Review: “Velvet Buzzsaw” de Dan Gilroy

No que parece ser uma real moda nesta década para o cinema de terror, “Velvet Buzzsaw” segue a “tendência” de usar um gênero famoso por sustos para explorar outra coisa. Se “Hereditário” usou possessão para falar sobre doenças psiquiátricas e “Corra!” usou o suspense para falar de racismo, esta nova produção da Netflix parece querer usar as ferramentas do slasher para falar sobre… A cultura da arte? Pois é. O resultado é meio esquisito, mas vou dar o crédito ao roteirista e diretor Dan Gilroy em tentar algo inusitado.

O filme não tem um protagonista claro, mas inicialmente somos introduzidos ao crítico de arte que adora falar como se estivesse constantemente escrevendo uma análise Morf Vandervalt. Ele tem boas relações com a dona de uma galeria, Rhodora, e com uma curadora de museu, Gretchen. Os três são as figuras mais excêntricas da narrativa, cheios de maneirismos e comportamentos questionáveis. Também somos introduzidos a Josephina, que após encontrar um vizinho morto no seu prédio, descobre que ele era um pintor nada famoso que deixou para trás inúmeras obras. E um gato. Se você prestar atenção, o gato é importante.

Josephina mostra as pinturas para Morf, que fica encantado e atordoado ao mesmo tempo. E convence Rhodora, igualmente fascinada, a expor esse novo artista em sua galeria – e, claro, fazer uma fortuna como a nova descoberta do mundo da arte. Outros personagens, como uma pobre secretária que não consegue manter um emprego por mais de uma semana, ou um artista em decadência, também criam relações com as pinturas. E, à lá slasher, cada um deles vai morrendo. Um por um, sempre de uma maneira excêntrica e criativa. Convenhamos que a gente sempre assistiu “Sexta-Feira 13” ou “Pânico” para ver as mortes mais bizarras possíveis, né? Nenhum slasher que se preza mata suas vítimas com um simples tiroteio e “Velvet Buzzsaw” segue esta fórmula.

E, por trás disso tudo, parece existir uma crítica – ou uma sátira – sobre o mundo da arte. A cultura de apreciar obras excêntricas, adquirir uma tremenda relação emocional com uns sacos de lixo jogados no chão; quando na verdade é apenas lixo mesmo que alguém esqueceu de pegar. Uma das vítimas, ao ser encontrada morta e ensanguentada na galeria, é confundida com uma performance. O texto parece ter algo bastante cínico a dizer ao público das galerias de arte contemporânea. Mas também à comercialização da arte, de vender um trabalho de artista por milhões, quando às vezes ele poderia ter sido encontrado por cinco dólares em um mercado de pulgas. Sem querer estragar surpresas, mas o assassino (assumidamente sobrenatural) de “Velvet Buzzsaw” parece querer vitimizar justamente aqueles que fazem carreira não com a arte, mas apesar da arte.

Mesmo com isso tudo, Dan Gilroy não conseguiu construir um filme de terror eficaz. Ok, sua proposta era muito mais para criticar do que para assustar, mas “Corra!” conseguiu manter sua dose de suspense e mistério muito bem. “Velvet Buzzsaw” não assusta nem surpreende nunca. Suas mortes são criativas, mas óbvias dentro do contexto da cena – você sabe muito bem o que vai acontecer assim que fica claro que algo irá acontecer. Gilroy foi muito mais feliz ao explorar o gênero noir para fazer uma crítica ao business jornalístico no excelente “O Abutre” do que aqui. Ainda assim, apesar de um resultado regular, ao menos o filme merece crédito por ser algo diferente. Ironicamente, como as obras esquisitas que o texto satiriza.

O elenco todo está muito bom e afinado, mas não tenho muito para elaborar sobre nenhum papel, então apenas listarei todo mundo que aparece: Jake Gyllenhaal (que estava mais assustador em “O Abutre”), Rene Russo (idem), Toni Colette (do supracitado “Hereditário”), Zawe Ashton (“Wanderlust”), Natalia Dyer (“Stranger Things” e no papel mais azarado do filme), Tom Sturridge (“Na Estrada”) e John Malkovich.

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