Review: “Adoráveis Mulheres” de Greta Gerwig

“Adoráveis Mulheres” é um livro de Louisa May Alcott publicado entre os anos de 1868 e 1869 que fez grande sucesso à época e rapidamente se tornou um clássico literário, inspirando adaptações cinematográficas desde muito cedo – a primeira foi em 1917. De lá para cá muita atriz de renome já deu as caras a uma de suas adoradas protagonistas: Katharine Hepburn e Winona Ryder já foram Jo, Janet Leigh já foi Meg, Elizabeth Taylor e Kirsten Dunst já foram Amy e Claire Danes a Beth. E como já estávamos 25 anos sem uma nova versão, alguém resolveu tirar sua cópia da estante e dar uma cara moderna.

A visão 2019 para o clássico ficou a cargo de Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu “Lady Bird” e já mostrou que tem talento de sobra para poder dirigir o que quiser, então deixa ela. Sua nova versão de “Adoráveis Mulheres” muda algumas coisas, principalmente a ordem da história (aqui narrada em flashbacks, ao invés da tradicional linearidade cronológica) e dá um tratamento diferente a personagem de Jo. A protagonista, que desde o texto original de Alcott serviu como uma espécie de “avatar” da autora dentro do contexto de mulher querendo publicar seu próprio livro, aqui se tornou mais direto. Jo literalmente publica um livro chamado “Adoráveis Mulheres” e tem que debater com seu editor os seus direitos a um pagamento justo – mais apropriado para 2019 que isso não tem. É um filme sobre o papel da mulher numa sociedade que não permite que mulheres tenham muitos papeis.

A história, para quem desconhece, se passa durante a Guerra Civil dos Estados Unidos e mostra a família March – composta por quatro irmãs e uma mãe – e seus dramas domésticos. Jo é a mais ambiciosa, quer ser autora e sempre se diverte com as irmãs interpretando seus textos no sótão da casa. Meg tem talento para ser atriz, mas estaria satisfeita com um casamento feliz também. Amy quer ser pintora, mas entende que precisa se casar com um homem rico por que estamos nos anos 1860 e ela não tem muita opção. E Beth é uma ótima pianista com mania de pegar escarlatina duas vezes na mesma história. Apesar da narrativa focada em mulheres com suas próprias ambições, a história segue uma conclusão bastante óbvia – por que, novamente, estamos nos anos 1860 e Alcott não tinha muita escolha. A própria conclusão do enredo amoroso de Jo ganha ares de meta-comédia aqui, com Gerwig aproveitando para brincar com essa mania de homem não gostar de ver mulher terminando sem homem em histórias sobre a vida delas, não deles.

 

“Adoráveis Mulheres” poderia ser um texto que não teria muita folga para novas adaptações, mas a lerdeza com a qual a sociedade progride para dar uma chance a mulheres em terem a mesma facilidade que homens tem em ser qualquer coisa garante que a narrativa de uma autora querendo publicar um texto sobre suas irmãs se torne eternamente atual. O texto de Gerwig brinca aqui com o editor que acha que a história de Jo não teria apelo comercial, até que suas três filhas leem e se interessam por ele. Mulheres querendo ler livros sobre mulheres escrito para mulheres??? Só homem mesmo para ficar surpreso com essa ideia, mas cá estamos.

A decisão de Gerwig em narrar a história através de flashbacks tira um pouco o foco da narrativa e suas reviravoltas em si (Meg, a irmã que está de boas tendo um casamento feliz, tem bem pouca coisa para fazer) e dá mais atenção aos conflitos de Jo e Amy. Duas mulheres com ambições particulares e que batem de frente enquanto duelam com seus próprios receios a respeito dos aspectos econômicos de um casamento. O monólogo de Amy falando sobre a necessidade de querer se casar com homem rico pela fala de opção de uma mulher em poder ser outra coisa a não ser a esposa de alguém diz muito a respeito das prisões estruturais que uma sociedade patriarcal impõe pela gratuidade de não permitir que todo mundo possa ser dono de suas escolhas. A direção de Gerwig capricha em alguns cortes e montagens interessantes. Uma cena que me chamou atenção é quando Jo, explicando para seu interesse romântico Laurie por que não se casar com ele, chora no alto de uma colina com uma igreja distante ao fundo dividindo o enquadramento. A sociedade impõe sua presença, mesmo de longe. E eu acho que não foi uma mulher que chegou na Igreja Católica e inventou essa história de casamento, sabe…

Saoirse Ronan, que já havia trabalhado com Gerwig em “Lady Bird”, marca sua habitual competência e carisma a uma Jo brincalhona e arrogante. Florence Pugh, saída brilhante de “Midsommar“, também dá garra a sua Amy, que divide o protagonismo com Jo em vários momentos. Emma Watson tá lá, sendo Emma Watson. Eliza Scanlen tem poucas cenas que dão destaque para a Beth, mas por favor prestem atenção na delicadeza de suas expressões com a cena em que ela ganha um piano. Laura Dern vive a matriarca da família, dando a autoridade necessária a uma “adorável mulher” que já viveu o suficiente para ter aprendido algumas coisas. Meryl Streep vive a Tia March e Chris Cooper o vizinho simpático. Timothée Chalamet interpreta um Laurie com o jeitão de Thimothée Chalamet – talento o garoto tem, mas já tá começando a ficar muito com tipo demais. Louis Garrel é o coitado que vira piada ao final por que Greta Gerwig tava com menos paciência que a Louisa May Alcott para final clichê.

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