uma boa atuação de um ator que ainda tava tentando atuar. Aqui ele tem muito pouco para fazer – apesar de ser o protagonista! – portanto nem se esforça. Já o ator que leva o título do filme faz menos ainda. Samuel L. Jackson tem lá seus momentos no clímax, mas fica quase 1h30 sentado sem falar – em uma narrativa completamente amarrada por diálogos. Eu vejo que o filme se chamar “Vidro” faça menos alusão ao personagem, Sr. Vidro, e mais a uma “realidade” sendo estraçalhada. Ao menos assim interpretei. Não deixa de ser frustrante ver Jackson tendo tão poucas oportunidades ainda assim. James McAvoy tem um personagem muito mais legal para curtir e o faz com louvor, demonstrando o mesmo talento que havia mostrado em “Fragmentado”. Anya Taylor-Joy, sua vítima, também volta, assim como Spencer Treat Clark, o filho de Dunn. A excelente Sarah Paulson vive a Dra. Staple, de uma certa forma a antagonista da história, mas a sua personagem não tem trama alguma. Infelizmente ela só está lá para dizer que os protagonistas estão errados. Em nenhum momento o roteiro tenta explicar por que ela acha isso – fora o “por que sim” ou “por que eu devo”. Um belo desperdício de talento.

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