Review: “Resident Evil 2” para PlayStation 4

Para muitos pode parecer ontem, mas não foi. Lançado no influente ano de 1998 (que teve “The Legend of Zelda: Ocarina of Time”, “StarCraft”, “Half-Life”, “Unreal” e “Metal Gear Solid”), “Resident Evil 2” já está tão velho que tem idade para beber. Considerado um clássico, não foi tão influente quanto seu antecessor, a ponto de popularizar um gênero que se tornaria absolutamente mainstream de imediato, mas é muito querido pelos fãs pelo simples fato de ser muito bom. E envelheceu bem! Mas isso não significa que a indústria de videogames iria deixá-lo quieto, muito menos a Capcom, né? Pois eis que ela atendeu a um pedido dos fãs que, desde 2002 – empolgados com o remake do primeiro “Resident Evil” para GameCube – fantasiam em jogar um dos seus clássicos favoritos com gráficos modernos. E essa oportunidade chegou.

Diferente do remake de “Resident Evil” (também disponível nos videogames atuais com uma remasterização em HD muito competente), este “Resident Evil 2” não é uma reprodução do jogo original com gráficos modernos. Convenhamos, seria o suficiente, e muita gente sente falta do estilo tradicional que fez fama na franquia – câmera fixa para forçar o suspense. Influenciados por “Resident Evil 7”, que mudou a perspectiva para a primeira pessoa para dar foco no horror, a Capcom tentou uma visão diferente. E se encontrou emulando a perspectiva de “Resident Evil 4”, que focou mais na ação e rumou os episódios seguintes da franquia (inclusive spin-offs) para um estilo bem popular antes do vergonhoso “Resident Evil 6” forçar uma mudança. Portanto eis um remake inspirado em “Resident Evil 2”, com a câmera de “Resident Evil 4” e o clima de “Resident Evil 7”. Tem como essa mistura dar certo?

Bem, se você só pega ingrediente bom, tem que se esforçar muito para errar na receita.

E eu senti falta da primeira pessoa de “Resident Evil 7” – achei que a mudança de perspectiva fez um bem danado a série. De qualquer forma, por mais “lugar comum” que a câmera em terceira pessoa possa ser, o fato é que este jogo aqui está mais próximo do último episódio da saga do que com o “Resident Evil 4”, cuja inspiração é apenas imediata. Na verdade, fora a presença de Leon Kennedy e seu cabelo bizarramente perfeito para quem está sendo atacado por zumbis, “Resident Evil 2” em nada lembra o clássico de 2005. O clima todo é de terror, com nenhum espaço para ação desenfreada – nem mesmo no clímax – e o foco no survival horror ao invés de tiroteios irá agradar tanto aos fãs das antigas quanto quem curtiu “Resident Evil 7”.

Relembrando a história: o jogo se passa em 1998, na cidade de Raccoon City, durante uma epidemia do vírus G – uma nova versão do vírus T que se espalhou pela mansão Spencer alguns anos antes – que transformou a cidade inteira em zumbis. Leon Kennedy está indo para lá para começar seu primeiro dia como policial, enquanto que Claire Redfield vai procurar seu irmão, Chris, que desapareceu depois que sobreviveu ao incidente da mansão. Ambos se esbarram, prometem se encontrar na Delegacia de Polícia, mas nunca conseguem por que existe portas fechadas e janelas que somente os zumbis são capazes de quebrar, sabe… Tudo isso, claro, apenas motivo para os protagonistas passarem por aventuras “diferentes” enquanto lidam com seus próprios personagens coadjuvantes: ele interage com a misteriosa Ada Wong, ela com a pequena Sherry Birkin.

Locais familiares…

O jogo permite ao jogador escolher duas campanhas, uma jogando com cada protagonista. Ambos seguem a mesma rota, mas a história muda. Ao terminar a aventura, o jogador pode seguir por uma “2nd run” com o outro personagem. Esta campanha é mais breve e com enigmas diferentes, mas é essencialmente a mesma coisa, fora um ou outro cenário diferente. No final das contas, seja jogando com Leon ou Claire, na primeira ou segunda vez, a experiência é basicamente a mesma, os enigmas são iguais, os inimigos também – apenas o chefão final é outro. As armas ao menos mudam. Não chega a ser frustrante (o original de 1998 fazia a mesma coisa), mas talvez teria sido legal se a Capcom aproveitasse a oportunidade para realmente criar duas campanhas diferentes. Afinal ela fez isso até em “Resident Evil 6”, apesar de serem histórias que pouco se cruzavam. E se Leon ficasse apenas na Delegacia de Polícia e esgotos, enquanto que Claire explorasse outras áreas da cidade – como a breve sequência no orfanato para salvar Sherry mostra? Ambos poderiam se encontrar no laboratório através de rotas diferentes, como a própria Jill Valentine o fez quando se aventurou em “Resident Evil 3” – história que se passa em paralelo a esta, na cronologia da série.

