Review: “Ad Astra: Rumo às Estrelas” de James Gray

A busca por vida inteligente fora da Terra é uma questão que atinge a humanidade tem algo por volta de um século apenas. Sim, o conceito de vida extraterrestre é relativamente novo para uma civilização que há milênios inventa divindades que transcendem a nossa existência para justificar nossa existência. Até os planetas que descobrimos primeiro receberam nomes de deuses romanos! E, do ponto de vista científico, vida fora da Terra é quase uma certeza – micro-organismos são prováveis de existir até mesmo no nossos Sistema Solar. Vida inteligente é mais complicado. A estrela mais próxima ao nosso Sol, Proxima Centauri, está a 4,22 anos luz de distância. Um foguete moderno demoraria 100 anos para chegar lá. Comunicação entre civilizações dessas estrelas não seria tão prático quanto mandar um e-mail entre Rio e São Paulo. É mais fácil encontrar Deus mesmo.

Nossa hein, e “Ad Astra” hein moço? O filme é narrado por Roy McBride, um astronauta filho de outro astronauta que foi enviado para os confins do nosso sistema a fim de procurar vida inteligente fora da Terra. Como seu pai desapareceu e um misterioso evento em Netuno (o deus dos mares) está ameaçando a nossa existência por aqui, Roy é enviado “às estrelas” para procurar seu pai e descobrir o que aconteceu. Sim, procurar o pai. Pai? Deus? Pois é. A maioria das religiões – ao menos as monoteístas – tendem a interpretar o Criador do Universo como alguém “lá fora”, no céu ou no espaço vazio. Além de nossa existência. Se acreditamos em Deus, geralmente não acreditamos que ele está conosco, mas está “nos esperando”, talvez um dia a gente chegue lá. Quando morrer. Mas só se for bonzinho! Ai ai ai!

E os alienígenas? Bem, eles também estão lá. Claro. Mas se são seres conscientes – como interpretamos que Deus seria – não estão falando conosco – como Deus também não está. Se Deus conversa é através de escrituras sagradas, escritas por homens milênios atrás, e que raramente são atualizadas. A Bíblia não recebe uma atualização desde que a Reforma Protestante do século XVI reclamou do atraso daquelas ideias. Enfim, Deus não tem nos dados muito sinais de conversa. A analogia entre divindades e extraterrestres no filme propõe divagações interessantes. Sem entrar em spoilers, mas o clímax da história entrega algumas falas que realmente ativam indagações para levar a boas conversas. A busca humana por algo além de nós sempre é resumida com “estamos sozinhos no Universo?”

Nós nunca estivemos sozinhos no Universo.

“Ad Astra” é dirigido por James Gray, famoso por filmes introspectivos como “Era Uma Vez em Nova York” e “Z: A Cidade Perdida”. E desde “2001: Uma Odisseia no Espaço” que o gênero sci-fi se tornou um belo exercício para a introspecção sideral. Mesmo produções explosivas e caras como “Interestelar” são sobre a relação humana e aqui Gray vai fundo. O texto (também escrito por Ethan Gross, do seriado “Fringe”) é totalmente focado no personagem de McBride e narrado por seus pensamentos e reflexões. É a história de um filho procurando o próprio pai. Se isso é uma analogia sobre Deus ou vida extraterrestre, vá além. O filme deixa claro quem é o personagem central, o que ele procura e o que encontra ao final. Como nossa relação com nossos pais – nossos criadores – explica nossas aflições existenciais será algo que partirá a respeito da interpretação de cada um.

O protagonista é interpretado por Brad Pitt em um papel feito para ele. Pitt se tornou um bom ator de homens calados e reprimidos – se tornou até um tipo seu. Exatamente o que McBride é, um “machão” sensível que não gosta de expressar seus sentimentos. Afinal ele é um astronauta! Astronautas não sentem! Ou ao menos foi isso que seu pai lhe ensinou, claro. Excelente trabalho do ator. Fora ele temos brevíssimas aparições de Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e Ruth Negga. Essa última inclusive introduzida como uma humana nascida em Marte – ou seja, oficialmente uma extraterrestre. E McBride conhece vida inteligente fora da Terra e sequer pisca. Realmente, nunca encontramos o que procuramos quando não paramos para olhar a nossa volta.

Nós nunca estivemos sozinhos no Universo.

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