Review: “O Homem Invisível” de Leigh Whannell

Remakes raramente vem para mostrar ao que vieram, ou mesmo sequer tentar algo novo. Seja uma reinterpretação pouco inovadora como “Sexta-Feira 13” ou algo que simplesmente copia o original, como “Psicose” (até hoje estou em negação que tentaram refilmar “Psicose”…), isso fica mais óbvio no gênero de terror, que simplesmente quer pegar uma boa marca – geralmente ancorada por um vilão pop – e tentar fazer mais dinheiro fácil. O próprio “O Homem Invisível”, de 1933, já foi refilmado anteriormente por Paul Verhoeven com “O Homem Sem Sombra” em 2000. Na época um sucesso muito mais celebrado por ter efeitos especiais de ponta do que por ser um filme realmente mais interessante que o original.

Mas cá estamos, 20 anos depois (!), e é hora de tentar outra vez. E depois do fiasco que foi o remake de “A Múmia” em 2017, que deveria ter estreado uma série de filmes interligados, incluindo um “O Homem Invisível” estrelado por Johnny Depp na época que ele ainda tinha carreira, o estúdio Universal volta atrás e faz algo mais simples. Apesar do nome, “O Homem Invisível” é menos uma história sobre um cientista maluco e mais a jornada de uma mulher tentando se livrar de um cientista maluco.

Cecilia é uma arquiteta (na minha cabeça foi ela que desenhou a belíssima casa onde o casal mora, mas isso é detalhe pessoal) que está em um relacionamento abusivo com Adrian, um famoso cientista da ciência óptica. Ela consegue fugir do namorado, que evidentemente não tá muito de boas com a ideia de ter sua prisioneira livre, e tenta recomeçar a vida, terrivelmente amedrontada. Eis que Adrian, aparentemente, comete suicídio e deixa uma bela herança para Cecilia. Mas, ainda traumatizada com a relação, ela passa a sentir o ex-namorado a sua espreita. Mesmo que ela não o possa vê-lo.

Como já dito, o filme é narrado do ponto de vista de Cecilia. Adrian tem poucos minutos de cena e, ainda assim, é filmado em sombras, desde logo introduzindo ele muito mais como uma figura misteriosa e silenciosa. O resto da história é todo com os olhares sobre Cecilia e, claro que, quando o homem invisível “aparece” (espero não ser considerado spoiler dizer que tem um homem invisível em “O Homem Invisível”), ele é apenas uma ameaça antagônica. A vítima é ela e a história é dela. Sua jornada, de mulher em relacionamento abusivo tentando se livrar de um passado que não a deixa seguir em frente, é todo o mote da narrativa. Ajuda muito o filme ter uma Elisabeth Moss para carregar isso tudo sozinha.

Moss, que já havia demonstrado ser uma grande atriz com o seu inesquecível trabalho como Peggy Olson nas sete temporadas de “Mad Men”, e que agora protagoniza o perturbador “The Handmaid’s Tale”, finalmente tem a oportunidade de mostrar sua força como protagonista para alavancar um filme. Seria um erro dizer “nasce uma estrela”, pois essa aqui já tá brilhando desde 2007 pelo menos! Mas sem dúvida “O Homem Invisível” lhe dá oportunidade de mostrar seu talento como protagonista de uma historia inteira sobre ela e sua atuação é grandiosa. Méritos também da história, escrita pelo diretor Leigh Whannell, que não só amarra muito bem suas reviravoltas, como estabelece uma personagem passando por um arco difícil e muito emotivo. A conclusão é triunfal e coloca Cecilia a ter uma desfecho marcante.

Whannell também merece muitos créditos pelo sua direção. O primeiro ato de “O Homem Invisível” mantém o clima de terror do qual o clássico original faz parte. As cenas de “será que ele está lá?” enquanto a câmera se mantém fixada em algum cenário são bem boladas. Quando nosso vilão finalmente “aparece” – no sentido de que para de torturar Cecilia e passa a atacá-la fisicamente – somos presenteados como uma intensa cena de perseguição. A partir daí a história sofre uma reviravolta imprevisível e o resto do filme migra mais para o gênero de thriller, com ao menos um memorável momento de ação – uma luta do homem invisível com diversos policiais em um corredor. O clímax, bem menos excitante e mais focado na conclusão da jornada de Cecilia, amarra todas as emoções com um belo laço de presente.

E muito irá se falar da relação da história com relacionamentos abusivos, o que é justo. Apesar do texto não soletrar nenhuma emoção a audiência, é bem claro o terror psicológico que Adrian causa em Cecilia – fazendo ela se afastar de amigos e familiares, achando que está louca, etc… Mas o mais importante não é apenas essa ligação, mas sim como o filme demonstra (menos metaforicamente do que um “homem invisível” possa insinuar) os impactos psicológicos dessa relação na vítima e o caminho que ela deve seguir para se livrar. Acredito que seja um bom complemento a este filme o também excelente “Midsommar: O Mal Não Espera a Noite“, por abordar o mesmo tema de maneira completamente diferente – este sim, muito mais metaforicamente. Repare como ambos terminam com close-ups de nossas heroínas. Tem uma mensagem em comum em ambas jornadas.

O resto do elenco inclui Oliver Jackson-Cohen (“A Maldição da Residência Hill”) que tem pouquíssimos minutos em cena como o homem invisível quando ele está visível. Harriet Dyer é a irmã de Cecilia. Aldis Hodge um amigo que lhe dá suporte. Todo mundo muito direitinho. Mas eu já expliquei que o filme é todo da Elisabeth Moss, né?

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Uma resposta para Review: “O Homem Invisível” de Leigh Whannell

  1. Mauro MS disse:

    Querendo ver.

    Curtir

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