Review: “Midsommar: O Mal Não Espera a Noite” de Ari Aster

O diretor do maravilhoso “Hereditário” novamente coloca o psicológico no horror psicológico em um filme que lembra que as coisas mais assustadoras que existem não são possessões demoníacas, assassinos de motosserra ou palhaços alienígenas, mas nosso comportamento. Em “Midsommar: O Mal Não Espera a Noite” (que subtítulo é esse Brasil?!) a narrativa pode até falar sobre uma seita pagã perdida nas florestas da Suécia. Mas, acima de tudo, é uma história sobre relacionamentos abusivos e os horrores que cometemos para sobreviver a eles.

A história começa com nossa protagonista Dani passando por um tremendo de um trauma. Palavras não são capazes de descrever o horror das emoções que o filme evoca em seus primeiros dez minutos e, como em muito que acontece em “Hereditário”, isso poderia estar acontecendo em uma drama ao invés de um terror. Seu companheiro Christian (por favor, atenção ao nome que evoca cristianismo) é o seu namorado abusivo que, apesar de não tratá-la violentamente ou agressivamente (como se isso não fosse o mínimo), sem dúvida não lhe dá o suporte emocional necessário para passar por tal situação. Reparem na cena em que os dois dialogam sobre uma simples crise, ele pedindo desculpas, para logo depois jogar a culpa para cima dela (gaslighting) e em como os personagens trocam de posição durante o diálogo para reforçar a reversão de papeis. Pois é. “Midsommar” é desses filmes.

Logo então ambos embarcam com amigos dele para uma viagem para a Suécia, para uma comunidade isolada na floresta em pleno verão do norte da Europa – em que, por motivos da Terra não ser plana tá, os dias tem pouquíssimo tempo de noite. Evidentemente coisas esquisitas passam a ocorrer, pois senão isso não seria um filme de terror. Mas “Midsommar” tem seu tempo. Coisas ocorrem devagar e os eventos, apesar de previsíveis, são colocados em seu devido lugar. Nada é forçado, nada é feito com mero intuito de ser uma analogia. O roteiro é extremamente bem construído. Dani e Christian cada vez mais se afastam; ele cada vez mais egoísta, ela cada vez mais identificada com o horror de uma comunidade pagã que faz umas coisas bem esquisitas sim.

O distanciamento do casal é parte central da história. Dani tem seus problemas, claro, mas é evidente que o que ela precisa é de suporte emocional – ao invés de ter de correr para banheiros para poder chorar – algo que Christian não só não dá, como não parece querer dar. No meio da loucura, ela encontra apoio. Prestem muita atenção na cena ao início do filme, em que o namorado consola sua namorada quase como uma obrigação; e mais tarde, com ela desesperada, recebe apoio inusitado de outras mulheres que dividem seu choro e grito de angústia. É uma das cenas mais bizarras da história, mas também de um significado emocional impactante.

Isso tudo reflete como “Midsommar” é um filme que ficará com você. Ari Aster, ainda em seu segundo filme, não veio para brincadeira. Suas histórias tem personalidade; sua direção é precisa, incrivelmente bem elaborada, parece vir de um Tarantino que brinca com seus misé-en -scene tem alguns anos já. Seus filmes podem não ser para todos, mas sem dúvida irão bater em cheio naqueles para quais eles são. A cena final é incapaz de não formar opinião.

O elenco é encabeçado por Florence Pugh (“Lady MacBeth”) em uma daquelas atuações nasce uma estrela. Sua performance carrega o filme em suas cenas mais dramáticas a níveis excepcionais, principalmente por conta de suas expressões faciais que parecem extraídas de algum clássico perdido do cinema mudo. Seu companheiro é Jack Reynor (“Sing Street”), menos eficiente, mas competente o suficiente. William Jackson Harper e Will Poulter são os amigos representando certos clichês do horror, mas de maneira realista. Vilhelm Blomgren é o sueco que leva um bando de americano trouxa para o meio das florestas suecas para rituais pagãos.

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