As campanhas também são curtas. Terminei minha primeira aventura (com Leon) sem correr muito em 7 horas e quando joguei com Claire deu para fazer tudo em menos de 5 horas. E o jogo tem extra para quem terminar em menos de 4 horas, portanto o foco na rapidez é proposital. Como “Resident Evil 2” é um jogo que convida você a jogar novamente, a curta duração é justificava. Ainda assim, insisto, e não estamos mais em 1998: seria legal ver Leon e Claire passarem por aventuras diferentes. Fora isso, o jogo apresenta dois modos extras quando você termina a campanha central, ambas atualizações do oferecido no original: um modo chamado “4th Survivor”, em que você controla o mercenário Hunk, e o “Tofu Survivor”, uma paródia da mesma aventura na qual você controla um pedaço de tofu – considere isso uma relíquia do humor dos anos 90. Além disso, a Capcom promete novas atualizações para os próximos meses, o que é sempre bem-vindo, mas duvido que seja algo substancial.

… outros menos.

Em aspectos mais técnicos, a jogabilidade está muito precisa, mas tem seus problemas. Para tornar os zumbis mais desafiadores na terceira pessoa (lembrando que os jogos da franquia que usaram essa perspectiva geralmente focavam na maior quantidade de inimigos), eles se tornaram mais resistentes aos tiros. Primeiro que eles raramente morrem, mesmo quando caem. Podem ficar deitados no chão, mas na próxima vez que você retornar a sala, eles se levantarão novamente. A única garantia de derrota é quando suas cabeças explodem. Mas ainda assim, não é fácil. Eles se movem muito, é bem mais fácil errar a mira do que em “Resident Evil 4” e às vezes a maldita da cabeça simplesmente insiste em não explodir! Pode ser meio frustrante gastar dois pentes inteiros da sua pistola em um único zumbi. Faz parte da experiência de “sobreviver ao horror”, mas parece menos uma tentativa de tornar o jogo mais difícil e sim de torná-lo mais frustrante. Desviar dos zumbis e, principalmente, dos chefões não é muito fácil. Faltou um botão de esquiva.

Outro elemento que pode irritar é o “exterminador do futuro” que atende pelo nome de Mr. X. Um novo modelo do Tyrant (o último chefão do primeiro Resident Evil), ele aparece na delegacia de polícia após uma sequência específica e passa a ficar lhe perseguindo. Ele simplesmente não pode ser derrotado, atirar nele é um desperdício de munição e, mesmo quando ele cai e fica de joelhos – granadas são muito eficazes nisso – é por um breve período. Sua perseguição é constante e, sim, garante bons momentos de puro terror. Principalmente quando você ouve seus passos se aproximando! De qualquer forma, torna mais chato de explorar o cenário e sem dúvida irrita quando envolve você precisa resolver algum enigma no ambiente (tive esse problema com um na biblioteca) e o insistente resolve aparecer. Também não existem muitos locais seguros, o que torna a experiência verdadeira desafiadora. Mas, insisto, um pouco irritante… Seria muito mais interessante se ao derrotá-lo brevemente ele ficasse caído no chão por mais do que alguns segundos.

Os lickers são inimigos interessantes pois podem ser evitados com silêncio.

Fora isso, o ritmo do jogo não oferece muitas frustrações. Os chefes são simples, mas memoráveis. Os inimigos, além dos zumbis, são todos familiares: os famosos lickers, os ágeis cachorros infectados, até os “homens planta” voltam (mas em versões mais humanoides que no original). Cada um deles requer uma forma de enfrentamento diferente e o jogo oferece uma justa variedade de armas para lidar com cada situação. Os enigmas são de fácil solução, não irão lhe fazer ferver a cabeça, e existem inúmeros segredos espalhados pelo cenário, para quem estiver disposto a procurar. De forma bastante objetiva, a campanha centra de “Resident Evil 2” é muito divertida e praticamente tão memorável quando a experiência criada em 1998, apesar de alguns problemas que podem ser menosprezados.

Os gráficos também são muito bons, principalmente os efeitos de luz, essenciais na criação da atmosfera de terror. Outro destaque importante vai para a parte sonora, focada no silêncio e barulhos de ambiente. Impossível não entrar no clima do jogo se você se permitir jogar sozinho em um quarto escuro! “Resident Evil 2” não tem momentos de sustos tão bons quanto “Resident Evil 7” (apesar do Mr. X colaborar bastante), mas sem dúvida rende alguns sustos e suspenses. Quem curtiu o clima blockbuster de ação da trilogia “Resident Evil 4-5-6” tem sempre esses jogos para retornar. Seguindo o aprendizado do jogo anterior, é bom que a Capcom esteja focando sua icônica franquia de terror naquilo que ela geralmente faz melhor: ser terror. O fato da experiência ser plenamente divertida é um reforço de que a escolha tem sido certeira.

Spoiler alert para um chefão de 1998?

Após a surpresa que foi “Resident Evil 7” e bem-vinda atualização de um querido clássico, é fácil estar novamente empolgado para ver onde a série irá em seguida.

(tô apostando em um remake de “Resident Evil 3″…)

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