Review: “Resident Evil 3” para PlayStation 4

Seguindo o sucesso do bem sucedido remake de “Resident Evil 2“, a Capcom resolveu fazer aquilo que toda empresa preguiçosa faz quando não quer se esforçar em seguida: outro remake. Relançar “Resident Evil 3: Nemesis” nos mesmos moldes parece uma escolha natural e sensata. E como “Resident Evil 8” ainda não saiu do forno, a empresa deve ter achado prudente (e lucrativo) repetir o sucesso. E eis que, apenas um ano depois, recebemos “Resident Evil 3”. Sem “Nemesis” no nome. Por que subtítulos são uma coisa muito anos 90 demais…

Por falar em anos 90, lembram de 1999? O ano foi mais famoso pela ansiedade com o bug do milênio, que nunca se realizou, e pela expectativa com a virada de milênio. Eu tava lá. Foi legal. Teve “Matrix”, “O Sexto Sentido” e “A Bruxa de Blair”, os reis do boca-boca, relíquias de uma época em que a internet ainda engatinhava e filmes viravam sensação por que as pessoas realmente comentavam sobre eles na rua. Nos videogames, além de “Resident Evil 3”, tivemos “Silent Hill”, “Driver”, “Final Fantasy VIII”, “GTA 2” e “Tomb Raider: The Last Revelation” (incluo aqui meu voto por um remake deste último). Um ano não muito memorável, sem dúvida não em relação a 1998, e marcado pelo fim de uma geração ansiosamente aguardando o PlayStation 2. Assim, o Dreamcast estava lá, mas em 1999 as pessoas já não se importavam muito com ele.

Nesse contexto, o que “Resident Evil 3: Nemesis” oferecia? Não muito. O jogo foi lançado um ano após o “Resident Evil 2” original e simplesmente repetiu o que seu antecessor fez antes. Tentou algumas coisas novas (como momentos de escolher como a história progredia); introduziu o modo Mercenaries, que virou padrão na franquia na década seguinte; e, claro, fez Nemesis um dos vilões mais famosos dos videogames. Mas em termos de ideias, de jogabilidade ou mesmo gráficos, era mais do mesmo. Um mais do mesmo competente, bem feito e divertido. Mas ainda assim, com aquele gosto de requentado. Especialmente tendo sido lançado apenas um ano depois. Não deu nem tempo de sentir saudades de Resident Evil e lá foi a Capcom nos dar mais um.

E o que ela fez com o remake? Ora bolas se não exatamente a mesma coisa! Nada como 21 anos para não se aprender com os erros, não é mesmo? “Resident Evil 3” é, deixa eu copiar aqui, “competente, bem feito e divertido”. E só. Acabou minha resenha. O jogo não trás nada de novo em relação ao remake de “Resident Evil 2” e simplesmente trata este novo lançamento como uma extensão daquele. Poderia muito bem ser uma expansão lançada via download e ninguém iria reparar. E, se não existe nada de criminoso na preguiça, em um remake ela fica mais evidente. Pois “Resident Evil 2” pode não ter inventado a roda (é um remake, afinal de contas), mas trouxe algo de novo ao estabelecido antes. Ao simplesmente imitar seu antecessor, como o “Resident Evil 3” original, este remake se coloca na desfavorável posição de ser esquecido mais rápido que o bug do milênio.

Mas, fora a falta de criatividade, “Resident Evil 3” tem seus acertos. Primeiro de tudo, é divertido. O que, no final das contas, é o que vale. A jogabilidade continua precisa e balanceada. E durante a curtíssima experiência (minha primeira jogada durou míseras 4 horas) o ritmo é consistente e a história está sempre indo em frente. Entretanto, essas qualidades comprometem outras características. O ritmo, como evidenciado pela curta duração, não permite você apreciar nenhum cenário. “Resident Evil 2” lhe deixava um bom tempo na delegacia de polícia antes de jogar Leon ou Claire nos esgotos ou laboratórios secretos. A aventura não era particularmente longa, mas dava tempo de curtir cada ambiente. Em “Resident Evil 3” você não passa nem 30 minutos nas ruas de Raccoon City antes de cair em uma boss fight grandiosa com Nemesis que coloca Jill para correr de explosões que poderiam ter saído de “Resident Evil 6” – ugh, odeio aquele jogo!

O jogo alterna entre Jill e Carlos de maneira pouco interessante. Ao personagem brasileiro lhe cabe explorar uma delegacia de polícia vazia (o início de “Resident Evil 3” precede “Resident Evil 2”) de maneira linear e sem graça. Depois ele retorna em uma interessante sequência no hospital que poderia ter sido muito mais memorável se durasse mais do que 40 minutos. Mesmo o clímax dessa sequência, um longo tiroteio com uma horda de zumbis, algo similar aos melhores momentos de ação de “Resident Evil 4”, não ganha muito destaque simplesmente por que não dá tempo de curtir. E quando voltamos ao hospital, como Jill, não tem nada de novo para explorar. O jogo é extremamente linear e apressado. Parece que está doido para ser terminado.

O que é uma pena. Boas ideias de “Resident Evil 2” funcionariam melhor aqui. Expandir o cenário das ruas de Raccoon City parece uma escolha mínima, dada a evolução tecnológica das últimas duas décadas. Se uma delegacia de polícia pôde parecer algo tão maior em 2019, não tem motivo para ficarmos presos a uma quarteirão e um hospital pela metade em 2020. E o retorno de Nemesis é, francamente, frustrante. Parecia natural que ele repetisse o padrão do Mr. X do remake anterior, constantemente seguido nossa heroína pelos becos de Raccoon City. Mas não, ele aparece dessa maneira apenas uma vez na curta sequência inicial nas ruas, e depois vira um chefão recorrente. Suas batalhas são sempre divertidas e criativas. Só que ele poderia ter sido melhor utilizado. Mesmo quando está perseguindo Jill ele não tem o impacto do suspense, como o Mr. X que anunciava sua chegada com o som de seus pesados passos. Nemesis simplesmente se torna um momento um pouco mais intenso na sequência final pelas ruas e, se você tiver inseguro, pode sempre se esconder em alguma loja que ele não entra não.

E olha que a Jill sequer trancou a porta…

Além disso o jogo não apresenta muita variedade para incentivar o retorno a Raccoon City. “Resident Evil 2” tinha duas campanhas que podiam ser jogadas em ordem diferente – teoricamente formando quatro campanhas, mesmo que elas repetissem conteúdo. Como os dois personagens de “Resident Evil 3” dividem a mesma narrativa paralelamente, aqui sequer temos isso. Apesar de ser divertido, este remake não incentiva novas investidas. Não se sinta surpreendido se, ao terminar “Resident Evil 3”, você acabe jogando “Resident Evil 2” novamente. O que revela uma oportunidade desperdiçada.

Mas, que será, será. Um remake pouco interessante não atrapalha a jornada para os fãs, que sempre terão o original como experiência mais memorável, se assim escolherem. Só espero que essa preguiça em repetir receita não estimule a Capcom a seguir nessa rota com um eventual remake de “Resident Evil 4”. Com um clássico daquela magnitude, o tombo seria muito maior.

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