Review: “Parasita” de Joon-ho Bong

Cinema como metáfora não é nenhuma novidade nem nunca vai ser. Mas sempre é interessante ver roteiristas ou diretores que tentam sair um pouco da narrativa convencional para contar uma história não sobre pessoas e eventos, mas o que eles significam. Tudo tem impacto maior quando o roteiro consegue surpreender e levar o espectador e sentir emoções que ele não esperava. Em suma, tudo aquilo que o Martin Scorsese adora e não consegue encontrar nos parques de diversão da Marvel. E, se procurar em “Parasita”, acho que irá se encantar.

Quer dizer, sei lá, quem sou eu para inventar de deduzir o que o Scorsese acha das coisas…

Enfim, “Parasita” é a nova produção do diretor Joon-ho Bong, famoso por filmes como “O Hospedeiro” e “Okja”. Ele gosta de explorar temas sociais em suas histórias, principalmente relatando questões de classe, como muito bem visto em seu filme mais famoso (por ser em inglês), “Expresso do Amanhã“. Se naquele sci-fi ele usava os vagões de um trem em um futuro distópico, fazendo uma crítica em como o capitalismo se apropria do trabalho da classe operária para bancar o conforto dos donos de grandes fortunas, aqui ele foca em uma história contemporânea que meio que fala a mesma coisa, mas não exatamente.

A família Kim vive em um meio-porão (algo comum na Coréia do Sul em termos de apartamentos populares) vivendo de bicos para sobreviver. Os pais estão desempregados e os dois filhos sequer tem estudo superior para tentar em alguma carreira. Em uma oportunidade, o filho vai dar aula de inglês na casa de uma família rica, os Park. Seu diploma é forjado pela irmã, mas a matriarca dos Park não se importa com documentos; a recomendação de um conhecido é tudo que ela necessitava. Ou seja, mesmo que Ki-woo tivesse se esforçado em conseguir um diploma para mostrar seus estudos, tudo o que ele necessitava mesmo para conseguir um emprego ela ser amigo de alguém. O bom e velho QI. Já dá para deixar bem claro o rumo que Bong vai seguir, né?

Vendo a oportunidade se abrir – os Park são tremendamente ingênuos – Ki-woo e sua irmã arrumam planos para empregar a família toda. O filme leva tudo na brincadeira. É tudo muito bem humorado pois, mesmo que as ações dos Kim não sejam lá a mais louváveis de todas, qualquer um que nunca foi rico nessa vida (ou seja, 99% da população humana) consegue se identificar com o improviso com a qual a família dá para simplesmente sobreviver. Ter um emprego, para a imensa maioria das pessoas (sei lá, 99% da população humana) é uma questão de necessidade, não de escolha. E os Park, que podem se dar ao luxo de bancar tutor particular, profissional de arte terapia, uma governanta que leva cachorros para passear e um motorista que carrega sacola de supermercado para a madame, bem, convenhamos, não representam muito bem a realidade de ninguém – fora, mais ou menos, 1% da população humana.

Por volta do segundo ato, quando os Kim já estão muito confortáveis em seu sonho de “viver” em uma mansão, o filme sofre uma reviravolta que não vale a pena estragar. O tom da história muda. Entre absurdos e surrealismos, um pouco de violência. E uma boa dose de drama. As metáforas se tornam mais concretas. A direção foca mais nas escadas que os personagens sobem e descem em sua jornada. Porões. Subsolos. Rampas. Tudo é colocado em cena para lembrar ao espectador: pessoas são separadas em níveis nessa sociedade; e aqueles que estão embaixo não consegue subir para o mesmo nível daqueles que se acomodam nos andares mais altos.

Se o clímax revela-se extremo demais, é justificado. As emoções tornam-se mais sinceras e, em uma realidade onde a desigualdade social bate recorde, fácil de se assimilar. Por mais surreal que tudo seja montado. E o final de tudo, sem spoilers, é sem dúvida um encerramento marcante, daqueles de sentir um soco no estômago; otimista ou cínico (talvez haja margem para interpretação), sem dúvida a conclusão é puro sentimento. Que não apenas fará você sair do filme refletindo, mas sentindo também. Apesar do tom leve do primeiro ato, John-ho Bong conseguiu criar uma obra capaz de mexer com as pessoas.

O elenco está todo muito bom, mas eu gostaria de dar um destaque para Kang-ho Song (tradicional personagem nos filmes de Bong) como o patriarca da família Kim. Ele não carrega a história, não é o foco emocional, mas leva a jornada a novos níveis no último ato. Uma atuação realmente comovente. O protagonista da história é o filho, vivido por Woo-sik Choi. So-dam Park é a divertida filha da família Kim e sua mãe é vivida por Hye-jin Jang. Yeo-jeong Jo está excelente em dar vida a ingenuidade tremenda da matriarca dos Park.

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