Review: “Poderia Me Perdoar?” de Marielle Heller

A escritora Lee Israel fez um certo sucesso como autora de biografias nos anos 80, conseguindo ao menos um best-seller do The New York Times, antes de cair no esquecimento. Alcoólatra, solitária, falida, sem conseguir produzir nada de novo para se sustentar, ela passa a forjar cartas de célebres autores para vender no mercado de colecionadores e juntar dinheiro. “Poderia Me Perdoar?” me lembrou um pouco o recente “Eu, Tonya“, como narrativa sobre uma mulher desesperada querendo um lugar ao sol buscando meios ilegais para isso. Ambos não passam a mão na cabeça de suas criminosas, mas questionam o que levaram elas a tal caminho – apesar do talento, uma sociedade que não lhes leva ao sucesso.

Essa visão sobre erros reais pode vir a ser fascinante. Ainda assim, o mundo atual parece mais fascinado em entender crimes cometidos por homens (como as inúmeras biografias de serial killers ou assassinos em geral) do que quando mulheres cometem algo menor – como Israel, que forjou cartas de artistas, deu prejuízo financeiro de algumas centenas de dólares, mas não feriu ninguém. Uma das vítimas da fraude, uma dona de livraria em Nova York, reconheceu que a forjadora “escreveu ótimas cartas” falsas. O que, novamente, pode não trazer o perdão que Israel pede (o título do filme é tirado de sua autobiografia publicada em 2008), mas não deixa de ser uma base interessante a se explorar.

O filme não assume um estilo eclético e assumidamente paradoxal como “Eu, Tonya”, e emula mais uma tradicional e realista biografia. Reforça que a protagonista sabe o que está fazendo e percebe os erros – seria culpa ou receio de ser pega no flagrante? Explora sua relação com um amigo tão falido e desesperado quanto ela. Seu afeto por seu gato doente e como ela se identifica mais com ele do que com humanos. E trabalhar em um mercado que paga milhões adiantado para contrato com Tom Clancy, mas não lhe rende um trocado para simplesmente sobreviver. Mulheres não são valorizadas em qualquer ramo e se elas não tem uma postura social “adequada” (simpáticas, falantes, amáveis, aquilo que o público adora ver em entrevistas) sofrem ainda mais discriminação nas oportunidades. Israel viu oportunidade em crime, assumiu a culpa com orgulho e pagou a sentença.

“Poderia Me Perdoar?” não é um filme altamente memorável, mas é justo com sua protagonista – sem, novamente, nunca passar a mão em seus crimes; apenas apontando algumas hipocrisias sociais. É uma história simples que serve para bons argumentos, mas nada além. A direção é de Marielle Heller (“O Diário de uma Adolescente”) que usa muito a fotografia a seu favor para dar um ar obscuro e realista ao cenário nova-iorquino. Melissa McCarthy, a eterna Sookie de “Gilmore Girls”, segue mostrando que seu talento vai muito além da comédia e carrega a personagem com uma forte sinceridade. Ao seu lado temos Richard E. Grant, ator que frequentemente pega papeis menores para se destacar, aqui aproveitando a oportunidade para brilhar como u colega tão desesperado quanto sua protagonista.

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