Review: “Nós” de Jordan Peele

Com o surpreendente sucesso de público, crítica e prêmios de “Corra!“, o diretor e roteirista Jordan Peele parece ter descoberto que fazer terror com simbolismo é sua praia. Em seu trabalho seguinte, “Nós”, repete a dose. Apesar de não seguir exatamente o mesmo rumo… Se “Corra!” usava do horror para falar sobre racismo e opressão, ainda que usando de recursos tradicionais ao gênero, “Nós” é mais aberto a interpretações e é intencionalmente mais confuso.

Adelaide é uma mulher com um forte trauma na infância – ela se perdeu dos pais em um parque de diversões e teve um encontro com uma outra criança idêntica a ela. Mesmo como adulta, a experiência ainda lhe causa sensações estranhas. Agora ela está com sua família em uma casa de praia na Califórnia e resolve visitar justamente a mesma praia onde tal evento ocorreu. Logo algumas figuras misteriosas passam a ameaçá-la. Evidentemente a história de “Nós” vai muito além disso (narrei os primeiros 15 minutos) e, quanto menos você souber, melhor para deixar sua imaginação.

Pois um dos benefícios do texto de Jordan Peele (que ganhou o Oscar de roteiro original por “Corra!”) é o bom uso da narrativa para falar sobre coisas além do que o filme está narrando. As figuras misteriosas que ameaçam Adelaide e sua família, o que elas representam? Poderiam ser apenas pessoas esquisitas com passado misterioso a ser desvendado. Mas logo no momento que a protagonista pergunta “quem são vocês?” e a líder responde “nós somos americanos”, o texto está deixando bem claro que tem uma questão política aí. Entretanto, apesar da origem dos vilões ser muito bem explicada ao final, o simbolismo é menos. Peele deixou muito mais a cargo do espectador desta vez.

Sem entrar em spoilers, mas é evidente que “Nós” está falando de divisões. Em determinado momento na história, uma literal linha passa a dividir os Estados Unidos. E, bem, o nome original do filme (“Us”) também pode ser visto como a sigla U.S. – United States. A história evidentemente está falando de raiva e violência, assim como de sentimentos sombrios que ficam escondidos da superfície. Máscaras são frequentemente utilizadas por um personagem. Reparem como inúmeros enquadramentos focam no reflexo dos personagens em superfícies de vidro. Sombras também são focadas em determinados momentos. E, novamente, evitando spoilers, mas noem determinado momento do clímax, note como um grupo fica separado do outro grupo por uma escada rolante que apenas desce, não sobe.

Existe uma clara intenção de se falar sobre divisão, que pode vir a ser pessoal (nossos monstros internos que abafamos), social (uma classe sendo subjugada por outra) ou ideológica (marcada pelo bom e velho “nós contra eles” do debate político atual). Jordan Peele jogou peças. Cabe ao público encaixá-las. Se isso é uma atitude louvável, cabe uma crítica: as regras do jogo, ou ao menos a mitologia da narrativa aqui inventada, não são claras o suficiente – exatamente para deixar tudo aberto a interpretação – o que irá incomodar quem quiser ver a história de uma maneira mais literal. Certos conceitos simplesmente não se encaixam com algumas revelações ao final. Entretanto, como é óbvio que “Nós” não quer ser interpretado literalmente, seria uma crítica superficial de minha parte. Mas, acredito eu, muita gente irá assistir o filme desta maneira…

O elenco é encabeçado por Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”, em um bom papel para exercitar seu talento. Seu trabalho como heroína e vilã é exemplar e ela entrega o verdadeiro horror do filme apenas com seus olhos. Winston Duke (“Pantera Negra”) é seu marido em um papel que beira o alívio cômico – o considero o elo mais fraco da narrativa. Shahadi Wright Joseph e Evan Alex são seus filhos, ambos em excelente trabalho nas suas versões sombrias. Elisabeth Moss (“The Handmaid’s Tale”) tem um papel menor, mas com boas oportunidades. Repare em sua brilhante performance na cena em que sua personagem chora, berra e ri seguidamente em em silêncio, sem emitir nenhum som. Que atriz!

Gostaria de destacar também a trilha sonora de Michael Abels, muito marcante, principalmente no clímax com o embate final entre heroína e vilã.

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