Review: “Yesterday” de Danny Boyle

Indiscutivelmente a banda musical mais famosa da cultura pop, os Beatles são tão influentes que cá estamos, 50 anos do aniversário de seu último álbum produzido, o icônico “Abbey Road” (“Let it Be” foi lançado depois, mas gravado antes) e o cinema ainda lança filmes baseados na discografia do grupo. Muito motivos podem se dar a esse fenômeno, como o impactante e meteórico sucesso durante os anos 60, a bem sucedida carreira solo de seus integrantes (ok, menos a do Ringo, coitado) ou a morte trágica de John Lennon pouco mais de dez anos após o fim da banda. Tudo isso ou simplesmente talvez ao fato deles terem lançado muita música boa pra caramba, sabe?

Seguindo essa ideia chega “Yesterday”, sobre um mundo em que os Beatles não existiram.

Jack é um musicista fracassado que não consegue dar rumo na sua carreira, apesar do incessante esforço de sua amiga e empresária Ellie. Certo dia ele sofre um acidente no mesmo momento em que o planeta Terra é atingido por um gigantesco blackout provavelmente inspirado no bug do milênio ou algo assim (crianças, joguem no Google). Ao acordar, Jack se dá conta de algo terrível: os Beatles não existiram, ninguém nunca ouviu falar deles (crianças, nem o Google!), nem nunca ouviu suas gloriosas músicas. Então ele se dá conta de algo incrível: ele lembra e agora tem exclusividade da melhor musicografia da cultura pop. Hora de fazer sucesso!

Apesar da premissa ridícula, o filme segue firme nela. Claro, com muito humor, mas o foco da história é a relação romântica de Jack e Ellie. Não tem como você contar uma história narrada por músicas dos Beatles sem falar de amor, né? E apesar do sucesso, ele se sente sozinho e ansiando em voltar para um relacionamento que ele poderia ter tido. Ou seja, basicamente passando por muitas das coisas que as músicas que ele canta narram.

Sob essa perspectiva, o filme tem a boa oportunidade de se tornar um musical embalado por algumas das melhores canções já compostas. Infelizmente, “Yesterday” não vai fundo nessa ideia. As musicas às vezes são colocadas no contexto emocional da cena – como quando Jack se sente “carregando aquele peso” de “Golden Slumbers”, ou quando canta “Help!” praticamente em desespero. Mas às vezes simplesmente são momentaneamente jogadas como piada pelo conceito de “lembra dessa musica?”, vide o desperdiço das magistrais “Something” e “Let it Be”. A maioria das sequências musicais mal duram um minuto – e nenhuma música dos Beatles é assim tão breve. E fora uns poucos momentos de euforia, como no fofo medley de “I Wanna Hold Your Hand” e “I Saw Her Standind There”, raramente as canções de oportunidade de lhe levar a algum lugar catártico.

O roteirista Richard Kurtis evidentemente entende e aprecia o luxo de ter tantos hits à sua disposição. Seu texto é recheado de referências e homenagens a discografia da banda. E ele inclusive consegue colocar um “cameo” (por falta de melhor descrição) bastante interessante para rumar nosso protagonista na direção do clímax. Então talvez o pouco uso das musicas não seja uma responsabilidade sua, vide que ele bolou uma história absurda só para poder justificar alguém cantar todas as canções dos Beatles em tempo recorde. E pelo bem do argumento, nem seria também ciúme da trilha sonora composta por Daniel Pemberton, já que ele – muito inteligentemente – usa muitas referências musicais ao longo da narrativa. O uso da inusitada orquestra de “A Day In the Life” no momento do acidente é, particularmente, genial.

Sobra a direção de Danny Boyle, oscarizado por “Quem Quer Ser Um Milionário?” dez anos atrás. Boyle é um eclético diretor com alma e talento britânico, visivelmente exposta em seu trabalho. Falar sobre Beatles, especialmente com auxílio do texto de um Curtis da vida, sem dúvida é algo apropriado para ele. Mas Boyle também é apressadinho, né? É seu estilo. Seus filmes são ágeis, movimentados; sua câmera raramente para quieta e seus enquadramentos adoram sofrer alguma interferência visual. Poucas vezes isso não funciona. Mas quando requer uma história em que o protagonista precisa cantar “The Long and Winding Road” para transmitir suas emoções, é evidente que o diretor não sabe mais onde colocar a câmera no cenário, aí simplesmente corta a música. “Yesterday” não seria um filme de Danny Boyle se fosse um musical meloso. Mas sendo um filme de Danny Boyle, mal consegue ser um musical em si.

Resta ao texto de Curtis ser carregado pela química do casal principal. Nesse aspecto, e se você olhar “Yesterday” apenas como um histórica romântica com uma premissa esquisita, funciona.  Himesh Patel (da série “EastEnders”) raramente varia muito entre suas expressões de frustrado ou confuso, mas como protagonista é carismático o suficiente. E tem um bom timing de comédia. Lily James (“Cinderela”), como sempre, é o carisma em pessoa e dá um belo toque de leveza na sua personagem, que é bem menos dependente do seu interesse romântico do que a premissa inicial leva a sugerir. Outros personagens menores aparecem momentaneamente, mas a verdade é que a narrativa foca bastante no casal e eles acabam desaparecendo. Kate McKinnon (“Ghostbusters”) é uma agente exagerada, um excelente papel para o tipo de humor da atriz. E Ed Sheeran faz uma participação como si próprio.

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