Review: “Coringa” de Todd Phillips

O arqui-inimigo do Batman sempre teve vida própria. Surgiu um ano depois que seu herói, em 1940, e já foi interpretado inúmeras vezes em quadrinhos, cinema e videogames. A icônica interpretação de Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas” em 2008 pode ter mudado o mundo, mas Jack Nicholson e Jared Leto já fizeram suas tentativas bem diferentes também. Sem nunca esquecer o inesquecível trabalho de Mark Hamill no desenho animado dos anos 90 e revisitado na trilogia Arkham dos videogames. E isso tudo, claro, ignorando completamente as incontáveis reimaginações que o palhaço do crime teve nos quadrinhos em si, sendo desde vilão bonachão até lunático do caos. E agora ele recebe um filme todinho para chamar de seu.

O trabalho de inspiração mais direta a “Coringa” provavelmente é “A Piada Mortal”, de Alan Moore. A graphic novel de 1988 contava a origem do vilão, que até então não tinha nenhuma (algo inusitado nos quadrinhos). Mas não é considerada canônica, apenas uma interpretação. Que, dada a qualidade do texto, acabou se tornando referência. E talvez os roteiristas Todd Phillips e Scott Silver queiram ter buscado isso. Contar uma história de origem, sem necessariamente transformá-la em base, em um marco oficial. Aqui conhecemos Arthur Fleck – lembrando que o Coringa é apenas Coringa em sua essência, não tem alias original – um adulto com algum distúrbio psiquiátrico não divulgado que vive uma vida bem miserável em uma Gotham City bem miserável. Seu emprego de palhaço é ruim, apesar dele dizer que adora; não tem amigos ou relações sociais significativas; sua mãe é doente e criou com ele uma simbiose esquisita.

Arthur tem tudo para dar errado e não é que dá? O filme claramente se simpatiza com seus sofrimentos. Repare como a música acompanha sua dor nos momentos mais dramáticos. E isso é esquisito, pois parece que a narrativa está querendo simpatizar com um sociopata. Suas primeiras vítimas estavam abusando psicologicamente de uma estranha no metrô; Arthur não faz nada para defendê-la, não é “herói” da cena, mas o texto parece enquadrar suas vítimas como malvados. E isso, novamente, é questionável e merece um alerta. Mas, ao longo da história, o texto deixa claro: Fletcher pode ter sofrido o que for e merecer atenção da sociedade, mas suas escolhas não são inspiradas em instinto de sobrevivência, mas em um prazer pela crueldade; o Coringa, como sempre soubemos, gosta de ser mal. É mais que um “talento”, mas um chamado que ele atende com orgulho.

E “Coringa” tenta fazer uma análise social disso tudo. Apesar da história se passar no que parece ser uma Gotham do início dos anos 80, a relação com violência e descaso social reflete muito o momento que vivemos agora. Ei, afinal, o Brasil colocou na presidência um lunático que faz sinal de arminha em campanha, prega assassinato e tortura como algo razoável e recebeu apelido de Bozo. De palhaços psicopatas, nós entendemos! E podemos ver como essa “palhaçada” inspira ainda mais ódio, violência e crimes. Nesse aspecto, o texto faz escolhas boas. E, novamente, deixando bem claro que toda a inspiração que o Coringa causa nos outros é, essencialmente, ruim. Mesmo que ele tente justificar com algo tipo “eu sou consequência disso”, a verdade é que isso é consequência dele, mas nosso protagonista não é capaz de admitir culpa. O filme deixa isso claro. Mas não vai além. A sua tentativa de debate é interessante, mas faltaram argumentos.

Todd Phillips (diretor da trilogia “Se Beber… Não Case”) não dirige grandes coisas e aqui é fundamentalmente segurado pela fotografia de Lawrence Sher. O visual tem textura e cores marcantes, um contraste forte ao visual batido e saturado do cinema Marvel. Mas a direção em si faz pouco. Solta o Coringa para ser atuado maravilhosamente por Joaquin Phoenix, que dá conta do recado dado a ele por isso, mas parece pouco interessado em falar algo visualmente. A história tinha potencial para ir além, mas Phillips ficou preocupado demais em só filmar Phoenix trabalhando como poucos. E eu sei, isso aqui não é um filme do Batman, mas se compararmos com a grandiosidade da escrita dada a Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas”, fica clara a diferença. Ledger, genial como foi, teve o luxo de ter um Coringa extremamente bem escrito e estruturado em uma narrativa clara. Phoenix, que (insisto) se sai muito bem, tem que praticamente fazer tudo sozinho. O filme jura que tem algo a dizer, mas não diz tanto assim.

Não chega a ser um desperdício. É uma produção interessante, aproveita bem o personagem e, na pior das hipóteses, irá lhe formar alguma opinião sobre algo. Não é um filme genérico ou mais uma das milionésimas adaptações dos quadrinhos. Mas enfim, claramente a direção não soube ir além do que o texto (e o ator) podem proporcionar. O Coringa de Phoenix passa muito mais tempo em cena que o de Ledger, evidentemente, mas tem muito menos o que dizer. Somente naquele breve diálogo da cena de interrogatório com o Batman que “O Cavaleiro das Trevas” refletiu mais de seu personagem e sua sociedade do que “Coringa” consegue fazer com duas horas inteiras.

E como já elogiei o suficiente o trabalho de Joaquin Phoenix, gostaria de enfatizar que ele se sai muito melhor como Arthur Fleck do que como Coringa. Sem dúvida seu trabalho em construir um personagem foi além de apenas interpretar um vilão legal. O elenco também conta com Robert De Niro sendo Robert De Niro (um papel que ele só repete já tem uns vinte anos), Zazie Beetz (“Deadpool 2”) como uma vizinha de Arthur, Frances Conroy (“A Sete Palmos”) como sua mãe e Brett Cullen (que apareceu em “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, que coisa) como um Thomas Wayne não tão bonzinho assim.

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