Review: “Entre Facas e Segredos” de Rian Johnson

Filmes de assassino misterioso não são tão comuns quanto poderiam ser. Apesar da literatura ter produzido inúmeros clássicos, encabeçados por autores lendários como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, o cinema ficou para trás. Fora as adaptações de livros famosos, filmes raramente abordam esse estilo. “Entre Facas e Segredos” é uma obra original, ou seja, um mistério novinho e folha para fãs do gênero apreciarem. Com um detalhe: tem algo a falar sobre o atual momento social.

Harlan Thrombey é um autor de livros de mistério famoso e rico. É encontrado morto no dia após o seu aniversário, em festa onde toda sua família participou estava presente. Apesar da policia considerar a morte um suicídio, o detetive Benoit Blanc é chamado para investigar o caso. Cada membro do clã tem um segredo que o tornam suspeitos de ter interesse no crime, mas a história é focada em uma personagem mais interessante e menos interesseira: Marta, a cuidadora filha de uma imigrante ilegal que se tornou confidente do paciente.

Esse detalhe se torna um ponto de destaque na narrativa. O mistério seria a partida da historia, mas isso logo é resolvido (de uma certa maneira, não definitivamente) e a partir daí vamos acompanhando como a trama se desenvolve. A graça, portanto, não está no mistério – apesar do filme se manter firme no estilo, inclusive com cena do detetive revelando o segredo final – e sim com o que acontece a partir daí para a nossa protagonista, Marta. E, sem entregar nenhum spoiler, a relação de seu arco com a questão da xenofobia que se alastrou pelos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump e seu discurso anti-imigratório. Pois a família Thrombey é aquela típica classe média alta “liberal” que jura ser a favor do bem estar social, contanto que ele só privilegie “pessoas de bem” sabe? Nada disso de imigrante ilegal entrando nos EUA, se for para entrar tem que ser legalmente e direitinho! O problema não sãos os latinos (a nacionalidade de Marta nunca é esclarecida), pois se fossem europeus (brancos) entrando eles também teriam problema. Claro. Aham.

Ok, nós brasileiros conhecemos esse discurso também. Às vezes em nossas famílias. Aquelas pessoas que “não são” racistas ou xenofóbicas, “mas…” Aquele pessoal que a gente deixava passar os comentários e “piadas” nas ceias de Natal, mas que com a eleição de Trump e Bolsonaro passaram a ficar mais confortáveis na hora de expressar seu ódio, sua supremacia racial e sua valorização do privilégio herdado. Acredite, “Entre Facas e Segredos” fala sobre isso tudo. De maneira discreta a certo ponto, menos nas cenas finais em que um martelo é jogado na sua cara deixando a sutileza de lado. Em tempos de ressurgência do fascismo, ser sútil não tem o menor sentido mesmo. Ao final a história de mistério não é sobre uma pessoa assassinada, mas sobre um monte de pessoas escrotas achando que tem mais direito que outras simplesmente por que nasceram em algum lugar.

O filme é escrito e dirigido por Ruan Johnson, o culpado por “Star Wars: Os Últimos Jedi”. Aqui ele está em uma zona muito mais confortável, com uma história que ele pode criar do zero e usar o gênero a seu favor – ao invés de tentar fugir dele. Sua direção é boa e ele utiliza muitos truques inteligentes para jogar pistas e dicas nas cenas. Ninguém vai precisar ficar perdendo tempo procurando elas para adivinhar o assassino (como já disse antes, isso se resolve bem cedo na trama). Mas é sempre legal reparar a atenção que a direção dá a esses detalhes. Seu roteiro, entretanto, é o grande ponto forte. Além de permitir bons diálogos a um elenco forte, tem a trama bem amarrada – apesar de confusa, lá pelo segundo ato – que conclui com uma boa lição e reflexão sobre a sociedade que construímos. O simples fato de “Entre Facas e Segredos”, construído como um thriller de mistério, ser capaz de abordar um tema importante de maneira convincente fala muito da maturidade do texto.

O elenco, já citado como incrível, é liderado por Daniel Craig, visivelmente muito confortável em sair um pouco do seu jeito James Bond que ele dominou na última década. Ana de Armas (“Blade Runner 2049”) é a protagonista Marta, carregando com leveza o papel de heroína que, assumiria-se, deveria cair em Craig. Uma atriz a se acompanhar. Chris Evans, o Capitão América, interpreta o típico norte-americano branco rico que, bem, acha que é o Capitão América. Christopher Plummer (“A Noviça Rebelde”) é o assassinado, que basicamente aparece em flashbacks, mas tem uma ótima cena com De Armas. Jamie Lee Curtis, Michael Shannon e Don Johnson completam a lista de suspeitos, cumprindo muito bem o papel de dar vida a personagens que são feitos para aparecer pouco – a graça desse gênero está em colocar um elenco de renome, para o público nunca subjugar quem seria o assassino com base na fama do ator. Ah, e temos Toni Collette também, que esta sempre incrível em tudo que faz.

 

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