Late to the Party: “Marvel’s Spider-Man”

Lançado exclusivamente para o PlayStation 4 quase um ano atrás, “Marvel’s Spider-Man” foi alardeado como um dos melhores (quiçá melhor?) jogo protagonizado pelo popular aracnídeo. Durante décadas jogos inspirados em quadrinhos produziam mais vergonha do que empolgação. Sim, sempre saía o ocasional “The Adventures of Batman & Robin” para Super Nintendo (um dos meus favoritos), mas aí aparecia um “Superman 64” para quebrar todos os padrões. O próprio Homem-Aranha teve poucas oportunidades de brilhar, sendo que positivamente eu só consigo lembrar mesmo de “Maximum Carnage” (um beat-‘em-up do Super Nintendo) e “Ultimate Spider-Man” (da geração PlayStation 2). Mas o favorito da maioria tem a tendência em cair para “Spider-Man 2”, também da geração PlayStation 2 e lançado no auge do popularidade do personagem graças ao sucesso do filme “Homem-Aranha 2”, de Sam Raimi, do qual ele obviamente é uma adaptação.

Jogos open world do herói acabaram se tornando um padrão. Óbvio que explorar livremente Nova York balançando entre seus prédios é uma decisão óbvia. Mas desde então o conceito tem sido aplicado poucas vezes de maneira apropriada. E com o sucesso da trilogia Arkham do Batman, os fãs do personagem da Marvel começaram a se sentir excluídos pela sorte. Claro, até ano passado, quando a Insomniac Games (das séries Racthet & Clank e Resistance) lançou o seu ambicioso projeto, sem nenhuma ligação com filmes do Universo Cinematográfico Marvel, mas de claras inspirações no favoritíssimo “Spider-Man 2” de 14 anos antes. Passado o furor, finalmente pode jogar este grande sucesso em sua completude, com todos os DLC e atualizações incluídas formando um “pacote completo” para a experiência. E minha surpresa, apesar do hype, foi positiva. A resenha a seguir contém spoilers, pois não se trata de um review tradicional, mas sim de uma análise atrasada após a onda do lançamento passar.

“Marvel’s Spider-Man” se provou uma experiência bem sucedida em aplicar o conceito teatral dos “três atos” (algo extremamente popular nos roteiros cinematográficos também) em uma estrutura de videogame. O jogo começa com Peter Parker, já um Homem-Aranha “de carreira”, com muitos vilões já formados, com sua relação bem resolvida com a polícia e com uma relação definida com Mary Jane. As primeiras horas da história servem para estabelecer esse contexto, talvez já imaginando que os fãs sabem de muita coisa, então precisam explicar onde certas coisas estão – qual a relação de Peter com Norman Osborn, por acaso, eles já são inimigos? Muitas dessas ideias fogem do padrão, o que foi uma decisão criativa bem interessante. Peter não é mais um fotógrafo freelance como tradicionalmente é representado, mas um cientista trabalhando com ninguém menos que Otto Octavius. Seu relacionamento com MJ é de amizade após um namoro fracassado e ela é quem se tornou jornalista do Clarim Diário. E tudo isso é introduzido justo quando Wilson Fisk, o Rei do Crime, é preso e a cidade vive uma nova onda de crimes quando um novo grupo de vilões – os demônios – começam a atacar os armamentos secretos de Fisk.

Ao final do primeiro ato essa contexto sofre sua necessária reviravolta que coloca o protagonista rumo a sua aventura. O vilão, Sr. Negativo, é revelado, a relação com Mary Jane se desenvolve em uma “parceria” e um certo Miles Morales é introduzido. A partir daí, o jogo muda um pouco. Onde antes havia apenas uma história central e poucos crimes a serem resolvidos, o mapa de Nova York agora passa a ter mais missões secundárias e os demônios controlam mais pontos que precisam ser liberados. O jogo, de uma certa forma, se torna mais complicado junto com as tramoias da narrativa. E passa a focar mais na relação de Peter com o vilão central e também semu mentor, Otto Octavius, que começa a desenvolver uns tais tentáculos controlados pela mente.

