Review: “Era Uma Vez… Em Hollywood” de Quentin Tarantino

Os crimes da Família Manson, às vezes chamados de crimes do Helter Skelter, legalmente chamados de Assassinatos Tate-LaBianca, se tornaram símbolos de fim de uma Era no estilo de vida hollywoodiano. Não apenas pela brutalidade dos crimes em si (a principal vítima, Sharon Tate, estava grávida), mas pelo rompimento com a cultura paz & amor que os hippies se tornaram tão famosos na década de 60. Dizer que o crime mudou a relação da sociedade (ou Hollywood) com a cultura pode parecer um exagero, considerando que a moda hippie fez nada mais do que se tornar ainda mais mainstream nos anos 70. Mas algo se deu naquele evento e é isso que o mais novo filme de Quentin Tarantino tenta explorar.

“Era Uma Vez… Em Hollywood” parece tirar seu título de clássicos antigos como “Era Uma Vez No Oeste” ou “Era Uma Vez Na América”, dirigidos por Sergio Leone, diretor cultuado por Tarantino. Sem dúvida inspiração nele o filme tem, principalmente pela ambientação faroeste de algumas cenas. Além do protagonista, Rick Alton, gravar algumas cenas de um seriado de televisão do gênero, seu dublê e colega Cliff Booth tem uma cena no rancho em que a Família Manson estava vivendo de claras inspirações aos clássicos que Tarantino tanto admira. Entretanto, apesar dessas referências (que já fazem parte do estilo do diretor), “Era Uma Vez…” parece tirar um pouco de conto de fadas também em sua história.

Alton é um ator em fim de carreira, ansioso com o seu futuro. Booth tem um jeitão mais descontraído, mas percebe-se que ele também não sabe muito o bem o que fazer mais para frente. Em contraponto aos dois temos Sharon Tate, atriz em ascensão na cidade, casada com o diretor do momento. O futuro para ela é brilhante. Para Alton e Booth, é sombrio. A história real sabemos como termina. A luz de Tate foi interrompida pela crueldade alheia. Os sonhos que Hollywood criava se tornaram pesadelos. Nesse aspecto, a trajetória (fictícia, vale lembrar) de Alton e Booth parece que irá de encontro a tragédia. O conto de fadas de Tarantino é melancólico. É sobre sonhos, interrompidos; sobre possibilidades que não se realizarão. A cena final do filme, amarrada por um fabuloso “era uma vez…” que se escreve na tela, reforça a tristeza de coisas boas que deixaram de ser. Pois, apesar da narrativa inventada pelo roteiro, Tarantino faz questão de nos lembrar que o final real é triste.

O que é um estilo diferente para a sua direção. Ele sempre trouxe humor em suas histórias, por mais violentas (absurdamente violentas) que fossem. Ao reescrever a História com “Bastardos Inglórios”, ele fez questão de nos fazer rir de nazistas. Quis transformar Hitler em piada, em vergonha. Ao lidar com os assassinatos reais, foi mais respeitoso. O filme tem poucos momentos de violência ao longo de sua trajetória, fora o clímax, e, ainda assim, parece amarrar as mortes com um quê de perversão trágica. Vale anotar, Tarantino foi tremendamente respeitoso com a vida de Sharon Tate. Em determinado momento que ela vai ao cinema assistir ao seu novo filme, o diretor escolheu usar cenas reais com a própria atriz – ao invés de substitui-la pela atriz de seu filme. Uma escolha carinhosa. Quem estiver a fim de ver “Era Uma Vez… Em Hollywood” pelo masoquismo de uma reencenação dos crimes do Helter Skelter, o diretor toma um caminho diferente.

E talvez sua intenção tenha sido de apenas fazer uma história sobre atores. Tarantino nunca fez um filme sobre Hollywood e, aqui, apesar de ter brincado com a metalinguagem, resolveu focar sua narrativa em três atores diferentes. Leonardo DiCaprio tem ótimas oportunidades de atuar como um ator que está atuando. Sabe tratar a tristeza de seu personagem tanto como ridícula como com respeito. Seu Rick Alton receia que sua carreira não irá mais andar. Mas ainda consegue atuar. E DiCaprio tem ótimos momentos de buscar sutileza nos exageros. Brad Pitt repete um pouco seu personagem de “Bastardos Inglórios” como Cliff Booth. Tem uma cena em que ele enfrenta Bruce Lee – em uma piada muito desrespeitosa ao lendário ator, mas que tem um propósito real em estabelecer Booth como alguém capaz de derrotar Bruce Lee; sim, isso serve para algo mais tarde. Pitt dialoga tanto com o charme quanto com a arrogância. Não vai muito além disso, mas consegue dominar a cena quando Tarantino o trata como protagonista. Repare no domínio que o ator exerce tanto no clímax quanto no tenso momento em que ele visita o rancho da Família Manson.

E, claro, temos Sharon Tate, vivida pela talentosa Margot Robbie. Sua Tate é muito simpática, mas não tem um arco. Ela não aprende nada, não evolui. Sua história inteira envolve em ela ir no cinema e ter orgulho de seu trabalho. Ainda assim, achei louvável como Robbie – que praticamente não tem diálogos, apesar de estar sob comando de um diretor que bota personagens para falarem por 30 minutos sem parar! – tem ótimos momentos de silêncio. Consegue expor as emoções de Tate com um sorriso, um olhar. O que torna ainda mais melancólico, ao lembrarmos o fim que essa esperança teve. Os três atores, a seu modo, são bem utilizados pelo diretor. Se ele quis elogiar a beleza dessa profissão em um filme sobre a melancolia de oportunidades interrompidas, conseguiu. Sua história termina com um ar de “era uma vez…” que não teve “e viveram felizes para sempre.” Triste, mas respeitoso.

O resto do elenco conta com Al Pacino, Emile Hirsch, Timothy Olyphant, Luke Perry, Dakota Fanning, Lena Dunham, Maya Hawke e Damon Harriman como Charles Mason.

 

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