Review: “Paradise Hills” de Alice Waddington

Parece que “The Handmaid’s Tale” acordou na arte uma espécie de novo sci-fi, de temática mais feminista. O gênero da ficção científica parece que sempre foi tratado como “algo de meninos”, com suas histórias densas com protagonistas masculinos durões (olá “Blade Runner”) ou homens misteriosos e sensíveis (olá “Blade Runner 2049”). Mulheres raramente recebiam a oportunidade de serem protagonistas, a não ser em histórias onde raramente se dizia algo sobre o papel da mulher, em que elas são tratadas como heroínas de ação com uma visão masculina da coisa: pense em algo como “Aliens” ou “Exterminador do Futuro”. E, claro, sempre em histórias escritas por homens para homens. E tem a série “Jogos Vorazes”, escrita e protagonizada por mulheres, mas com uma temática estritamente social e política, sem abordar questões femininas. A supracitada “The Handmaid’s Tale” colocou uma perspectiva totalmente feminista sobre uma sociedade patriarcal e machista. Nesse aspecto, algo similar surge com “Paradise Hills”, que não tem a mesma pegada sombria e violenta do cultuado seriado de televisão, mas narra uma história absolutamente feminina e feminista.

A história é criada pela diretora Alice Waddington, mas o roteiro é escrito por dois homens: Brian DeLeeuw e Nacho Vigalondo (este escreveu o dirigiu “Colossal“, que eu recomendo). A narrativa foca em Uma, uma garota que acorda em um “spa de personalidade” – uma espécie de “lavagem cerebral coach” – em que mulheres são colocadas lá por suas famílias para se tornarem “versões melhores”. Independente delas quererem mudar ou não. Algumas querem, como Chloe, que apreciam a oportunidade de se enquadrar no padrão de beleza social; outras como a cantora pop Amarna não veem como fugir dessa situação e acabam se entregando. Nossa heroína Uma é um pouco mais rebelde e acaba tentando romper com o tratamento em nome do seu amor proibido com Markus, mas percebe na sua relação de amizade com as mulheres da ilha uma possibilidade mais libertária.

As analogias que a história faz são bastante óbvias. Seu uso de “flores com espinhos” frequentemente usado em adornos de cenário ou em falas da vilã parecem tirados de um texto de adolescente rebelde. “Paradise Hills” não irá ganhar prêmios por sua originalidade, mas também não precisa. Se o texto pode vir a se conectar melhor com garotas adolescentes, qual o problema nisso? Existem temas o suficientes para se explorar e propor o debate e isso é sempre algo muito legal. Fazer isso com uma temática feminina é algo bastante diferente e interessante. A história tem boas intenções, só não vai muito além em seus temas – faltou um pouco mais de eventos e reviravoltas. E o clímax faz com que nossa vilã praticamente vire a Hera Venenosa (novamente, flores com espinhos surgem) para lhe dar um argumento sobre seus crimes. Válido, mas muito mal explorado e súbito demais para render algo além de um “ah… tá…”

A direção de Alice Waddington (sua estreia) é muito boa e ela é bastante ajudada pela produção do filme. Os figurinos, de inspirações renascentistas com toques de cintos de castidade – haja tanta cinto para pouca roupa! – são criativos e transmitem a mensagem da história de maneira clara. O cenário, a tal clínica Paradise Hills, é belo e labiríntico ao mesmo tempo. Waddington faz bom uso disso tudo, sabe enquadrar cenas de diálogo de maneira inusitada. Usa o potencial do gênero sci-fi para ser criativa e absurdista. Deu um primeiro passo interessante e merece ser acompanhada no futuro.

Uma é vivida por Emma Roberts, atriz razoavelmente talentosa, mas pouco carismática. Ela dá conta do recado, mas nas mãos de alguém melhor a heroína se tornaria mais memorável. Eiza González (“Em Ritmo de Fuga”) se sai muito melhor em dar vida a Amarna e expor de maneiras sutis – apesar de óbvias, por conta do roteiro ser óbvio – o conflito de sua personagem. Danielle MacDonald praticamente repete a sua personagem de “Dumplin'”. Awkwafina (“Oito Mulheres e um Segredo”) não faz muito. Jeremy Irvine (“Cavalo de Guerra”) é o macho beta bobalhão que acha que tá ajudando quando atrapalha. Arnaud Valois (“120 Batimentos por Minuto”) é o prometido a Uma que parece uma versão exagerada de John Malkovich – sim, pois é. Milla Jovovich é a vilã e parece estar se divertindo bastante no papel, o que é sempre ótimo de se ver.

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