O terceiro ato de uma peça teatral sempre começa com o herói no seu ponto mais vulnerável, tendo que tomar a decisão mais difícil – para partir rumo ao clímax e confrontar seu maior problema. E após um ataque do Sr. Negativo a uma super prisão na cidade, inúmeros vilões (Escorpião, Abutre, Rhino e Electro) são liberados e todos se unem ao Dr. Octopus. Peter terá que enfrentar seu querido mentor – justo quando a cidade está mais vulnerável e o mapa do jogo se torna o mais complicado, com muitos objetivos e inimigos espalhados para atrapalhar sua vida. E, claro, se torna o momento mais empolgante do jogo, em termos das muitas sequências de ação e reviravoltas envolvendo os vilões.

Tudo isso é amarrado por uma boa jogabilidade. Balançar por Nova York nunca foi tão simples e fluido. Claro, os ocasionais bugs ocorrem e às vezes parece que o Homem-Aranha tá mais preocupado em pular numa parede do que se agarrar nela. E o combate, obviamente inspirado no estilo acrobático de “Batman: Arkham Asylum”, começa como repetitivo e simples, mas evoluiu conforme uma maior variedade de inimigos e poderes se tornam disponíveis. As sessões stealth, também muito inspiradas no já citado clássico do homem-morcego, poderiam se beneficiar um pouco mais de inimigos mais inteligentes. Enfim, em toda essa variedade de estilo, o jogo se torna uma aventura divertida e interessante. E sim, as missões secundárias se repetem bastante, mas considerando que a história é longa e às vezes a narrativa “para” por alguns momentos para lhe deixar explorar a cidade, elas acabam se tornando distrações bem colocadas. Não é aquela overdose de mesma coisa a fazer que se tornou uma praga na série Assassin’s Creed, por exemplo. Comparado com o interminável “Assassin’s Creed Odyssey”, lançado na mesma época, “Marvel’s Spider-Man” é absolutamente moderado.

O que mais me surpreendeu foi em como o jogo conseguiu manter o equilíbrio entre uma jogabilidade agradável e missões com bom ritmo a um padrão narrativo que, apesar de simples, lhe mantêm intrigado. A Insomanic poderia ter feito a mesma escolha que a Ubisoft despejou sobre o supracitado “Assassin’s Creed Odyssey” e jogar um mapa enorme de Nova York para você explorar livremente enquanto a história segue em um ritmo entediante. Mas soube equilibrar muito bem o lado videogame com a narrativa estruturada como um filme. Ajuda bastante também que as cenas de diálogo são boas – eu não lembro a última vez que um jogo blockbuster não me fez pular tais cenas assim que elas começam.

Por outro lado, se o jogo central é uma experiência bem amarrada, a expansão via DLC intitulada “A Cidade Que Nunca Dorme” não é tão bem sucedida. Curiosamente, ela também segue uma estrutura de três atos – ou ao menos três episódios. No primeiro o aracnídeo investiga o retorno da Gata Negra, no segundo as consequências das ações dela com a máfia e o vilão Cabeça de Martelo, e no terceiro o retorno da Sabre de Prata amarrando as pontas deixada pela confusão anterior. Apesar de estruturadas como uma trilogia, a história não flui tão bem assim. E é legal ver vilões secundários do herói aparecendo aqui (eu gostei muito do tema musical da Gata Negra). Entretanto, a trama é menos interessante e as missões novamente repetem muito do estabelecido no jogo central, portanto se você fizer como eu e jogar toda a experiência seguidamente, irá ficar bastante cansado ao final. Portanto talvez fica a recomendação de acompanhar a história como ela foi distribuída originalmente, dando um intervalo entre a campanha principal e os episódios DLC entre si.

De uma forma geral, é um pacote muito bem amarrado ainda assim. O DLC não dá conta de entregar novidades e a campanha central tem seus problemas (como os repetitivos mini-games de pesquisa ou as sequências em que você controla Mary Jane), mas nada disso passa mais do que alguns tropeços em uma caminhada constantemente prazerosa. Pois, no final das contas, “Marvel’s Spider-Man” é absolutamente divertido e isso basta. Fãs do personagem irão adorar e novatos provavelmente irão se tornar fãs. Melhor jogo do aracnídeo? É capaz! Alcançou o mesmo nível de inventividade e inovação dos idolatrados “Batman: Arkham Asylum” ou “Arkham City”? Não, já que pega muito do que foi estabelecido nesses jogos para si. Mas cumpre seu papel de fazer você se interessar na história e amarrá-la de maneira inteligente na estrutura do jogo e de suas missões. E também é um ótimo simulador de tirar fotos maneiras do Homem-Aranha, como você pode perceber na leitura deste post.

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