Review: “Cats” de Tom Hooper

Difícil falar de “Cats” por que, apesar de ser um filme no sentido tradicional em que tem imagens e elas se movimentam na tua frente, é meio que uma coisa que não parece muito bem um filme. Até por que eu nem sei dizer o que é, só que é alguma coisa, por que existe. Inspirado no musical de Andrew Lloyd Webber, autor do famoso “O Fantasma da Ópera”, por sua vez inspirado numa série de contas de T.S. Eliot, um poeta norte-americano, “Cats” é sobre gatos. Aparentemente. Não tenho certeza. Não estou sendo irônico. Não tenho certeza se entendi se “Cats” é sobre gatos.

O filme acompanha Victoria, uma gata abandonada que esbarra em alguns gatos que estão vagabundeando na rua, e um deles resolve explicar para elas que eles irão participar de um baile onde um dos gatos irá morrer para ganhar uma nova vida. Portanto o grupo de gatos vai andando pelas ruas e introduzindo um personagem após o outro, sem que nenhum deles tenha nenhuma ligação ou faça nada que leve a lugar algum. Mas eles são gatos e o filme está muito seguro de que só isso basta. Ah, e tem um tal de Macavity, um gato aparentemente com superpoderes que consegue se teletransportar e teletransportar os outros à vontade, até a distância. Ele faz isso por que quer ganhar o baile para ter uma nova vida.

Por que diabos um gato que consegue se teletransportar fica sequestrando outros gatos para trapacear o baile eu não entendo… Considerando o dramalhão que eles fazem quando outro gato, o Mister Mistoffelees, consegue fazer o mesmo, eu acredito que esse superpoder deveria ser impressionante o suficiente. Mas enfim… E tem uma gata que escolhe quem vai ganhar vida nova, então Macavity sequestra ela, que não tem poder de se teletransportar e pode morrer se cair na água, mas tem o poder de ressuscitar gatos. Ah, e tem a Victoria no meio disso tudo, mas ela não faz nada. Literalmente canta apenas uma música sobre não ter passado. Mas todo mundo adora ela, enquanto aparentemente ela é nossa protagonista.

Socorro

Seria interessante se, com todos esses absurdos, a gente conseguisse chamar “Cats” de uma obra surrealista. Não, é apenas ruim e sem sentido mesmo. O fato de termos atores “fantasiados” (com efeitos especiais digitais) de gatos é o suficiente para ser esquisito. Mas a história se esforça em piorar. Não é apenas que ela não tenha lógica alguma – nem precisaria – é que ela realmente não diz nada sobre nada. Nem sobre gatos! Ao final da trama, a gata chefona Deuteronomy olha para a câmera, se dirigindo ao público do cinema, para explicar o que são gatos – eles não são cachorros! Sim, ela fala isso. O fato de o filme achar necessário ter uma personagem explicar o que diabos a história foi a respeito já é bizarro. O fato de precisar fazer isso em um filme sobre gatos beira o estúpido. A consequência de, ainda assim, eu não ter a menor ideia do que o filme disse é pura incompetência.

Assim, se “Babe – O Porquinho Atrapalhado” conseguiu trazer profundidade emocional a história de um porco, não deve ser o muito difícil contar uma história em que gatos são gatos. Mas “Cats” consegue fracassar nisso.

A direção é de Tom Hooper, que ganhou o Oscar por “O Discurso do Rei” (filme que eu aposto que você já esqueceu que existe) e que já dirigiu o musical “Os Miseráveis” antes. Know how ele tem. Mas fracassou em usar seu conhecimento para falar sobre gatos. Não que sua direção seja ruim, mas sem dúvida não é boa e não ajuda. Ele também assina o roteiro, junto com Lee Hall, então tem muita culpa. Além de sua competência também dá para falar mal dos efeitos especiais, da maquiagem digital e da edição. Musicais frequentemente usam de “liberdade criativa” para transportar os personagens por danças e cantorias que não tem lógica em um contexto normal. Mas “Cats” teletransporta – sem o auxílio de Macavity – seus personagens, que de um quadro onde estão numa sala e no corte seguinte aparecem em uma cozinha, enquanto continuam cantando a mesma linha de uma música. Galera, cinema não funciona assim.

O elenco – coitado do elenco – é basicamente composto por atores da Broadway sem muita experiência cinematográfica. A maioria se sai bem no quesito dançar. Cantar, ok, talvez, difícil saber por que eu ficava muito distraído questionando o visual felino de cada um deles durante os close ups. Por que diabos os gatos estão dançando pelados? Enfim. Francesca Hayward é Victoria e não faz muita coisa fora olhar com cara de fascinação para tudo. Tudo. O tempo inteiro. Plenamente irritante. Se sai bem quando canta sua música principal, mas não é o suficiente para marcar a performance. Robbie Fairchild  é o gato que a acompanha e explica quem são os outros gatos. Ele fala, canta e dança tão mais que Victoria que provavelmente deveria ter sido o protagonista. Mas ele também não faz nada além disso e não tem uma narrativa própria, então sei lá… Acho que “Cats” não tem protagonista no sentido tradicional da narrativa. Os protagonistas somos nós, o público, que fica achando que sabia o que eram gatos, mas agora tá na dúvida.

Aí, parabéns pelo esforço Jennifer!

Jason Derulo (“Sexy por Acidente”) é um gato sensual que tem uma única música e some, mas aparece no final para ficar gemendo. Laurie Davidson (“Will”) é o Mister Mistoffelees que faz questão de lhe lembrar que nunca houve um gato tão esperto como o mágico Mister Mistoffelees, por que ele canta isso umas doze vezes na sua música. Rebel Wilson (“Megarromântico”) é uma gata preguiçosa que gosta de comer baratas que dançam em cima de um bolo de morango – desculpa pelo spoiler, mas a sequência musical dela é provavelmente a coisa mais estúpida de longe no festival de estupidez que é “Cats”. Idris Elba (“Círculo de Fogo”) é Macavity que fica pelado no final junto com a Taylor Swift. Judi Dench é a gata que escolhe quem irá ressuscitar e eu acho que nunca serei capaz de deletar a imagem da lendária atriz fazendo cara de orgasmo fantasiada de gata. Ian McKellen também aparece para cantar uma única música bem ruinzinha, mas que faz todos os gatos miarem de alegria sei lá por que. E temos Jennifer Hudson, oscarizada por “Dreamgirls”, fazendo de tudo para ganhar outro Oscar, dando o seu melhor em “Memory“, mas fantasiada de gata né coitada. Assim não rola.

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