Review: “Jojo Rabbit” de Taika Waititi

As pessoas não tem tendência em achar nazismo uma coisa muito engraçada, até por que ele não é, mas isso não impediu o cinema de fazer humor a respeito – de preferência às custas da ideologia. Pois se fascismo não é algo para se rir (apesar do presidente do Brasil parecer um palhaço de tão estupido), existe algo mais ofensivo para figuras notoriamente egocêntricas como Hitler e Mussolini do que zoa-los? É ver os chiliques que Donald Trump faz com as piadas do “Saturday Night Live”.  E foi algo que Charles Chaplin percebeu muito bem em seu clássico “O Grande Ditador” em 1940 e até o igualmente lendário Mel Brooks fez piada em “Os Produtores” de 1967 com isso. E agora que o fascismo voltou a seduzir milhões com seu capricho pelo ódio, nada mais apropriado do que uma nova sátira a respeito, não?

Inspirado no livro “Caging Skies” de Christine Leunens, “Jojo Rabbit” conta a historia de Johannes Betzler, o Jojo, um garoto de dez anos na Alemanha dos anos 1940 que faz parte da Juventude de Hitler, sendo treinado desde cedo para caçar e matar seus inimigos – de preferência os judeus, mas comunista também tá valendo. Sua amorosa mãe, com a qual ele tem uma excelente relação, faz parte da resistencia alemã e esconde Elsa, uma garota judia, em sua casa. Jojo, tão fã de Hitler que até tem ele como amigo imaginário, a descobre e passa a entrar em conflito. Entregar a judia e correr o risco de prejudicar a própria mae? Ou se aproximar do inimigo?

“Jojo Rabbit”, claro, é uma sátira. E sátiras, ao contrário de paródias (outro género artístico que lhe é muito comparado), tem o intuito de ridicularizar aquilo que faz graça. Então, claro, nazismo não é engraçado, mas o texto do filme quer que você ria sempre que a palavra “nazi” é dita. Para tanto, sempre a coloca em contexto de humor, com os personagens se referindo como “nazi” orgulhosamente em maneira ridícula. Algo bastante fácil de ser feito, ja que a retórica fascista é cheia de racionalizações completamente idiotas (como o conceito de superioridade racial) que são um prato cheio para virar peça de humor. E, como já dito, nada melhor para combater o fascismo de frente do que lembrar o quão absolutamente estúpido ele é. Fascistas são notoriamente orgulhosos de sua estupidez e rir deles é uma boa maneira de lhes tirar o poder.

Mas, para além da estupidez, fascismo também é uma ideologia absolutamente má. E provocou consequências horríveis para a humanidade – mesmo com a tendência da extrema-direita moderna em querer reescrever a Historia para justificar seu voto no neofascismo.  E, novamente, “Jojo Rabbit” dá conta do recado. Pois apesar do tom satírico, o filme não abdica de refletir sobre a crueldade provocada, contra os judeus e o povo alemão que enfrentou Hitler. E ao final, Jojo aprende muito mais do que apenas a se relacionar com sua nova amiga judia, mas a perceber os horrores que seu “amigo imaginário” produz em sua própria comunidade. E que não basta apenas entender que o “inimigo” não é seu inimigo; existe a necessidade de se repudiar o nazismo em maneira absoluta, pois ele é o verdadeiro inimigo. Nesse aspecto, “Jojo Rabbit” se sai bem em transmitir uma mensagem de mudança, mesmo que isso faça a história terminar em um ponto muito mais sombrio do que se poderia imaginar pelo seu inicial tom satírico.

Taika Waititi (“Thor: Ragnarok” e “O Que Fazemos nas Sombras”) escreve e dirige, além de atuar como o Hitler imaginário de Jojo. Sua direção tem seus bons momentos nas cenas de humor, mas geralmente quando o filme navega naquele limbo entre humor e tragédia, fica um tanto monótono. Suas cenas dramáticas tem impacto, em especial um momento decisivo ao personagem de Jojo no último ato. De uma forma geral, um trabalho competente, mas menos marcante que em outras sátiras que abordaram o tema (como os supracitados clássicos do primeiro parágrafo). Seu texto é muito bom e o timing para comédia funciona, com todo o elenco afiado para o que o roteiro propõe.

O elenco é liderado por Roman Griffin Davis, em sua estréia. O garoto é promisor, tem bom carisma e carrega muito bem o filme (rarissimas são as cenas em que ele não está presente). Thomasin McKenzie (de “Sem Rastros”) é Elsa, mais focada em momentos dramáticos (claro) e que divide muito bem a tela com Davis. Scarlett Johansson é a mãe de Jojo, que tem lá seus bons momentos na comedia, mas se sai melhor quando precisa ser a âncora dramática do arco do protagonista – ela realmente convence como mãe carinhosa de um nazistinha que também está lutando pela liberdade de seu país. Sam Rockwell (“Três Anúncios para um Crime”), Rebel Wilson (“Megarrromantico”) e Alfie Allen (“O Predador”) completam o elenco de coadjuvantes adultos. Archie Yates (também em sua estréia) é o carismático segundo melhor amigo de Jojo – perdendo a posição, claro, para o Führer.

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